Milhões de Festa: já não se fazem festivais assim

Milhões de Festa: já não se fazem festivais assim

Chegou ao fim mais uma edição do Milhões de Festa. À 11ª edição, o festival que assenta arraiais em Barcelos, depois de passagens pelo Porto e Braga, confirma o seu estatuto ímpar no panorama dos festivais de música portugueses: um evento de culto, com um público fiel e um cartaz que prima pela sua diversidade. Electric Wizard, Squarepusher, e os Tubarões foram alguns dos principais nomes da edição de 2018.

Carregados de tendas, mochilas com roupa, pratos e panelas, foram muitos os festivaleiros que logo no dia 6 de Setembro tomaram de assalto o Parque Municipal de Barcelos. A jornada deste Milhões de Festa 2018 previa-se longa e quase sempre fora de horas, ora não fossem pelas after parties sistemáticas que o cartaz nos propunha. Mais do que apenas quatro dias dedicados à música alternativa, o Milhões de Festa capricha na sua capacidade de dinamização local, trazendo um novo sentido de comunidade à pitoresca cidade de Barcelos. A juntar a isto, podemos ainda destacar o número de bandas e artistas da região minhota que o festival tem vindo a apoiar.

É neste último ponto que se situam os Ensemble Insano, projecto que reúne um conjunto de músicos da cidade e que, anualmente, dá o pontapé de saída do Milhões. Este ano, a super banda, com mais de dez elementos, tocou no piso subterrâneo do parque de estacionamento da Câmara Municipal, num concerto aberto ao público em geral. A surpresa do local escolhido assim como o som experimental e, por vezes sinistro, que ali se ouviu, correspondeu às expectativas da assistência, naquela que terá sido, porventura, a melhor forma de abrir um festival que se orgulha em vestir a camisola de “Meca da música alternativa”. A banda presidiu, de resto, ao chamado palco Cidade, cuja localização seria divulgada todos os dias, duas horas antes dos concertos. Com esta iniciativa, o Milhões de Festa acaba por aprofundar o seu enraizamento cultural na região, mesmo que ao olhar mais desprevenido nada se passe em Barcelos para além da sua pacata normalidade. Excepção feita para os restaurantes e cafés locais que por estes dias aumentam o seu volume de negócios.


Da cave escura onde ouvimos os primeiros acordes deste Milhões para a praia fluvial onde se encontravam os principais palcos, o primeiro dia foi pontuado por alguma falta de público, culpa que podemos atribuir à quinta-feira em que ocorreu. No início da noite, tivemos oportunidade de ver no palco Milhões os Indignu, banda barcelense que esgrimiu um pós-rock maduro e que no fim pode contar com a participação especial de Ana Deus (Três Tristes Tigres) na voz.



Na segunda noite, dia 7 de setembro, foram os Krake Ensemble que tiveram a honra de inaugurar esse mesmo palco.


A primeira noite seguiu com a dupla de DJs americanos 700 Bliss. Pela primeira vez nesta edição de Milhões, vimos algumas dezenas de pessoas a dançar junto ao palco principal, ao som de um dubstep que deambulou entre beats mais clássicos e algum experimentalismo electrónico.


Nesta noite, contámos ainda com o Dj set Aerobica, que encerrou o primeiro dia de festival com um conjunto apimentado de sucessos pop e hip hop das últimas décadas.


Foi, no entanto, com os The Mauskovic Dance Band que se registou o ponto alto da primeira noite. Com uma surpreendente maturidade em palco, a banda holandesa trouxe para Barcelos uma energia tropical, onde encontramos ritmos latinos mas também alguns traços mais orientais. Em certa medida, esta banda demonstra justamente o quão eclético pode ser o cartaz do Milhões de Festa. Que pode ir do hip hop, ao metal mais extremo, passando pelo jazz e punk, tudo isto sem que nos apressemos a mudar rapidamente de palco para não perdermos “pitada de sal” do artista que queremos ver a seguir.



Veja-se por exemplo, o caso das Mirrored Lips, que trouxeram para o Milhões uma performance que escalou do punk compassado ao rock mais sarcástico, de motivações poéticas, herança do movimento riot grrrl. No mesmo mapa, podemos incluir e destacar o free jazz dos Peter Gabriel Duo quer pelo libertino saxofone de Pedro Sousa ou pela inovadora forma de tocar bateria de Gabriel Ferrandini.


No resumo dos dois primeiros dias deste Milhões de Festa, cabe-nos ainda dar destaque a alguns actos que se bateram pelo lugar cimeiro das melhores performances desta 11º edição. Falamos primeiro do britânico Squarepusher, cabeça de cartaz do segundo dia, e que trouxe para Barcelos a mestria de uma electrónica pesada, por vezes violenta, no seu estilo IDM. Se o produtor inglês, pseudónimo de Tom Jenkinson, surpreende pela sonoridade que vai do drum and bass ao techno, o mesmo acontece com a narrativa visual que esta performance nos propõe, num desafio que pode parecer, em certos momentos, inacessível tanto ao corpo quanto à mente.

Depois, falamos dos finlandeses Circle, que com a devida qualidade, nos conduzem ao centro de um epopeia que passa em revista décadas de som pesado. No bom sentido, podemos classificar os Circle como uma espécie de banda de covers, não de músicas, mas de géneros musicais (entre o krautrock, o prog, o glam e o heavy). Com mais de trinta discos editados, os veteranos finlandeses foram uma das muitas razões para que o Milhões deste ano fosse inesquecível. Surpreenderam pela performance teatral e trouxeram a palco uma velha nostalgia que secretamente temos por alguns festivais entretanto desaparecidos como o Reverence Valada.

Circle

No segundo dia, resta-nos ainda falar um pouco dos Warmduscher, quarteto londrino, com membros dos Fat White Family, que promoveu um combo, nem sempre astuto, de punk de garagem e blues mais refinado, com direito a um casaco exuberante de um vocalista que podia perfeitamente vender farturas na festa mais próxima. Perante isto, resta-nos agradecer aos Scúru Fitchádu pela escaldante after party com direito tanto a punk (note-se um cover dos Doom) como a funaná (neste caso, do Julinho da Concertina).

Texto: Ricardo Gonçalves

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