“O caminho que sinto à minha frente é de me afirmar como um artista que não tem um estilo definido”, Luster
Com “Destrambelhado”, Luster transforma cinco anos de experiências vividas num diário sonoro profundamente pessoal, enraizado na cidade, moldado pela instabilidade e impulsionado por uma necessidade instintiva de criar. Misturando influências de hip-hop, dub e jazz, o álbum reflete não só as suas bases musicais, mas também um percurso formativo marcado pela resistência, pela descoberta de si próprio e por uma constante negociação entre estrutura e liberdade. Mais do que uma coleção de canções, Destrambelhado afirma-se como uma declaração de identidade — simultaneamente íntima e expansiva — onde memória, lugar e emoção convergem numa linguagem artística singular.
Por Sandra Pinto
Nesta conversa, Luster reflete sobre as origens do projeto, a sua evolução criativa e as experiências que moldaram tanto o disco como a sua relação com a música e com o palco.
Luster, Destrambelhado é um retrato das tuas vivências e da cidade. Quando sentiste que essas experiências precisavam de se transformar em música?
Antes de mais muito obrigado pelo convite para esta entrevista! A necessidade de criar por parte do artista é algo, a meu ver, inerente à própria experiência de ser um criador seja de que área for. Pelo menos comigo é exatamente assim, a inspiração vem e a criação tem que sair, é quase como um balão a encher de ar.
O álbum demorou cinco anos a ser construído. Como evoluiu o teu processo criativo durante esse período?
Infelizmente, ou felizmente, dependendo como olharmos para o “outcome”, a minha vida nesses 5 anos foi de uma instabilidade que fez com que as coisas fossem atrasando, o que na verdade fez com que as experiências e problemas a ultrapassar moldassem principalmente as letras e sonoridades e trabalho musical do projeto. Foram “males” que vieram por bem.
O disco mistura hip-hop, dub e jazz. Como surgiu esta combinação de estilos?
Basicamente são os meus 3 pilares musicais do que eu consumo como ouvinte de música. O dub advém do meu amor pelo reggae e a cultura jamaicana, o jazz advém da minha formação musical que também passou por tocar baixo num combo de jazz na escola de música de Gulpilhares e o hip hop aparece pelo meu amor, em primeiro lugar pelo graffiti, que depois se transformou por abraçar toda a cultura dessa forma de estar na vida que me fez crescer enquanto artista e pessoa.
Existem mensagens ou críticas sociais que quiseste transmitir de forma mais direta?
Este projeto é mais pessoal do que outra coisa qualquer, não me foquei em passar uma mensagem crítica específica porque não era esse o objetivo. Acho que o que acabou por passar é essa minha forma de ser mais “anti-sistema”, tal como outros fatores gritantes na sociedade que me fazem pensar, sentir e querer me expressar. Nunca foi com uma mensagem específica em mente, mas sim contemplar o descontentamento generalizado que também vou ouvindo dos meus amigos, família e conterrâneos.
Qual é a faixa do álbum que consideras mais pessoal ou significativa para ti?
Entre a Fumos e a Tabaco não me consigo decidir qual a que mais mexe comigo. Se tivesse que fazer um top 3 de valor pessoal sem nenhuma ordem específica seriam essas duas e a “Não Me Dirijam a Palavra”. Por isso também aparecerem encarreiradas na parte mais “central” do álbum, com a Sou do Porto como espécie de coroa do meu âmago como artista.
Este será o primeiro concerto ao vivo do álbum. Que desafios sentes em levar Destrambelhado para o palco?
Este na verdade será o terceiro concerto com este novo álbum. O primeiro foi no Ferro Bar, na Clique, acompanhado do Dj Score, referência máxima no panorama do hip-hop portuense e nacional que também participa no tema “Sou do Porto”, foi uma noite que ficará pra sempre no meu coração. O segundo foi no HardRock Café no Porto com os “Rolling Thunder , onde tivemos uma noite intimista com os nossos seguidores mais próximos e fiéis. O desafio tanto desses dois concertos como para o Hardclub é sempre garantir que o público tenha a melhor experiência sonora possível. Os arranjos têm que estar no ponto, a linha entre a música original e a versão ao vivo tem que ser super visível e sentida por quem conhece as músicas e um técnico de som competente será sempre chave para garantir que tudo passa da forma mais completa e clara para o público.
Como vai ser o alinhamento com os Rolling Thunder? Podemos esperar versões diferentes ou improvisações?
O alinhamento será uma mistura do meu passado com este presente “Destrambelhado” e um pouco do que aí vem.
Sempre que entro em palco com banda podem esperar algo diferente da versão original das músicas. O Jazz é a nossa abordagem musical a todos os temas, no sentido de linguagem. O jazz dá-nos ferramentas tanto harmónicas como rítmicas para adaptar os Beats feitos, alguns no meu pc, outros de outros produtores, sempre com o foco de fazer uma versão live. O carácter da versão original é o que nos guia, mas na própria forma de tocar, a improvisação e “comping” do jazz é quase sempre presente. Cada arranjo mistura momentos em que a banda tem liberdade para se expressar com momentos em que tocamos “como um todo”. E isso eu apliquei sempre nos nossos arranjos através da linguagem que o jazz me ensinou.
Vais incluir surpresas ou colaborações especiais durante o espetáculo?
Talvez…. Têm mesmo que estar presentes dia 17 de Abril no Hardclub para descobrir.
Como esperas que o público se conecte com a energia e as mensagens do disco?
Até agora o feedback tem sido incrível tanto do público como de artistas, alguns até referência para mim! Cada vez que entro em palco com este álbum sinto que o público está mais e mais dentro da energia e espírito que eu senti quando estava a criar em estúdio. Tenho a certeza que o Hardclub será uma continuação dessa comunhão entre nós e as pessoas que sentem a minha música
Começaste a tocar guitarra clássica aos 5 anos e hoje és produtor e multi-instrumentista. Como isso moldou a tua identidade artística?
O meu caminho na guitarra no início foi conturbado devido ao professor que me tinham dado na escola onde comecei a aprender música em Serzedo. Quase que cheguei a deixar a música pra trás com 11/12 anos. Foram 6 anos de luta entre uma criança que não queria ser formatada e um adulto que só tinha aprendido de uma forma. Depois houve um dia em que esse professor, mais uma vez, me agrediu e eu com mais idade percebi que aquilo não era correto e tomei uma atitude. Nesse mesmo dia, com o meu pai já na escola trocaram-me de professor e comecei a ganhar o gosto pela música com aulas de guitarra livre, que me levaram a explorar sozinho o baixo, em casa. Mais tarde quis abrir o meu leque de instrumentos às teclas e à percussão. Acabei por trocar para a academia de música de Gulpilhares para ter mais aulas nesse sentido e me preparar para conseguir fazer a candidatura à ESMAE e acabei por ter aulas de práticas de teclado, canto e o grupo de jazz (entre outras mais teóricas) que me deram uma base que usei pra evoluir sozinho. Bateria aprendi sozinho na sala de estudo de bateria da escola e hoje em dia em casa uso muitos elementos de percussão tocados nas minhas produções. Acho que essa luta contra o professor e mais tarde com os meus pais acerca do que eu queria estudar na música se demonstrou fundamental para desde cedo eu saber aquilo que quero e estar mais em contacto com o meu “eu artístico”. Porque na verdade sempre me tive que defender contra o “sistema” que me estavam a tentar impôr.
Quais foram os maiores desafios para construíres uma linguagem própria na música?
Talvez tenha sido o facto de ter tido acesso à internet só aos 13/14 anos, conjugado com a educação muito cristã que recebi e me “tentou proteger” da música secular, sinto que na minha adolescência me dava muito a impressão que estava “atrasado” em relação ao resto do mundo. Hoje em dia sei que foi também essa diferença na minha educação que me fez abraçar o mundo musical de uma forma um pouco diferente do que o que vou vendo e ouvindo à minha volta.
Ser distinguido como personalidade do ano em 2025 pela New in Porto marcou a tua trajetória?
Acho que me marcou mais pela surpresa, não estava mesmo à espera. Quanto à minha trajetória é interessante perceber que no ano em que lanço o projeto que marca exatamente os primeiros 5 anos de trajeto desta caminhada a solo como Luster o reconhecimento chegou. Sinto-me muito abençoado, mesmo!
Que papel tem a cidade de Vila Nova de Gaia na construção do teu som e inspiração?
Sem Gaia não há Luster, sem Gaia não haveria sequer o hip-hop nacional como o conhecemos. É a cidade que me viu nascer e crescer até aos 20 anos, onde aprendi música, a ler, a escrever, etc. Gaia será pra sempre a casa dos meus avós, será sempre o meu início e onde me sentirei sempre mais em casa.
Depois deste concerto, há planos de tour ou apresentações noutras cidades?
Não está garantido mas que há planos, há!
Como vês a evolução da tua música nos próximos projetos? Queres explorar novos estilos ou aprofundar a linguagem que já construíste?
O caminho que sinto a abrir se à minha frente é de me afirmar como um artista que não tem um estilo definido, até porque acho que essas caixas de estilos nos limitam mais do que nos ajudam. No entanto gosto de tentar chegar ao “sub-género” ou fusão que as vezes tento criar mas não é algo que me passe pela cabeça quando estou a criar. Gosto de olhar para este assunto mais pela perspetiva da música ser um conjunto de ferramentas sonoras que podemos casar entre estilos e sonoridades. Isso tem bases na mentalidade do dub mas não me posso alongar muito nesse lado, isso é para outra entrevista!
Que mensagem gostarias que os fãs levassem consigo depois de ouvir Destrambelhado e assistir ao concerto?
Ser boa pessoa, gostar da vida que vivemos e das memórias que vamos criando e ter bons momentos com amigos vale mesmo a pena, acho que essa é a principal razão que me leva a querer exprimir pela música. Ah, e abaixo o sistema corrupto que te tenta controlar seja em que área for! Sempre!