Milhões de Festa: mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades

Milhões de Festa: mudam-se os tempos, mantêm-se as vontades

À partida para a sua 11ª edição, pairava a dúvida sobre a receptividade do público face às novas datas do Milhões de Festa. Isto tudo, porque este ano a organização decidiu quebrar a tradição e mudar as datas do festival de Julho para Setembro. Mas não se aflijam. À parte disso, tudo o resto permaneceu inalterado e uma vez mais o festival foi um sucesso, confirmando o seu histórico irrepreensível.

Num festival como o Milhões de Festa há um sentimento de alienação, de contraste entre a pertença à comunidade mas também de estranheza e descoberta. A cada edição, o festival atrai curiosos e melómanos, oferecendo-lhes um leque de artistas a descobrir, o que se equilibra com o conforto proporcionado pelo ritmo melancólico de Barcelos. Neste caso, ir ao Milhões torna-se numa experiência que ultrapassa os clichés de um tradicional festival de música. Ao integrar o património histórico da cidade minhota, o público do Milhões pode ficar a conhecer alguns dos pontos mais turísticos e saborear algumas delícias da gastronomia minhota (com destaque evidente para as deliciosas sandes de rojão). Não há muito mais que se possa pedir.

Ainda assim, e de todos os agradáveis espaços que o Milhões oferece ao seu público – desde o campismo no Parque Municipal de Barcelos até aos palcos principais, localizados nas margens do rio Cávado – é na piscina que grande parte dos festivaleiros passa as suas tardes.

Pharaoh Ovelord
Tajak

Por estes dias, a Piscina Municipal de Barcelos (Palco Piscina) é local de concentração para aqueles que se querem refrescar mas também ver e ouvir bons concertos. No último dia de Milhões, por exemplo, a tarde começou com o som psicadélico do trio mexicano Tajak, a que se seguiu uma maratona de improvisação e krautrock dos finlandeses Pharaoh Ovelord.

A tarde ficaria completa com uma das surpresas desta edição do Milhões de Festa: Johnny Hooker. O artista brasileiro trouxe frescura à tarde quente de Verão que se fazia sentir, com uma pop eloquente e activista que ganha fôlego na luta pela destruição de preconceitos raciais e de género.

Gazelle Twin
UKAEA

Nos últimos dois dias, o cartaz do Milhões de Festa voltou, novamente, a elevar-se pela singularidade das performances escolhidas. Comecemos por Gazelle Twin, artista britânica dona de um art pop, de contornos industriais, que hipnotiza através de um concerto visualmente assombroso. Na mesma senda, podemos ainda falar da performance artística de UKAEA (sigla para United Kult of the Animist Endgame Apostles) ou da silent party Anadolu Ekspres (com headphones fornecidos a cada participante). No que toca aos registos electrónicos, os últimos dois dias foram ainda preenchidos com a actuação eufórica de The Bug, produtor que se fez acompanhar da rapper Miss Red, e ainda com dupla alemã Mouse on Mars, que, no seu estilo IDM, trouxe ao Milhões uma festa digna de destaque.

Nestes momentos, o festival prova que não há limites no que toca às sonoridades, ao testar a receptividade do público, mas também ao promover o lançamento de novos artistas. Podem correr-se riscos, mas a verdade é que mesmo não correspondendo aos gostos musicais mais genéricos, o cartaz consegue sempre deixar alguém extasiado por esse processo de descoberta sistemático.

Foi, no entanto, ao terceiro dia que se fez notar a maior enchente desta edição. A expectativa para ver Electric Wizard (um dos cabeças de cartaz deste Milhões) atraiu os adeptos do som mais pesado, mesmo que muitos destes se tenham desiludido com o último álbum dos britânicos Wizard Bloody Wizard (2017). Não tendo deslumbrado (sobretudo para quem se lembra da actuação da banda no Reverence Valada em 2014), os Electric Wizard foram altamente competentes, numa setlist que não deixou de fora clássicos como Black Mass ou Dopethrone.

Do doom metal para o funaná, o Milhões foi mais uma vez astuto na escolha para os cabeças de cartaz do último dia. A fechar com chave de ouro, a actuação principal ficou ao cuidado d’Os Tubarões, banda mítica cabo-verdiana que não deixou ninguém indiferente. Mesmo com o cansaço acumulado dos quatro dias de festival, os ritmos de funaná, morna e coladeira fizeram com que praticamente todo o público dançasse naquela que seria a forma mais festiva de encerrar esta 11ª edição.

Ao olharmos para o cartaz deste ano, foi também motivo de satisfação ver que o Milhões está atento às mais recentes tendências musicais. Não foi por isso surpreendente ver tantos artistas ligados, directa ou indirectamente, ao jazz, género musical que tem ganho mais adeptos a cada ano que passa. No último dia, cabe-nos, assim, destacar a actuação dos The Heliocentrics.

A banda britânica, que encontra no jazz o seu género musical de base, transportou-nos para um universo exótico, que vai do hip hop ao funk, passando pela sonoridade mais psicadélica.

Na última noite, tempo ainda para falar um pouco do promissor jazz de Nubya Garcia. Contagiante, super talentosa e eloquente: não faltam adjectivos para descrever esta jovem saxofonista londrina (de apenas 26 anos), que no Milhões de Festa deu o melhor concerto da noite e quiçá desta 11ª edição. Com apenas um álbum de estúdio (Nubya’s 5ive) e um EP lançado já este ano (When We Are), Nubya Garcia será sem dúvida um dos grandes nomes do futuro panorama musical. Por cá aguardaremos por novo álbuns, uma vez que os registos discográficos da artista se encontram mundialmente esgotados.

Texto: Ricardo Gonçalves

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