O heavy metal vai falar mais alto: Primal Fear chegam ao Milagre Metaleiro
Há uma coisa que se percebe rapidamente quando se vê um concerto dos Primal Fear: a banda não está ali para complicar. Entra em palco, liga as guitarras, Ralf Scheepers abre a boca e, poucos segundos depois, há uma multidão a cantar como se conhecesse aquela música desde sempre.
É essa experiência que o público português poderá viver no Milagre Metaleiro Open Air 2026. Os alemães fazem parte do cartaz do festival e chegam a Portugal com um novo disco debaixo do braço e uma carreira que já atravessa quase três décadas.
E sim, haverá certamente muito metal. Mas haverá sobretudo músicas que pedem para ser gritadas em conjunto.
Os Primal Fear apareceram em 1997, numa altura em que o heavy e o power metal europeu continuavam a encontrar novas formas de chegar ao público. À frente da banda estavam dois nomes que já conheciam bem aquele universo: Ralf Scheepers e Mat Sinner. Scheepers vinha da experiência nos Gamma Ray e trazia consigo uma voz que rapidamente se tornou uma das mais reconhecíveis do género. O primeiro álbum, simplesmente Primal Fear, não demorou a mostrar a fórmula. Guitarras. Velocidade. Melodia. E refrões enormes.
Nada demasiado complicado. Mas extremamente eficaz.
É provável que, em algum momento do concerto em Pindelo dos Milagres, aconteça aquele momento clássico. Começam os primeiros segundos de uma música. Alguém no público reconhece. Depois outro. E, de repente, toda a gente sabe o que vem a seguir. É isso que acontece com temas como “Metal Is Forever”, “Angel in Black”, “Nuclear Fire”, “Fighting the Darkness”, “Seven Seals”, “The End Is Near” ou “Chainbreaker”. Não são apenas músicas dos Primal Fear. Para muitos fãs, fazem parte da banda sonora de uma vida passada entre concertos, viagens, discos e noites de metal. E talvez seja essa a verdadeira força de uma banda com esta longevidade.
A idade pode passar, as formações podem mudar e o mercado pode transformar-se. Mas Ralf Scheepers continua a ter uma voz capaz de dominar um palco. Quem já o viu ao vivo sabe do que estamos a falar. Os agudos continuam a aparecer. A potência está lá. E quando chega um refrão como o de “Metal Is Forever”, Scheepers sabe exatamente o que fazer: deixar espaço para o público. Porque os Primal Fear nunca foram apenas uma banda para ouvir. São uma banda para participar.
Apesar da longa carreira, os Primal Fear não estão simplesmente a viver dos clássicos. Em 2025 lançaram Domination, o seu 15.º álbum de estúdio. É um disco que mantém a identidade da banda, mas apresenta também uma formação renovada. Entre os novos elementos estão a guitarrista italiana Thalìa Bellazecca e o baterista André Hilgers, que se juntaram a Scheepers, Sinner e Magnus Karlsson. O álbum inclui temas como “The Hunter”, “Destroyer”, “Far Away”, “Tears of Fire” e “I Am the Primal Fear”. E há uma sensação interessante em Domination: a banda não parece estar a tentar convencer ninguém de que precisa de ser outra coisa. São Primal Fear. E isso chega.
Porque é que ainda precisamos destas bandas? Talvez esta seja a pergunta mais interessante. Depois de tantos anos, por que razão continuamos a querer ver bandas como os Primal Fear? Porque o heavy metal não é apenas uma questão de novidades. É memória. É amizade. É aquele disco que alguém nos emprestou quando éramos mais novos. É uma viagem de carro para um festival. É um refrão que sabemos de cor mesmo depois de anos sem o ouvir. É chegar a um concerto e perceber que a pessoa ao nosso lado, que nunca vimos antes, conhece exatamente a mesma música. É uma linguagem comum. E os Primal Fear falam fluentemente essa linguagem.
É por isso que a presença dos Primal Fear no Milagre Metaleiro Open Air 2026 promete ser mais do que uma simples passagem de uma banda histórica por um festival português. Será um encontro entre diferentes gerações. Entre quem cresceu com Nuclear Fire e quem está agora a descobrir Domination. Entre quem vai para ouvir os clássicos e quem quer perceber como soa a atual formação. No final, provavelmente pouco importa. Quando Ralf Scheepers começar a cantar e as guitarras entrarem em força, haverá apenas uma coisa a fazer. Cantar. Mesmo que no dia seguinte já não tenhamos voz.
Primal Fear. Milagre Metaleiro 2026. Há concertos que vemos. E há concertos que vivemos.