Noite de festa na Sala Tejo com Kreator que trouxeram uma “ajuda” de peso com Carcass, Exodus e Nails

O regresso dos Kreator a Lisboa, no passado dia 20 de março, transformou a Sala Tejo num daqueles raros momentos em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo: caos, reencontros, suor e pura celebração. Integrado na digressão Krushers of the World Tour, o concerto trouxe ainda CarcassExodus e Nails, mas foi claro desde cedo que a noite tinha dono. 

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Os Kreator já não precisam de provas a ninguém. Formados em 1982, em Essen, são um dos pilares do thrash metal europeu e continuam a soar como se o tempo tivesse passado por eles sem conseguir abrandar nada. Em Lisboa, isso sentiu-se logo nos primeiros segundos. “Seven Serpents” abriu o concerto sem piedade. Não houve aquecimento nem contemplação: só velocidade, riffs afiados e uma plateia que já estava completamente entregue. A partir daí, o concerto foi uma viagem pela história da banda, misturando temas recentes como “Hate Über Alles” com clássicos absolutos como “People of the Lie”, “Betrayer” e “Coma of Souls”. No centro de tudo esteve Mille Petrozza, com aquela presença que não precisa de exageros. Ele não “faz” o espetáculo sozinho; ele puxa-o para a frente. E o resto vem atrás.
Mas o concerto começou a ganhar outra dimensão ainda antes do primeiro riff. Lá fora, a chuva já tinha deixado a sua marca, e muitos fãs chegaram à Sala Tejo completamente encharcados, casacos pesados, roupa colada ao corpo, aquele ar de quem já tinha feito uma parte da luta antes de entrar. E lá dentro, em vez de quebrar o espírito, isso só o reforçou. O ambiente era muito mais de reencontro do que de simples concerto. Amigos que não se viam há meses ou mesmo anos voltaram a cruzar-se ali, entre abraços rápidos, cervejas na mão e frases do tipo “tu ainda por cá andas?”. Havia qualquer coisa de reunião improvisada, quase familiar, que dava ao espaço uma energia de festival, mesmo sendo uma sala fechada. Visualmente, o espetáculo foi direto e sem filtros. Luzes fortes, quase agressivas, a acompanhar a intensidade da música. No cenário, figuras e elementos visuais marcantes — incluindo cabeças cortadas em palco — davam aquele toque cru e frontal, sem grandes simbolismos ou misticismos: apenas impacto, alinhado com o som. E depois houve o fogo. Muito fogo. E, algures no meio de tudo isto, papelotes a cair do teto — uma única vez, mas suficiente para criar aquele instante estranho e bonito em que a sala inteira olha para cima sem parar o que está a viver. Mas o verdadeiro coração da noite esteve sempre na plateia. O mosh foi constante, sem pausas, mas o que ficou mesmo foi o crowdsurfing ininterrupto. Pessoas a passar por cima da multidão, suadas, cansadas, felizes, como se fossem levadas por uma corrente que não abrandava. Era uma espécie de fluxo contínuo, quase hipnótico, que fazia a sala parecer viva por si própria. Sempre que a banda acelerava, abriam-se circle pits enormes e tudo voltava a girar. E no meio disso tudo, havia uma sensação simples: ninguém estava ali só para ver um concerto. Estavam a fazer parte dele.
No fim, os Kreator voltam a confirmar porque continuam no topo do thrash metal mundial. Não vivem de nostalgia, vivem de consistência, força e de uma presença que continua a fazer sentido em qualquer palco. Foi uma noite intensa, barulhenta, encharcada antes mesmo de começar e completamente viva até ao último segundo. Mais do que um concerto, foi um reencontro coletivo. Uma descarga de energia. E um daqueles momentos em que a cidade inteira parece caber dentro de uma sala.

Foi um daqueles momentos que mostram como o tempo pode passar, mas certas bandas continuam a soar tão relevantes  e afiadas como sempre. Pois claro que falamos do concerto dos britânicos Carcass. Com origem em Liverpool e uma carreira que começou ainda nos anos 80, os Carcass carregam um legado pesado dentro do metal extremo. Mas mais do que isso, mostram em palco que não estão ali apenas para celebrar o passado. Estão ali para tocar e tocar a sério. A abertura, com “The Living Dead at the Manchester Morgue”, serviu como uma espécie de introdução atmosférica antes do impacto real. “Unfit for Human Consumption” entrou logo a seguir e definiu o tom: som pesado, execução precisa e zero espaço para distrações. A partir daí, o concerto foi construído com uma fluidez impressionante, alternando entre fases diferentes da banda sem nunca quebrar o ritmo.Clássicos como “Buried Dreams”, “Incarnated Solvent Abuse” e “No Love Lost” foram recebidos como seria de esperar: com entusiasmo genuíno de um público que conhece bem o material. Pelo meio, temas como “Carnal Forge” e “Dance of Ixtab” trouxeram esse lado mais melódico e estruturado que os Carcass foram desenvolvendo ao longo dos anos, sem nunca perder peso. Já na reta final, “Corporal Jigsore Quandary” levantou ainda mais a sala, antes do inevitável fecho com “Heartwork”, que acabou por ser um dos momentos mais marcantes do concerto. Em palco, tudo parece natural. Jeff Walker continua a liderar com aquela mistura de atitude e ironia que lhe é tão característica, enquanto Bill Steer mantém a base sonora da banda com uma segurança impressionante. Não há excessos, não há grandes discursos. Há apenas foco na música, e isso sente-se. Sólidos, diretos e honestos, sem nostalgia forçada ou truques, os Carcass são uns senhores, uns senhores que sabem exatamente quem são e o que fazem em cima de um palco, e isso para os fãs é tudo.

O concerto dos Exodus foi exatamente aquilo que o thrash metal promete desde os anos 80: velocidade, agressividade e zero paciência para distrações. A banda de São Francisco — formada em 1979 e uma das peças-chave da cena da Bay Area ao lado de nomes como Metallica e Slayer — entrou em palco com a segurança de quem ajudou a definir um género inteiro. E não houve cerimónias: tudo começou logo com “3111”, abrindo caminho para uma descarga contínua de riffs rápidos e bateria em alta rotação. A partir daí, foi uma viagem direta ao coração do catálogo da banda. “Bonded by Blood” e “Deathamphetamine” foram recebidas com entusiasmo imediato, com o público a responder à altura, entre mosh constante e coros espontâneos. A energia manteve-se alta ao longo de todo o set, que misturou clássicos absolutos com temas mais recentes como “Blacklist” e a estreia ao vivo de “Promise You This”, mostrando que os Exodus continuam ativos e longe de viver apenas do passado. Os momentos finais foram pura destruição controlada: “A Lesson in Violence”, “The Toxic Waltz” e “Strike of the Beast” fecharam o concerto em alta, deixando a Sala Tejo num estado de exaustão coletiva, mas claramente satisfeita. Em palco, a banda não procura espetáculo no sentido tradicional. O que interessa aqui é impacto. Tudo é direto, cru e eficiente. Gary Holt lidera com riffs cortantes e presença constante, enquanto Tom Hunting, membro fundador, continua a ser o motor rítmico que mantém esta máquina a funcionar com precisão cirúrgica. Apesar de curto, o concerto foi muito próximo do público, intenso e com energia suficiente para amplificar a ligação entre a banda e os fãs. Fica na memória  uma atuação sem enfeites, sem pausas desnecessárias e sem qualquer tentativa de modernizar o que já é clássico. Apenas thrash metal puro, tocado com convicção. E, honestamente, às vezes isso é tudo o que é preciso.

O concerto dos Nails na Sala Tejo, em Lisboa, foi tudo aquilo que se esperava e ainda um pouco mais: intenso, caótico e sem qualquer tipo de concessões. Desde o primeiro segundo ficou claro que a noite não ia ter espaço para pausas ou introduções suaves. Os Nails entraram em palco e começaram logo a despejar a sua habitual mistura de grindcore, powerviolence e hardcore punk, com músicas curtas, violentas e tocadas a uma velocidade quase absurda. A reação do público foi imediata: a Sala Tejo, ainda que a meio gaz no qu á presença de público diz respeito, transformou-se num bloco de movimento constante, com mosh e energia a acompanhar cada tema. O alinhamento passou por alguns dos temas mais marcantes da banda, incluindo You Will Never Be One of Us, Conform e I Don’t Want to Know You. Tudo foi executado com a brutalidade habitual dos Nails, com poucas pausas e ainda menos tempo para respirar entre músicas. Em palco, a banda apresentou-se muito sólida. Todd Jones, como sempre, foi o centro de tudo — voz rasgada, guitarra pesada e uma presença que não precisa de grandes discursos para dominar a sala. A secção rítmica segurou a avalanche sonora com precisão, criando aquele som denso e esmagador que define a banda ao vivo. A Sala Tejo acabou por ser um espaço bastante eficaz para este tipo de concerto, com o público próximo do palco e uma energia muito direta entre banda e plateia. Ainda assim, houve um problema técnico com o som a meio do concerto, que deixou parte da sala sem som durante alguns momentos. Não chegou a quebrar a intensidade da atuação, mas foi um daqueles imprevistos que se notam — especialmente numa banda onde cada detalhe do impacto sonoro conta. Apesar disso, os Nails nunca abrandaram. Mantiveram sempre a mesma postura: direta, crua e implacável. E o público acompanhou até ao fim, numa descarga de energia que deixou a sala em estado de exaustão coletiva. No final, ficou a sensação de um concerto curto, mas extremamente eficaz, não feito para impressionar com espetáculo, mas sim para atingir em cheio. Uma experiência ruidosa, física e sem filtro, exatamente como os Nails devem ser ao vivo.

Kreator

Carcass

Exodus

Nails

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