NPS 2018: Dia II. Importante é a música

Com um cartaz bastante diversificado, o segundo dia do NOS Primavera Sound provou que o importante é a música e a forma com que ela nos alegra a vida.

Zeal & Ardor > Yellow Days > The Breeders

Misturar blues e black metal? Nada que nos espanta, até porque cá por casa temos um fã do segundo estilo que não dispensa a inspiração dos grandes nomes do primeiro. Tudo certo até aqui. Na verdade, o Diabo tem muitas encarnações e nestes dois géneros musicais assume duas delas. Aquele que apareceu à beira do rio Mississipi aos grandes e sofredores tocadores de blues foi o mesmo que muitas décadas depois se apresentou perante os Zeal & Ardor e que tão explícito está na intro do registo “Strange Fruit”. O resultado não podia ser mais surpreendente apanhando de surpresa os muitos que não os conhecendo, a eles ficaram rendidos. Manuel Gagneux, o músico suiço-americano que primeiro teve a visão de juntar descaradamente estes dois géneros, é o mentor dos Zeal & Ardor que no Palco Super Bock aqueceram a tarde de um festival que se escondia da chuva. Aposta mais do que ganha, a banda conseguiu converter mais alguns ao seu som diferente, mas absolutamente delicioso. Uma última nota: ao vivo ganham uma garra que apenas deixam antever em disco, e isso é de aplaudir. E que bem que sabe ver um belo headbanging no Parque da Cidade.

Para quem, como nós, gosta de King Krule, Yellow Day faz todo o sentido. Excelente executante, George Van Den Broek, aka Yellow Days, transporta em si a alma de gente antiga a qual transporta para os tempos modernos. O menino prodígio de 18 anos que escreve e compõe música soul intemporal, chegou ao festival para transcender quaisquer tendências. Portador de uma forte melancolia, o músico nascido e criado em Haslemere, no sul de Inglaterra, consegue trazer a palco um alinhamento do qual fazem parte músicas que nos transportam para um universo povoado por nomes como Ray Charles, Led Zeppelin ou Sam Cooke. Rastas foram, aliás, as grandes personalidades da música que serviram de alicerce e forte inspiração a cada uma das 13 músicas de álbum “Is Everything Okay in Your World”. Um concerto a registar de um artista com muito para dar e que pela nossa parte vamos seguir com atenção.

Voltemos uma décadas atrás para percebermos a história das The Breeders, banda nascida aquando do desentendimento entre Kim Deal e Francis Black, ambos elementos do Pixies. Com um novo registo discográfico debaixo do braço, a banda de Kim Deal apresentou-se com pujança e entrega a um público que ali estava para lhes prestar a devida e merecida homenagem. Visivelmente feliz Kim Deal deu o mote a um alinhamento recheado de boas memórias com algumas incursões na sua antiga banda. Tudo certo.

Grizzly Bear > Shellac > Mavi Phoenix > Thundercat

No novo palco do festival, patrocinado pela SEAT era tempo de ver os nossos bem conhecidos Grizzly Bear. Um alinhamento cheio de pérolas de uma banda da qual o público gosta de gostar. Sabe sempre bem assistir aos minutos de boa interpretação com que brindam os muitos que sempre enchem as plateias para os ver e desta vez não foi diferente. Os norte-americanos trouxeram “Painted ruins” com base o concerto o qual forma pontuando com temas retirados dos excelentes trabalhos anteriores.

Não há NOS Primavera Sound sem a presença de Shellac. Figura presente desde a primeira edição, o músico e produtor Steve Albini, que comanda esta a armada compacta desde 1992, nunca desilude os fãs. E eram muitos os que em frente ao Palco Super Bock fizeram questão de prestar vassalagem ao homem que produziu bandas como os Pixies e os Nirvana. Enquanto uma das figuras mais importantes e proeminentes do rock underground desde a década de 80, Steve Albini mantém hoje a mesma pose da época em que se apresentava na banda post-hard-core Big Black onde os seus riffs afiados como facas fizeram história.

Austríaca com ascendência siria, Mavi Phoenix apresenta-se como um ponto de diferenciação no universo da música urbana contemporânea. Aliás, ela própria recebe com um bem-vindos à selva onde todos podem aproveitar e ficar a conhecer um conjunto de sonoridades à partida distintas mas que no fim fazem sentido. A sonoridade hip-hop que trouxe ao Palco SEAT agradou aos muitos que não se arrependeram de aceitar o desafio e com ela fizeram um verdadeiro safari musical.

Cá por casa quando foi anunciada a vinda de Thundercat ao festival foi uma excitação, até porque o elemento mais jovem da equipa é grande fá do baixista. No palco Pitchfork o músico norte-americano não deixou os créditos por mãos alheias inundando todos com o seu jazz de fusão de elevadíssima qualidade. Exímio baixista, o californiano vai buscar inspiração a grandes nomes do jazz como Miles Davis ou Mary Lou Williams transpondo os ensinamentos para temas plenos de intensidade e riqueza musical fora de série. Se nos discos de Kendrick Lamar e Kamasi Washington, onde participou, estava nos bastidores, Thundercat chega-se agora à frente para se afirmar em nome próprio e isso o público só pode agradecer, tal como fizeram os muitos que não arredaram péd durante todo o concerto.

Fever Ray > A$AP Rocky > Unknown Mortal Orchestra

Conhecida por ser uma das caras do duo sueco The Knife, Karin Elisabeth Dreijer Andersson assume a solo a personalidade de Fever Ray, cujo primeiro álbum viu a luz do dia em 2009. No palco SEAT foram um dos grandes momentos da noite. Vestidas de uma forma absolutamente surpreendente, Karin e companheiras conseguiram dar um espectáculo não só musical como visual, deixando em êxtase os muitos fãs. A música de Fever Ray carrega alguma estranheza, a qual é magistralmente harmonizada com um toque de familiaridade num resultado que fascina quem ouve e assiste ao concerto. Uma variedade de novos elementos sonoros alia-se a temas mais antigos num claro comportamento desafiador. Nada podia ser melhor. Excelente prestação.

Nascido no bairro nova-iorquino de Harlem a 02 de Outubro de 1988, Rakim Mayers aka A$AP Rocky, apresentou-se ao mundo através de uma mixtape Live. Love. ASAP, lançada em 2011 e com a qual obteve excelentes criticas. Dois anos depois surgia no mercado o seu primeiro álbum de estúdio Long. Live. ASAP, o qual lhe abriu portas a uma carreira de sucesso que agora passou por Portugal. Nas letras que nos canta desde o cimo do palco NOS, o músico transporta a raiva e a esperança de quem teve uma infância extremamente complicada, durante a qual viu o irmão ser assassinado, o pai preso, vivendo de abrigo em abrigo com a mãe. Temas como “L$D”, “Fuckin’ Problems” ou “Distorted Records” fizeram parte da festa que se viveu no Parque da Cidade.

Terminamos a nossa noite de regresso ao palco Pitchfork com os nossos bem conhecidos Unknown Mortal Orchestra. Oriundos da Nova Zelândia, o colectivo encabeçado pelo guitarrista e vocalista Ruban Nielson trouxe ao festival o seu som tão característico num alinhamento onde não faltou “Necessary Evil”, um já clássico hino que o público não dispensa.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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