Mirror People lança “I Feel 4 U” e reforça identidade entre o disco, funk e eletrónica: “Surge como uma continuação natural do universo estético de Mirror People”
“I Feel 4 U” marca um novo momento no percurso de Mirror People. O que querias explorar ou dizer com este tema?
I Feel 4 U é o novo single de Mirror People, em colaboração com o Kyle Quest. É um tema disco-funk em que teve diversas versões, diferentes vozes e melodias até encontrar a voz do Kyle Quest presente na versão que acabou de sair.
Como surgiu a colaboração com Kyle Quest e o que é que ele trouxe de diferente ao universo de Mirror People?
Conheci Kyle Quest por volta de 2022, quando apresentei o álbum Heartbeats Etc. de Mirror People no Musicbox. Nessa noite, ele foi a voz do concerto de abertura do projeto Arctween, de Tito Romão. Fiquei imediatamente impressionado com a sua capacidade de improvisação e com o timbre único da sua voz. Naturalmente, comecei desde logo a imaginar uma futura colaboração entre nós.
Este single tem uma forte presença de disco, funk e eletrónica. Foi uma escolha consciente voltar a essas raízes ou surgiu de forma natural?
O disco, o funk e a eletrónica sempre fizeram parte da identidade sonora de Mirror People. De certa forma, explorar estes universos musicais surge-me de forma natural. Gosto de olhar para Mirror People como um projeto em constante construção, mas também como um catálogo coeso e consistente. Esse é, por vezes, um desafio acrescido, já que o projeto vive de diferentes colaborações e de múltiplas vozes que o vão moldando ao longo do tempo.
A voz tem aqui um papel muito central. Como foi o processo de construção entre a tua produção e a interpretação do Kyle Quest?
Tinha este instrumental guardado há vários anos. Ao longo desse tempo, experimentei diferentes vozes e melodias, mas nunca fiquei verdadeiramente satisfeito com o resultado final. Penso que o Kyle Quest acabou por dar uma nova vida e uma nova direção ao tema. Apesar de vivermos na mesma cidade, todo o processo de colaboração foi desenvolvido à distância, através da troca de ficheiros de áudio, o que tornou o resultado final ainda mais especial.
O tema conta também com João Cabrita no saxofone. O que procuraste acrescentar com essa componente mais orgânica?
O João Cabrita é já um colaborador habitual de Mirror People. Para além do saxofone, assume também as vozes de suporte na melodia instrumental do refrão, contribuindo de forma decisiva para a riqueza sonora do tema. Considero-o um dos grandes músicos da sua geração e alguém com um talento verdadeiramente singular. É sempre um enorme prazer poder contar com ele a bordo.
“I Feel 4 U” parece ter uma fluidez muito própria, quase pensada para pista de dança. Ainda pensas os temas com esse contexto em mente?
Nem por isso. Normalmente, procuro dar a cada tema aquilo que ele pede. Há, no entanto, uma coisa que sinto cada vez mais: gosto de cruzar estéticas e misturar estilos. “I Feel 4 U” é um bom exemplo disso. Tem uma batida inspirada na Motown, um andamento 4×4 que aponta para a pista de dança, uma linha de baixo repetitiva e cheia de groove, um sequenciador ácido que remete para a psicadelia e uma voz pop que, de certa forma, remete para o universo dos Tame Impala. No fundo, são muitas referências a coexistir dentro da mesma canção. Gosto disso.
A faixa instrumental “Gordon Glu” complementa este lançamento. Como dialoga com “I Feel 4 U” e porquê a decisão de a manter exclusiva no formato físico?
“Gordon Glu” foi o tema mais recente que escrevi para Mirror People. Desde o início que o imaginei editado num single de 7 polegadas. Tenho a sensação de que, para os amantes deste formato e deste universo musical, será a canção mais tocada das duas. Num mundo com uma oferta musical praticamente infinita e dominado pelos serviços de streaming, faz cada vez mais sentido criar objetos especiais, exclusivos e limitados.
O projeto Mirror People sempre teve uma forte componente colaborativa. Essa abertura continua a ser o motor criativo principal?
Não é uma regra, mas quando estou a trabalhar numa canção com uma estrutura mais próxima da pop, as vozes acabam por assumir um papel importante. Como não sou cantor, gosto de convidar outros artistas para colaborar e dar vida a essas canções. Além disso, as colaborações trazem novas perspetivas e diferentes cores aos temas, algo que considero essencial para a evolução e identidade de Mirror
People.
Depois de “Desert Island Broadcast”, sentes que este single aponta para uma nova fase ou continuidade estética?
Este single, “I Feel 4 U”, surge como uma continuação natural do universo estético de Mirror People. Sempre senti que era uma canção forte e que merecia destaque próprio enquanto single. Foi gravada na mesma altura do álbum Desert Island Broadcast, mas, por alguma razão, senti que não fazia parte desse disco. Acabou por seguir o seu próprio caminho e encontrar agora o momento certo para ser editada. Quanto ao futuro de Mirror People, não tenho um plano definido. Prefiro deixar que a música me indique o caminho. O tempo dirá.
O videoclipe recupera imagens de 2016 filmadas na Piscina das Marés. Como foi revisitar esse material tantos anos depois?
Estas imagens foram captadas pelo Alexandre Azinheira em 2016. Gosto muito da estética que transmitem e continuo a achar este espaço absolutamente fascinante. Apesar de terem sido registadas há vários anos, sinto que encaixam naturalmente na narrativa de “I Feel 4 U”.
De que forma o espaço arquitetónico de Álvaro Siza Vieira influencia a narrativa visual do vídeo?
A Piscina das Marés é um local único, de certa forma enigmático e ao mesmo tempo bruto na sua natureza. Os efeitos que adicionei na pós-produção do vídeo resultam numa abordagem mais desconstruída e artística, algo que considero essencial no universo musical de Mirror People. Essa dimensão mais imperfeita faz parte da estética que procuro explorar no projeto.
Ao longo da última década, Mirror People construiu uma identidade muito própria dentro damúsica eletrónica portuguesa. O que sentes que mais evoluiu no projeto?
O que mais evoluiu no projeto Mirror People foi, sobretudo, a minha própria evolução enquanto produtor e escritor de canções. Para mim, é importante construir uma carreira sólida e fazer com que o trabalho seja percebido como algo que foi sendo moldado ao longo do tempo.
Com os anos, percebi que não faz sentido andar a “disparar para todo o lado” musicalmente, nem tentar acompanhar as tendências mais recentes de forma constante. Por isso, procuro desenvolver a minha própria linguagem musical e estar atento a todos os detalhes, para evitar editar “maus discos” (risos).
Tens vários temas marcantes no teu percurso. Onde colocas “I Feel 4 U” dentro da discografia de Mirror People?
Penso que o “I Fee 4 U” é um bom single disco-funk. É uma canção radiofónica à semelhança de outras que fiz tais como “I Need Your Love”, “Gud Times” ou “Million Questions”.
A edição em vinil limitada reforça o lado colecionável do projeto. Que importância continua a ter o formato físico para ti?
Para mim, um disco só é verdadeiramente “a sério” quando sai em vinil. Naturalmente, existe todo um nível de dedicação e de custos associado a editar música neste formato, mas, no final do dia, são precisamente esses detalhes que considero importantes. Faço questão de que a minha música tenha sempre uma edição em formato físico, porque isso faz parte da forma como entendo o próprio trabalho e o seu valor.
Por fim, o que podemos esperar dos próximos passos de Mirror People — mais colaborações, novos formatos ou até um novo disco?
Para já, estou a escrever e a gravar novos temas. Ainda estou numa fase em que não sei exatamente o que vou fazer com eles. O tempo dirá.
Por agora, o melhor é ouvir o novo single e os outros temas que fui editando ao longo dos anos.