“O festival Clap Your Hands reforça Leiria como uma cidade cultural ativa”, Carlos Matos, da Fade In

O Clap Your Hands regressa em 2026 para a sua oitava edição, reafirmando-se como um dos espaços mais atentos e consistentes na observação da nova música portuguesa. Ao longo dos anos, o festival tem consolidado uma identidade própria, marcada pela diversidade estética, pelo diálogo entre geografias e gerações e por uma forte ligação ao território de Leiria. Nesta nova edição, alarga a sua presença no calendário — de fevereiro a julho — e reforça a aposta no cruzamento entre artistas emergentes e nomes já consolidados, mantendo a coerência curatorial que o caracteriza desde o início.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, Carlos Matos, da Fade In, partilha a visão estratégica por detrás da edição de 2026, explicando os objetivos que orientam a programação, os critérios de seleção artística e os desafios de apresentar concertos em diferentes espaços da cidade. Reflete ainda sobre o papel do festival na valorização da criação nacional contemporânea, o seu contributo para a afirmação cultural de Leiria e a forma como o Clap Your Hands se projeta no futuro enquanto observatório atento e espaço de descoberta da música portuguesa atual.

O Clap Your Hands regressa em 2026 para a oitava edição. Que objetivos principais definem esta edição em comparação com as anteriores?
A oitava edição reafirma o posicionamento do Clap Your Hands como um observatório ativo da nova música portuguesa, dando continuidade à consolidação de uma identidade que reforça a diversidade estética, aprofunda o diálogo entre geografias e mantém a proximidade ao território de Leiria. Em comparação com edições anteriores, esta edição destaca-se também pela distribuição temporal alargada (fevereiro a julho) e por uma programação que evidencia ainda mais o cruzamento entre artistas emergentes e nomes consolidados, mantendo, desta forma, a coerência curatorial que caracteriza o festival desde o início.

Como é que a programação consegue equilibrar projetos emergentes com nomes já consolidados da música portuguesa?
O equilíbrio nasce da própria estrutura do festival que proporciona concertos que juntam, na mesma noite e no mesmo palco, artistas com diferentes estágios de carreira. Pegando no exemplo da noite que junta Noiserv e Grutera, percebemos que o primeiro representa um nome já consolidado da música independente nacional enquanto o segundo, que traz uma abordagem singular à guitarra, tem um percurso afirmado mas ainda em expansão. Ao cruzar estes universos, o festival cria pontes naturais entre públicos e gera descoberta orgânica. Quem vai por um artista acaba por vivenciar o território estético do outro.

O festival decorre em dois espaços distintos: Teatro Miguel Franco e Blackbox. Que desafios e oportunidades surgem ao apresentar concertos em locais tão diferentes?
A principal oportunidade está na diversidade de experiências. O Teatro Miguel Franco, com uma configuração mais formal, acústica cuidada e lugares sentados, favorece concertos de maior detalhe sonoro e dimensão cénica. Já a Blackbox, que pode ter lugares sentados ou lugares em pé, proporciona proximidade, intensidade e uma relação mais direta entre artista e público. O desafio passa pela adaptação técnica e artística, pois cada espaço pede uma abordagem diferente ao som, à luz e à performance. É também essa diferença que enriquece o festival e amplia as
possibilidades criativas dos seus intervenientes.

A edição de 2026 inclui artistas com estilos muito variados, desde Noiserv a Mães Solteiras e Albatroz. Qual é o critério da organização para selecionar os projetos convidados?
A curadoria assenta na relevância artística no presente, na diversidade estética e geográfica, e na relação com o território e com o público do festival. Projetos como Mães Solteiras, Albatroz, Stone Dead ou Expresso Transatlântico mostram que não há uma única linguagem dominante. O critério não é o género musical, mas a pertinência criativa e a capacidade de acrescentar algo ao panorama atual.

O Clap Your Hands destaca-se pela diversidade estética e pela promoção da criação nacional. Como é que o festival contribui para a descoberta de novos talentos e para o diálogo artístico em Portugal?
O Clap Your Hands cria contexto. Ao colocar artistas distintos no mesmo palco e na mesma noite, promove circulação de públicos, troca de ideias e até potenciais colaborações. Além disso, o festival posiciona-se como um espaço de atenção crítica à nova música portuguesa. Ao programar artistas emergentes lado a lado com nomes já reconhecidos, legitima percursos e acelera visibilidade.

Quais são os aspetos que diferenciam o Clap Your Hands de outros festivais ou ciclos de concertos dedicados à música portuguesa contemporânea?
Penso que alguns dos aspetos distintivos são o foco exclusivo na criação nacional contemporânea, uma curadoria que privilegia diálogo intergeracional, o forte enraizamento local em Leiria, e um formato concentrado sem dispersão de palcos simultâneos, o que, a título pessoal, considero menos dignificante para bandas e artistas. O Clap não é um festival de massas, é um espaço de escuta atenta. A experiência é pensada para ser intimista e envolvente, não fragmentada.

Ao longo das edições, já passaram artistas muito variados. Há alguma estratégia para garantir que se mantém o festival atualizado com as tendências e a evolução da música portuguesa?
Sim. A organização mantém acompanhamento constante da produção nacional. Estamos permanentemente atentos aos novos discos, circuitos independentes, editoras emergentes e dinâmicas regionais. O histórico do festival mostra essa atenção: já passaram artistas como Ana Lua Caiano, Fado Bicha, PAUS, iolanda, Mike El Nite, Ermo, Luís Severo, Benjamim, The Twist Connection, Cave Story ou Surma, todos eles representativos de momentos específicos da evolução recente da música portuguesa. Portanto, a estratégia passa por uma escuta contínua e atualização permanente da curadoria.

Qual é a importância do festival para a cidade de Leiria e para a valorização da cena musical local?
O festival reforça Leiria como cidade cultural ativa, não apenas como palco, mas como agente na criação contemporânea. Quando a UNESCO atribuiu a Leiria o título de Cidade Criativa da Música, o Clap já existia, e acreditamos que o nosso trabalho também terá sido, em algum momento, considerado. Se daí resultou um contributo nosso para esse reconhecimento, ficamos orgulhosos e com a sensação de que alguma coisa muito positiva temos vindo a fazer. Além disso, ao envolver espaços como o Teatro Miguel Franco e a Blackbox, o festival valoriza infraestruturas locais, dinamiza públicos e aproxima a comunidade da produção artística nacional.

Para os artistas que participam, quais os benefícios de tocar no Clap Your Hands, em termos de visibilidade, networking ou experimentação artística?
Os intervenientes artísticos do Clap Your Hands são potencialmente expostos a novos públicos e associados a uma marca curatorial reconhecida. Depois há ainda que equacionar todos os ganhos intangíveis que advêm do contexto de proximidade e atenção real à performance, e às possibilidades de trabalho em rede e a futuras colaborações. Atuar no Clap Your Hands não é apenas integrar um cartaz, é participar num espaço de validação artística dentro do circuito independente português.

Olhando para o futuro, como a organização vê a evolução do Clap Your Hands nos próximos anos e que novos desafios ou oportunidades pretendem explorar?
O futuro passa por consolidar a identidade sem perder o risco. Expandir o diálogo, manter a diversidade e, eventualmente, explorar novas formas de programação complementar (conversas, residências, colaborações especiais). O desafio será crescer sem perder proximidade, mantendo o caráter de observatório atento e espaço de descoberta, acompanhando por dentro a evolução da música portuguesa.

Foto: Jornal de Leiria

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