“O amor, quando é amor, é para a vida”, Pedro Pédi
O novo disco de Pedro Pédi, Lugar, é um mergulho profundo na memória, na família e nas raízes do artista. Com canções que percorrem gerações, abordando histórias de avós, a ausência de um pai e conselhos dirigidos aos filhos, o álbum transforma experiências íntimas em música que ressoa de forma universal. Em Lugar, Pédi cria um espaço onde passado e presente se cruzam, explorando emoções e relações com honestidade e sensibilidade.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, o músico fala sobre o processo de criação, a escolha do título, a narrativa por trás das canções e o caminho que o levou a assumir esta dimensão mais pessoal da sua carreira solo.
“Lugar” é apresentado como um exercício de memória e pertença. Em que momento sentiste necessidade de transformar essas memórias pessoais num disco?
Basicamente, à medida que fui crescendo e amadurecendo a nível musical, começas a pensar em deixar algum legado, algo que fique para a eternidade. Julgo que, pós-pandemia, a vida muda e os objetivos também.
O álbum percorre várias gerações da tua família. Foi difícil transformar histórias tão íntimas em canções que agora serão partilhadas com o público?
Foi e não foi. Ou seja, foi fácil porque é o mais honesto que podia ser e é um agradecer a todos, eternizando-os em forma de canção. Por outro lado, também não queria expor ninguém em demasia, não queria tornar as coisas demasiado gratuitas.
Ao longo do disco aparecem temas como a memória dos avós, a ausência do pai e os conselhos aos filhos. Sentiste que estavas a construir quase um retrato familiar em forma de música?
Sim, a ideia foi mesmo essa, foi fazer um apanhado de tudo, principalmente o mais relevante em todo o caminho.
O título “Lugar” pode ser entendido de muitas formas — geográfica, emocional ou até espiritual. O que significa exatamente esse “lugar” para ti?
Foi precisamente por ser uma palavra que tem várias interpretações que foi escolhida. Para mim, lugar é onde está o meu coração, a minha família, que serão sempre o meu lugar preferido.
Apesar de partir de experiências muito pessoais, o álbum parece procurar uma identificação coletiva. Era importante que estas histórias também fossem reconhecidas pelos outros?
Na realidade, acho que acaba por ser uma temática universal. Eu começo por escrever para mim e para os meus, mas acabas por entender que mais alguém se irá identificar com isto, porque alguém se vai lembrar dos momentos com os avós, com a perda de um pai, com o amor da sua vida, com o desejo de querer o melhor para os filhos. Cada um possivelmente se irá identificar com algo, porque é algo comum a todos nós.
“Valsa do Desassossego” surge como uma peça central do disco. O que te levou a escolher esta canção para apresentar o álbum?
Porque quis escolher uma música diferente, algo calmo, com uma mensagem forte. Se calhar não será o single mais óbvio, mas o facto de ter apenas guitarra, piano e voz torna-a especial para mim. Acho que resulta.
Na música descreves o amor como uma dança imperfeita. De que forma essa imperfeição revela a verdade das relações?
Sinceramente, acho que não há relações perfeitas, todas as relações têm altos e baixos, estaria a mentir se dissesse o contrário. O que acaba por ser importante é como enfrentas essas contrariedades, isso realmente é amor, a maneira como respeitas e agradeces o melhor que a vida te deu. O amor, quando é amor, é para a vida.
A ideia de uma “valsa” traz também um certo movimento circular. Essa imagem foi pensada para reforçar o conceito emocional da canção?
No fundo, toda a música é um abraço, um agradecer ao amor, aos loucos, a quem realmente acredita que o amor é o caminho certo. Seja ele o amor do teu amor, de mãe, de pai, de filhos, até o amor que tens aos teus animais.
O videoclipe foi realizado por Luís Ismael. Como nasceu a colaboração e que visão queriam transmitir visualmente?
O Luís Ismael convidou-nos há uns anos para meter uma música no filme “Bad Investigate”, na altura como O Incrível Homem Bomba, a música “El Sindicato”. Entretanto, para nosso espanto, no novo “Balas & Bolinhos” ele fez-nos novo convite, mas desta vez para fazer a música de abertura do filme, algo que, para nós, Incrível Homem Bomba, foi algo muito especial. Até acabámos por entrar na parte inicial do filme, mesmo a tocar. Entretanto, ainda no mesmo filme, na altura já tinha gravado o EP “Raízes”, ele achou que a música “Chacim”, como tinha um toque popular, ficaria bem noutro trecho do filme, o que acabou por acontecer. Ora, como tive de tratar muitas coisas com ele devido à importância da música de abertura, fomos criando algum laço, até porque ele e a restante equipa são pessoas muito porreiras. Ou seja, quando surgiu a necessidade de fazer um videoclipe para o novo trabalho, alguém muito importante para mim disse-me: “porque é que não falas com o Luís Ismael? O não está sempre garantido! Não perdes nada!”. E assim foi, convite feito, ele aceitou, compreendeu a ideia e o resultado está aí.
Este disco parece muito narrativo. As canções nasceram primeiro como histórias ou como ideias musicais?
Primeiro nasceram as letras e algumas melodias. A ideia era simples, fazer canções simples e que me dessem algo, que eu conseguisse fazer jus às letras. Acabou por ser muito importante trabalhar com o Sérgio, porque ele percebeu muito bem a ideia e a importância do álbum.
Sentiste que este projeto exigiu uma exposição emocional maior do que trabalhos anteriores?
Sem dúvida, porque todas as letras são muito pessoais, quem é mais próximo de mim acaba por identificar o teor de cada poema.
Como foi encontrar o equilíbrio entre a intimidade das letras e a construção sonora das músicas?
Foi difícil porque eu queria coisas simples, mais acústicas, também andava à procura do meu som, acho que o resultado me faz feliz. Neste processo de descoberta e exploração foi muito importante a pré-produção que fiz com o Sérgio, porque basicamente desconstruímos todas as canções de modo a ficar só o necessário.
Depois de mais de uma década ligado a O Incrível Homem Bomba, o que te levou a iniciar este percurso a solo?
Eu sempre fui escrevendo coisas que não se adequavam a OIHB, coisas que foram ficando na gaveta, ia fazendo umas melodias. Como entretanto a banda abrandou um bocado devido a todas as condicionantes da vida adulta, acabou por dar espaço a que essa gaveta se abrisse. Depois de aberta, é difícil fechar, porque ainda há muito por contar.
O projeto Pedro Pédi representa uma mudança estética ou sobretudo uma mudança de perspetiva artística?
Não propriamente, porque o Pédi sempre existiu, o Pédi sou eu. Agora, a mensagem que eu queria passar não se adequava propriamente a sons complicados, com distorções, berros e power! Esta mensagem precisa de um embrulho diferente, apenas devido à mensagem que quis passar.
Sentiste que precisavas de um espaço diferente para explorar esta dimensão mais pessoal da tua escrita?
Sim, claro. A temática é bem diferente. O crescimento também nos traz uma visão diferente do mundo. Quis abrandar o ritmo.
Viver em Cabeceiras de Basto desde 2020 influenciou de alguma forma a atmosfera ou o ritmo criativo deste disco?
Claro, deixas a cidade e entras noutra dimensão! A vida na aldeia, o ritmo, as pessoas, tudo é diferente. Começas a ter outra perspetiva da vida. Para melhor, e começas a dar valor a coisas a que nunca ligaste.
Depois de um álbum tão marcado pela memória e pelas origens, sentes que este trabalho representa uma espécie de reencontro contigo próprio?
Sim, este trabalho é um agradecimento gigante às pessoas mais importantes da minha vida! Nada melhor do que deixar um legado, neste caso em forma de canções.
Quando as pessoas ouvirem “Lugar”, que tipo de emoções ou reflexões gostarias que levassem consigo?
Gostaria que tivessem um momento de reflexão e que agradecessem realmente ao que é mais importante na vida de cada um. Que celebrassem o melhor de cada um!