“O álbum representa a nossa identidade, mas tudo está em aberto para as próximas músicas”, INSVLA

Os INSVLA chegam ao seu álbum de estreia, “AVIR”, depois de um processo criativo longo, intenso e profundamente emocional, que se estendeu ao longo de quase três anos. Nascido em 2023, o projeto rapidamente construiu uma identidade própria assente numa fusão pouco convencional de metal, prog, pop, eletrónica e acústico, sempre ancorada numa forte componente conceptual e visual. Mais do que um disco, “AVIR” surge como uma odisseia sonora e emocional marcada por isolamento, transformação e mergulho interior. Entre experiências pessoais, crises individuais e uma exploração contínua de estados emocionais extremos, a banda transforma vulnerabilidade em linguagem artística, num registo onde densidade sónica e intimidade coexistem.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, os INSVLA abrem o processo criativo por detrás de um trabalho que procura não só afirmar uma identidade, mas também construir um universo próprio onde som, imagem e emoção se cruzam de forma contínua.

Os INSVLA nasceram em 2023 e rapidamente construíram uma identidade muito própria. Como é que descrevem este primeiro capítulo da banda até chegar a “AVIR”?
Pedro: É mesmo difícil descrever em poucas palavras quase três anos das nossas vidas, que foi o tempo durante o qual este álbum foi criado. Sinto que cada um de nós passou por várias mudanças a nível pessoal nesse tempo, e que isso se reflete na parte artística e musical, porque
enquanto vivíamos os desafios do mundo real, estávamos também em comunhão com as nossas músicas e isso permitiu-nos explorar um leque enorme de emoções. Então este foi um primeiro capítulo bastante intenso para todos, mas que também nos permitiu partilha e crescimento enquanto banda, e nos fez também pensar ao detalhe cada música deste álbum. Tenho a certeza que vamos sempre recordar o “AVIR” com muita nostalgia e carinho.
Sienna: Em primeiro lugar eu também descreveria como intenso, e muito marcado pelas nossas emoções e vivências. Foram três anos em que cada um de nós enfrentou desafios pessoais, existiram questões familiares, dificuldades com amizades, desilusões amorosas e outras experiências que inevitavelmente nos moldaram, e tudo isso acaba por se refletir na música que criámos. Este primeiro capitulo foi um processo de mergulho interior, daí também esta temática que apresentamos no álbum.. enfrentar silêncios, medos e memórias, revisitar o que nos marcou e a partir daí encontrar a força para voltar à superfície. Para mim o “AVIR” é mesmo o resultado desse percurso, é intenso, honesto e humano. Acaba por ser o reflexo do nosso crescimento, das nossas cicatrizes e de como transformámos esses desafios em canções.

O vosso som cruza metal, prog, pop, acústico e eletrónico. Como é que conseguiram encontrar coerência dentro de uma linguagem tão híbrida?
Pedro : Da minha parte a convivência com vários estilos é bastante natural, consigo ouvir Pop e depois Death Metal no mesmo dia, até na mesma hora. Enquanto compositor, gosto de seguir aquilo que uma ideia ou sentimento me faz escutar internamente e criar, e nunca abordo uma música de INSVLA como algo que tem que soar Metal ou outro estilo específico. Há sentimentos que pedem uma sonoridade negra ou pesada, outros que me trazem um som misterioso e etéreo, ou até apenas um leve piano ou sussurro vocal. Felizmente tanto a Sienna como o Mário têm isto em comum comigo, cada um com os seus estilos favoritos e escutas bastante ecléticas, e isso passa naquilo que compõem para o projeto. Acho que encontramos a coerência através da história que sentimos que a música quer contar. Seguimos a mensagem e debatemos juntos como a vamos transmitir, e por fim vamos explorando juntos, tentando não nos fechar numa obrigatoriedade sonora. Tem sido essa a nossa abordagem até agora, e nesse processo penso que foi bastante natural conseguir estas ambiências diferentes que se podem escutar no álbum.
Sienna: Nós apercebemo-nos de que a nossa base sonora vem da melancolia, e naturalmente seguimos mais por aí, mas a melancolia no som é expressada de variadas formas nos mais variados estilos, e nenhum de nós tem uma mente fechada, ouvimos bastantes artistas diferentes,
que nos educam sobre detalhes e abordagens que inconscientemente ficam connosco e queremos explorar. Eu gosto imenso de Metal, mas também adoro artistas como Aurora, Sigur Rós, Sabrina Claudio , James Blake, Billie Eillish, e tantos outros que me inspiram na minha própria performance e visão. Quando canto, o meu som sai de forma natural mas também incorporo aquilo que oiço todos os dias. Com INSVLA, ao inicio até pensámos fazer algo mais mainstream ou comercial, mas acabámos por despir essa abordagem, precisamente porque foi natural para nós trazer todos estes elementos que nos inspiram, e que não conseguimos remover da nossa essência. Creio que a Arte não deve ter palas ou limites.

Desde o início, a componente conceptual e visual tem sido muito forte no vosso trabalho. De onde vem essa necessidade de construir um universo tão completo à volta da música?
Sienna: Esta construção visual e conceptual é bastante natural para mim. Quando oiço uma música e a sinto verdadeiramente, dou por mim a visualizar o que me está a ser passado no som, começo a imaginar o cenário, a história que está a decorrer e as personagens que nela habitam.
Fazer música para mim é dar vida a sentimentos, e em INSVLA acabo por sentir uma necessidade de dar vida também ao som através de outro formato, neste caso mais visual. Como sinto a música com muita profundidade, quero dar vida a essas emoções. Depois usando as ferramentas que tenho, adapto as personagens e imagens que encontro dentro do tema que está ser abordado. Penso muito nos nossos vídeos como se fossem pequenas curtas-metragens, e tenho um enorme prazer em criar os storyboards e conceber o vestuário e caracterização que quero dar a cada um desses universos.

Todos vocês trazem percursos e sensibilidades diferentes. Como é que essa diversidade se traduz no processo criativo?
Pedro : Como temos visões e inspirações muito diversas, temos sempre conversas sobre o que cada um gostaria de explorar, sobre o objetivo emocional por trás de uma ideia ou demo trazida para a banda, e honestidade entre todos sobre as histórias que queremos contar. Isso implica também alguma vulnerabilidade, claro, para falar das nossas emoções, e do que é importante para nós que esteja presente na música.
Sienna: Quando surgiu INSVLA, tive algum receio deste desafio ao início. Se penso no meu percurso musical, sinto que ainda não é tão longo assim. Tenho uma forma de me expressar artisticamente muito especifica, e nem sempre fácil de inserir em qualquer projeto. Nos projetos
que tive anteriormente, trabalhei sempre com as mesmas pessoas, com visões muito próprias. Depois disso, acabei por fazer uma pausa na música durante alguns anos. Tive outros convites antes de INSVLA, mas acabei por nunca conseguir aceitar, porque sentia que de alguma maneira não me encaixava. Aqui tive a sorte de me conseguir alinhar com estas pessoas, identifico-me muito com as letras do Pedro, com as melodias que ele cria e que criamos juntos, com o tipo de abordagem na guitarra e ambiência que o Mário atinge na sua composição. Tudo se encaixou bem e funcionou também para o meu registo vocal e para a persona que gosto de incorporar artisticamente. Mesmo quando não estamos todos de acordo sobre uma ideia, conseguimos unir esforços de forma a que todos se alinhem e se crie algo satisfatório para os três.

O álbum de estreia, “AVIR”, é descrito como uma odisseia sonora. Que viagem querem propor ao ouvinte com este disco?
Pedro : O meu pensamento inicial nas músicas que escrevi sempre foi mais pessoal, estes temas foram essenciais no processo de lidar com as minhas emoções e em alguns casos curar algumas mágoas, dizer aquilo que não pude em algumas situações. Apenas agora que está pronto a lançar é que começo a pensar nesta pergunta.. Acho que o meu desejo é simplesmente que o ouvinte tire algo bom deste álbum, que possa fazer a sua própria viagem como lhe fizer sentido.. sei que há quem se vá identificar com algumas metáforas e trazê-las para a sua experiência e não se sentir sozinho(a), e isso será maravilhoso porque enquanto artistas sinto que é para isso que aqui estamos. Mas sei também que há ouvintes que apenas querem desfrutar da música enquanto fazem a sua vida, e isso é outro tipo de missão cumprida também. No fundo não sinto que deva colocar qualquer objetivo predefinido ao “AVIR”, porque chegará a quem tiver que chegar, da forma que for mais útil e fizer mais sentido para essa pessoa, e esse pensamento conforta-me.
Sienna: Pessoalmente, o que quero passar com esta obra é que nenhuma emoção deve ser ignorada , principalmente quando nos faz olhar para nós próprios. Muitas vezes procuramos a cura externamente, no outro, e descuramos do nosso próprio processo interno, e é exatamente
isso que nos faz afogar. Muitas vezes a tendência é curar o outro, ser validado pelo outro, quando temos que nos curar a nós.. Acabamos por nos anular ou esgotar, e nunca entender o que realmente nos fere e porquê, estamos demasiado focados numa ferida que não a nossa. Passamos a acolher a dor do outro em adição à nossa própria dor. Este álbum reflete a capacidade de nos isolarmos e aprofundarmos, conhecer-nos a fundo, perceber as nossas emoções e de onde elas vêm, para depois disso estarmos prontos a salvar outros. Vejo o “AVIR”
como o alertar para o aprofundar do nosso próprio ser. Não quero com isto anular a parte empática com o outro, no sentido de ajudar o  próximo, mas não podemos descurar de nos olhar ao espelho, especialmente quando insistimos em estar onde não nos faz bem.

O título “AVIR” evoca uma ideia de travessia e de movimento. O que representa este conceito dentro do álbum?
Pedro : AVIR é um acrónimo para uma síndrome chamada “Aquatic-Victim-Instead-of-Rescuer”. Esta síndrome ainda é debatida na comunidade de psicologia e não é propriamente reconhecida, mas é muito discutida na comunidade náutica e de proteção marítima. O síndrome AVIR ocorre em pessoas que veem alguém que amam em processo de afogamento, e o seu efeito faz com que se atirem para o mar sem pensar, mesmo que não saibam nadar, numa tentativa de salvamento. É como se a racionalidade fosse completamente apagada da consciência, a pessoa não pensa em chamar ajuda de entidades competentes, nem que não têm a capacidade de efetuar o salvamento. Grande parte das pessoas em que isto ocorre acabam por morrer afogadas, e em muitos casos a vítima é salva, e a tragédia passa a existir pela perda da pessoa que a tentou salvar sozinha. No álbum isto funciona como metáfora para tudo aquilo que tentamos salvar em detrimento de nós mesmos, mesmo que não nos faça bem… relacionamentos que não nos trazem nada de bom, situações várias das quais temos medo de sair, ou até vícios e padrões que nos recusamos a deixar porque a emoção e o inconsciente falam mais alto. Nestes três anos de criação com INSVLA, essa foi uma lição muito grande que precisei de aprender na minha vida pessoal, e quando lhes falei desta síndrome como abordagem poética para o álbum, todos nos revimos nela de uma forma ou de outra. Percebemos que tinha que ser este o título porque é uma questão muito humana que qualquer pessoa pode encontrar na sua própria consciência, e que está presente de formas diferentes em todas estas músicas.

Sentem que este disco funciona como uma espécie de afirmação da identidade dos INSVLA?
Pedro: O álbum representa a identidade de INSVLA até este momento, sem dúvida, mas penso que tudo está em aberto para as próximas músicas, e que também essas afirmarão a nossa identidade. Acho que a identidade de INSVLA está em constante transformação, porque vamos sempre explorando direções e temáticas diferentes consoante as experiências que vamos vivendo. Neste momento este álbum é a versão que vestimos com muito orgulho, isso é certo.
Sienna : Eu sinto que é uma afirmação a cem por cento neste momento. As musicas que foram criadas não foram pensadas com qualquer identidade em mente, a única parte que foi pensada a fundo foi a parte visual, tudo o resto foi um processo muito interno e de seguir o instinto. Neste álbum criámos uma identidade naturalmente, o que não significa que no próximo não haja uma identidade diferente. Não pensámos na identidade que teríamos que assumir ou que era esperada de nós, mas sim no que é natural para os três, e o que sentimos que queríamos expressar.

Os singles anteriores foram remasterizados para esta edição. O que mudou na forma como olham para essas músicas desde a sua primeira versão?
Pedro: Na verdade essa remasterização foi apenas um ajuste de mix por parte do nosso produtor Fernando Matias, que decidimos fazer por uma questão de coesão sonora com os outros temas do álbum. Estamos a falar de ajuste de alguns volumes e o destacar de um ou outro som, portanto para o ouvinte a diferença não será muita, a música é a mesma e a sua essência também. O Fernando Matias fez também uma colagem incrível de uns temas para os outros na tracklist do álbum, o que faz com que tudo flua sem interrupção ou silêncio entre os temas. Dito isto, continuamos a olhar para a “Sea Witch” de 2023 com o mesmo carinho hoje, e é um tema que adoramos ensaiar e tocar ao vivo, só abordámos a sua remasterização por uma questão técnica e de coesão. Os nossos primeiros singles fazem parte deste universo aquático, foram uma pequena janela para a direção que quisemos seguir neste primeiro álbum, por isso olhamos para elas com o mesmo entusiasmo de antes, talvez até mais agora que as lançamos novamente no seu devido lugar, ao lado das outras músicas do “AVIR”.

Durante o processo de criação de “AVIR”, houve espaço para improvisação ou o álbum foi pensado de forma muito estruturada desde o início?
Pedro: Houve um pouco de tudo, penso eu. Existem vários temas que foram bastante planeados e gravados de forma mais meticulosa, com tudo já decidido e no seu devido lugar. Noutros tantos, chegámos a ter ideias durante o processo de gravação final com a Sienna, em que improvisámos ou mudámos de abordagem naquele momento, e decidimos usar no álbum. Lembro-me por exemplo de escrever a letra de umas segundas vozes na “Salt” em poucos minutos, sentado no sofá do estúdio, enquanto a Sienna estava a gravar outras partes na cabine de voz, porque tivemos a ideia naquele preciso momento, e eu tive que decidir o que a letra teria a dizer nessa nova parte da música. Também houve melodias que criámos a cantar no carro de improviso e gostámos tanto que se tornaram na versão oficial da música. Foi um processo bastante variado mesmo!
Sienna: Eu não sinto que tenha sido propriamente planeado ou estruturado, o que aconteceu foi criar as musicas e letras com calma e de forma a que ficassem satisfatórias para nós, essa parte foi para mim bastante fluida e não demasiado pensada. No final olhámos para tudo com mais distanciamento, e encontrámos a direção para onde todas elas iam. Foi a partir daí que veio a estrutura para mim, no planeamento visual, no que era necessário desenhar e representar no artwork. Musicalmente, a minha abordagem sempre foi muito mais no sentido de seguir o que sentia e o que a música me transmitia.

A fusão entre densidade emocional e experimentação sonora parece ser um dos pilares do vosso trabalho. Como equilibram estes dois lados?
Sienna – Na verdade, eu não usaria a palavra equilibrar porque acaba por ser um processo bastante natural para nós. Eu diria até que há desequilíbrio, porque é o caos emocional que nos faz experimentar e expressar, a um ponto de sairmos da zona de conforto. Isto aconteceu-me imenso em INSVLA, explorei formas de cantar diferentes para conseguir alcançar as emoções que eram pedidas pela música e letras. Neste álbum faço linhas vocais que nunca tinha feito antes, usei a voz de formas que não imaginava que soubesse. Quando ouvimos ou criamos um som, acabamos por sentir a emoção que lá está, e exploramos a melhor forma de o transmitir, simplesmente seguimos aquilo que nos soa o mais perfeito possível. É como uma experiência até chegar à fusão adequada.

Que importância têm as dinâmicas entre silêncio, intensidade e textura no vosso som?
Sienna – A importância vem exatamente de usar a dinâmica certa para expressar a montanha-russa de emoções que fazem parte da experiência humana. Por vezes o silêncio é a melhor formade simbolizar a comunicação que temos por dentro, mas a intensidade vem quando já estamos a comunicar para fora. A textura veste a nossa música para expressamos o tipo de emoção – pode ser o acordar, a ação, a revolta ou até a força. São dinâmicas muito importantes em INSVLA, no sentido em que são as ferramentas com as quais contamos a história. Depois existe também a parte do ouvinte, que vai interpretar as dinâmicas e receber a mensagem através delas. Quisemos usar essas ferramentas para os fazer viajar e mergulhar mais facilmente nas emoções que quisemos passar.

Os videoclipes e a narrativa visual fazem parte integrante da vossa identidade. Como é  que música e imagem se influenciam mutuamente no vosso processo?
Sienna – Por norma, é a música que influencia a imagem. Quando eu oiço a música eu visualizo, muitas vezes desenho. Por exemplo, quando ouvi a versão terminada da Faith, eu desenhei uma pessoa com um chapéu na sua cabeça, e nesse chapéu coloquei um jardim enorme, que
representava todos os pensamentos maravilhosos e expetativas que temos sobre uma pessoa quando nos apaixonamos. Mas sabia que esse chapéu também lhe taparia os olhos de tão pesado que era, de tão fortes que eram esses sentimentos. A partir dessa ideia, estava representada a paixão no vídeo. Mas a Faith fala sobre esse triste acordar para a realidade de que aquela pessoa não pode corresponder a nada do que pensámos, porque essa versão dela foi uma criação na nossa cabeça. Então no final o chapéu arde numa cerimónia fúnebre de limpeza,
para ela recuperar a visão e se libertar. Por norma, são imagens como esta que me surgem através das músicas que compomos, mas também já aconteceu decidirmos criar uma música através de uma imagem que vimos ou de uma história que lemos, como é o caso da “The Monstress”. No entanto, o mais comum no nosso caso é a parte musical aparecer primeiro.

Sentes que os INSVLA contam histórias ou constroem atmosferas que o ouvinteinterpreta livremente?
Pedro : Eu acredito que fazemos as duas coisas. Eu recorro muito à metáfora, um pouco por defesa, para evitar expôr pessoas específicas ou situações demasiado íntimas, mas também porque adoro encontrar simbolismo em cenários, objetos ou personagens, e fazer um paralelo com as emoções que sinto, de forma a tornar aquela mensagem mais universal e aberta a interpretações. Nalguns temas isso toma uma forma mais narrativa, sem dúvida, noutros o conteúdo acaba por ser um pouco mais direto, mas sinto que deixamos sempre espaço para o ouvinte criar a sua própria interpretação, e essa é sem dúvida a minha forma favorita de songwriting. Já tive várias conversas com ouvintes, que me contaram situações pessoais que uma música nossa lhes fez lembrar, e era algo completamente diferente da situação que me levou a escrever aquele tema, no entanto encaixava na perfeição. Isso é algo maravilhoso de se perceber, e faz-nos sentir que a nossa música cumpriu a sua missão.

O álbum promete paisagens sonoras densas e emocionais. Que emoções estavam mais presentes durante a criação deste trabalho?
Sienna – As emoções mais presentes no meu caso tiveram a ver com gatilhos emocionais, como por exemplo o trauma de abandono, a solidão, as minhas ilusões sobre alguém e o desgosto que daí advém, a ansiedade, medos, a depressão, a necessidade de cura, e a procura da mesma. A
criação do “AVIR” foi sem dúvida um processo bastante terapêutico em vários sentidos. Para dar um exemplo, e voltando ao vídeo da Faith, as cartas que caem no buraco foram reais, escritas por nós para pessoas que queríamos perdoar ou mesmo enterrar na nossa vida. Estivemos uma noite a escrever as coisas que precisávamos de lhes dizer e que por algum motivo não podíamos. Juntámos tudo e queimámos na filmagem do vídeo, foi como se naquele momento houvesse uma limpeza simbólica de sentimentos, foi um momento muito místico e um sentimento libertador.
Pedro – Estas músicas acompanharam-me em várias transições de vida, e de pessoas, portanto também posso dizer que lidei com imensa ansiedade, alguma tristeza, saudade, revolta, mas também muito entusiasmo na criação à medida que via estas músicas a nascer. Há um misto de sentimentos sempre que estamos a escrever sobre algo que nos marcou, é pesado por vezes, mas sem dúvida muito terapêutico. Uma das minhas partes favoritas é estar em estúdio com o produtor quando a Sienna grava as vozes, e ver a música a ganhar vida própria, e a tornar-se cada vez mais próxima da sua versão final, cada vez mais perto de sair para o mundo. Acaba por ser um fechar de ciclo sobre aquela situação da qual a música fala, então também existe neste processo um sentimento de superação após todas as emoções mais difíceis.

Enquanto banda jovem, como têm vivido o processo de transformar um projeto recente num álbum de estreia tão ambicioso?
Sienna – Acho que vivemos este processo de forma bastante natural, sem pensar demasiado à frente ou questionar se o álbum seria ambicioso ou não. O nosso objetivo foi simplesmente criar a nossa arte com a maior qualidade possível, com as melhores ferramentas que conseguimos
colocar ao nosso dispor. O processo foi basicamente fazer o melhor para atingir essa qualidade, para podermos olhar para este álbum e ter sempre orgulho. Sabemos que nem toda a gente irá gostar da nossa arte, o que é totalmente natural, por isso o que desejamos é estar satisfeitos com aquilo que fizemos. A ambição existe agora nos nossos objetivos daqui para a frente, queremos conseguir dar um próximo passo igualmente forte.

O que esperam que mude na perceção do público sobre os INSVLA depois de ouvir “AVIR”?
Pedro : Não usaria a expressão “mudar” porque sinto que as pessoas que gostam da nossa arte compreendem muito bem a visão, e o feedback geral que nos chega felizmente costuma ser bastante positivo. O que espero para quem já nos segue é que este álbum lhes transmita algo, e
que as músicas que não conhecem sejam tão amadas como as que já lançámos. Esperamos também que sintam que o “AVIR” vale a pena partilhar com outros, e que nos seja possível chegar a mais pessoas que ainda não nos conhecem, e que essas possam adicionar-nos às bandas que gostam de ouvir.
Sienna – Gostaria que pudéssemos criar uma família de pessoas que nos oiçam e se sintam ouvidas também. Acabei por me aperceber ao longo destes três anos que a cura está dentro de nós, e este tema não é propriamente novo, mas é muito necessário, e deve ser relembrado.
Espero que este álbum seja um lembrete adequado dessa capacidade que todos temos. De resto concordo que não tem que mudar nada, quero que as pessoas sejam livres de pensar e sentir o que quiserem sobre INSVLA e a sua arte.

Há alguma faixa do álbum que sintam como especialmente representativa da identidade da banda neste momento?
Pedro : As faixas do álbum são-nos todas muito queridas e muito nossas. Acho que cada uma delas nos representa enquanto banda, em vertentes diferentes. Não conseguiríamos escolher apenas uma, porque todas usam elementos diferentes das outras, e isso é precisamente onde gostamos de estar enquanto projeto, sempre com as possibilidades em aberto, e sem saber para onde as musas nos vão levar a seguir.

Depois deste primeiro disco, que direção imaginam para o futuro dos INSVLA?
Pedro : Por agora o plano é “saborear” este álbum com os ouvintes, viver um pouco este momento que foi uma conquista tão importante para nós. Estamos muito ansiosos por receber feedback e conversar com as pessoas, saber que temas gostam mais e porquê. Estamos também a montar o nosso set para concertos, a ensaiar com os nossos colegas de sessão, e o próximo passo será ir aos palcos que nos for possível, para promover o “AVIR” o melhor que conseguirmos. É sobretudo nestes pontos que estamos focados agora, mas também já tenho escrito novos temas, e tenho algumas direções temáticas por onde gostaria de seguir num próximo trabalho de estúdio. Estou entusiasmado para continuar esta viagem!
Sienna : O que imagino depois do “AVIR” é continuar a criar arte que nos orgulha, evoluir na qualidade tanto quanto nos seja possível, e continuar a explorar palcos, tanto em território nacional como internacional.

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