Motörhead: 40 anos de “Orgasmatron”, o álbum que nasceu quando tudo parecia estar contra a banda
Há álbuns que ficam associados a uma época. Outros tornam-se documentos de resistência. «Orgasmatron», lançado pelos Motörhead em 1986, pertence claramente à segunda categoria. Quatro décadas depois, o disco continua a representar um dos capítulos mais particulares da história da banda liderada por Lemmy Kilmister — criado num período de incerteza, mudanças e rejeição, mas transformado num manifesto de peso, agressividade e atitude.
Em 1986, os Motörhead estavam longe de viver o estatuto incontestado que tinham conquistado no início da década. A relação com a Bronze Records tinha terminado e a banda encontrava-se em digressão sem contrato discográfico, depois de várias editoras terem recusado assumir o grupo. Em vez de baixar os braços, Lemmy tomou uma decisão à sua imagem: se ninguém queria editar os Motörhead, a banda encontraria uma solução por conta própria.
Assim nasceu a GWR Records, que viria a servir de casa para «Orgasmatron», um álbum que não procurou reinventar a identidade dos Motörhead, mas que introduziu mudanças importantes na sua formação e no seu som.
«Orgasmatron» marcou a estreia em estúdio de uma formação com Phil Campbell e Michael “Würzel” Burston nas guitarras, acompanhados por Pete Gill na bateria. Pela primeira vez, os Motörhead apresentavam-se como quarteto em estúdio, criando uma parede sonora mais ampla e pesada.
As duas guitarras contribuíram para uma abordagem particularmente musculada, enquanto a bateria de Gill trouxe uma precisão diferente à máquina sonora da banda. Depois da receção controversa a «Another Perfect Day», os Motörhead recuperavam uma abordagem mais directa e agressiva.
A produção ficou a cargo de Bill Laswell, que gravou o álbum em apenas 11 dias. A sua visão acabou, contudo, por dividir opiniões. A bateria surgiu mais destacada, as guitarras ganharam uma textura pouco habitual e a mistura afastou-se da sonoridade clássica dos Motörhead.
O próprio Lemmy não escondeu a sua insatisfação com o resultado. Ainda assim, a produção invulgar acabou por contribuir para tornar «Orgasmatron» num disco diferente dentro da discografia da banda.
A faixa-título continua a ser um dos grandes momentos do álbum. «Orgasmatron» apresenta um Motörhead mais lento, pesado e ameaçador, construindo uma atmosfera quase sufocante em vez de apostar na velocidade habitual.
A letra funciona como uma declaração de repúdio de Lemmy perante aquilo que considerava algumas das grandes fontes de hipocrisia e destruição da sociedade: religião organizada, política e guerra.
A interpretação vocal do músico acompanha essa atmosfera. Em vez de simplesmente cantar, Lemmy parece declamar as palavras, transformando a música num manifesto sombrio e carregado de tensão.
Apesar das dificuldades que antecederam o lançamento e das críticas à produção, «Orgasmatron» conseguiu recolocar os Motörhead no centro das atenções. Temas como «Deaf Forever» ajudaram a manter a banda presente nos palcos e nas tabelas, enquanto a digressão que se seguiu voltou a mostrar a força do grupo ao vivo.
Até a produção cénica ganhou uma nova dimensão. Os Motörhead tentaram substituir o célebre espetáculo de luzes «Bomber» por uma enorme estrutura inspirada na «Orgasmatron». O problema? Era tão grande que, em muitos locais, simplesmente não cabia.
Quarenta anos após a sua edição, «Orgasmatron» permanece como um dos álbuns mais singulares dos Motörhead. A produção continua a dividir opiniões, mas a força das composições resistiu ao tempo.
Mais do que um disco criado num momento complicado, «Orgasmatron» representa a filosofia que acompanhou Lemmy e os Motörhead durante toda a carreira: quando o mundo fecha portas, acelera-se ainda mais, aumenta-se o volume e segue-se em frente.
Um álbum nascido da adversidade que, quatro décadas depois, continua a soar tão desafiador quanto no dia em que chegou às lojas.