Milagre Metaleiro 2026 Dia I: entre guerreiros, guitarras e sombras, Gwydion, The Haunted e Paradise Lost dominaram Pindelo dos Milagres
Pindelo dos Milagres voltou a transformar-se, durante três dias, num ponto de encontro para quem sabe que o metal se vive muito para lá do palco. No primeiro dia do Milagre Metaleiro 2026, houve guitarras para todos os estados de espírito, da energia e do espírito guerreiro dos Gwydion à descarga dos The Haunted e à escuridão elegante dos Paradise Lost. Pelo caminho ficaram encontros, sorrisos, memórias e aqueles pequenos momentos que só acontecem quando centenas de pessoas se juntam para celebrar a mesma música.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Há qualquer coisa de especial numa banda que já leva três décadas de estrada. Há histórias acumuladas, mudanças de formação, discos, concertos e, inevitavelmente, pessoas que ficam pelo caminho. Os Gwydion chegaram ao primeiro dia do Milagre Metaleiro Open Air 2026, em Pindelo dos Milagres, com tudo isso às costas. E talvez por isso o concerto tenha tido um peso que foi muito além da música.
Formados em 1995, são uma das bandas portuguesas que mais tempo dedicaram a explorar o universo do folk e do viking metal. Mas chamar-lhes apenas uma banda de viking metal é pouco. Ao longo dos anos, foram construindo um som onde cabem guitarras pesadas, melodias épicas, elementos folk e histórias que vão muito além dos imaginários nórdicos que tantas vezes aparecem associados ao género. No primeiro dia do Milagre Metaleiro, a banda mostrou precisamente essa identidade. Os temas ganharam força em palco, as guitarras fizeram-se sentir e as melodias criaram aquele ambiente épico tão característico dos Gwydion. Não houve necessidade de grandes artifícios. A música fez o trabalho e o público entrou no universo da banda de forma natural. Mas este era, inevitavelmente, um concerto diferente.
Há pouco mais de um ano, os Gwydion perderam Daniel César, teclista e um dos fundadores da banda. Daniel morreu inesperadamente a 8 de maio de 2025, aos 44 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante. Para quem conhece a história dos Gwydion, Daniel não era apenas mais um músico. Esteve lá desde o início. Acompanhou a banda durante cerca de 30 anos, atravessou mudanças, discos e diferentes fases musicais e ajudou a construir aquelas atmosferas épicas que fazem parte da identidade do grupo. Por isso, vê-los em palco depois da sua morte é inevitavelmente diferente. Não porque os Gwydion tenham transformado o concerto num memorial, longe disso, mas porque a ausência está lá. Está nas músicas, nas memórias e no conhecimento de que uma das pessoas que ajudou a criar aquele universo já não está ao lado dos restantes músicos. E talvez a melhor homenagem possível tenha sido precisamente esta: continuar. Continuar a tocar. Continuar a levar as canções para os festivais. Continuar a fazer barulho.
E houve um momento que resumiu, talvez melhor do que qualquer palavra, o significado deste concerto. No meio do público surgiu uma bandeira com o rosto de Daniel César. Levantada por um fã, a imagem do fundador e teclista dos Gwydion apareceu entre a multidão, num gesto espontâneo que rapidamente se tornou num dos momentos mais emotivos da passagem da banda pelo Milagre Metaleiro. Não era uma homenagem preparada em palco. Veio do público, de quem decidiu levar consigo a memória de Daniel para aquele concerto. Durante alguns instantes, aquela imagem destacou-se entre as cabeças e as camisolas negras. Daniel voltou a estar ali de outra forma. Não atrás dos teclados, não ao lado dos restantes elementos da banda, mas no rosto que aquele fã decidiu levar para o festival. Foi um daqueles momentos que não se ensaiam. E talvez por isso tenha sido tão forte.
A música continuou, mas tornou-se impossível não pensar na história que Daniel ajudou a construir desde 1995. A sua morte deixou um vazio evidente, mas aquela bandeira transformou esse vazio numa homenagem coletiva.
Se a memória de Daniel esteve inevitavelmente presente, o concerto esteve longe de ser dominado pela tristeza. Pelo contrário: havia alegria em palco. Via-se nos sorrisos dos músicos, nos olhares trocados entre eles e na forma como se entregaram ao concerto. Havia uma energia descontraída, uma cumplicidade visível e, sobretudo, o prazer genuíno de estar ali a tocar perante um público que respondeu à banda. Os Gwydion não subiram ao palco para lamentar uma ausência. Subiram para celebrar a música e tudo aquilo que construíram ao longo de mais de três décadas. E esse contraste foi talvez uma das coisas mais bonitas da atuação. A emoção estava presente, mas estava também a vontade de viver o momento. Os músicos sorriram, interagiram entre si e deixaram que a música conduzisse a noite. Quando a bandeira de Daniel surgiu no público, a homenagem encontrou espaço dentro dessa celebração. Porque aquela imagem não representava apenas aquilo que se perdeu. Representava também aquilo que ficou.
Uma das coisas mais interessantes nos Gwydion é que nunca ficaram presos à ideia de que o viking metal tem de olhar exclusivamente para a Escandinávia. Claro que a mitologia nórdica está presente. Há guerreiros, batalhas, deuses e toda uma dimensão épica. Mas a banda também encontrou inspiração na própria História portuguesa. Veteran, de 2013, é um bom exemplo. O álbum conta a história de um guerreiro e aproxima essa narrativa da História de Portugal. Depois, em Thirteen, de 2018, os Gwydion mergulham diretamente na invasão viking de Portugal. É uma forma inteligente de pegar num género com uma forte identidade estrangeira e encontrar nele espaço para contar histórias que também nos pertencem. No palco, essa dimensão funciona particularmente bem. As músicas são suficientemente pesadas para satisfazer quem veio à procura de metal, mas têm também aquele lado melódico e épico que torna fácil deixar-se levar.
O alinhamento do primeiro dia do Milagre Metaleiro não era pequeno. Ao lado dos Gwydion estavam nomes como Enforcer, The Haunted e Paradise Lost, bandas com décadas de carreira e uma enorme reputação internacional. Perante estes nomes, os Gwydion não pareceram deslocados. Pelo contrário. Mostraram que existe uma identidade portuguesa dentro deste universo e que não precisa de ser escondida quando está perante uma plateia habituada a grandes nomes internacionais. A prestação teve peso, energia e, acima de tudo, personalidade. Não foi uma tentativa de competir com aquilo que viria depois. Foi simplesmente um concerto dos Gwydion e isso chegou.
Talvez seja essa a melhor maneira de olhar para a atuação dos Gwydion no Milagre Metaleiro. A banda está numa fase diferente da sua história. Daniel César já não está lá, e essa é uma perda demasiado recente e importante para ser reduzida a uma nota de rodapé. Mas aquilo que ele ajudou a construir continua vivo. Está nos discos. Está nas melodias. Está nas memórias de quem os viu tocar ao longo dos anos. E está agora também nos novos concertos. No Milagre Metaleiro, os Gwydion não tentaram fingir que nada mudou. Simplesmente subiram ao palco e fizeram aquilo que sabem fazer. Tocaram. E sorriram. Entre riffs pesados, melodias épicas, olhares cúmplices e uma bandeira levantada no meio do público, a banda mostrou que a memória e a alegria podem ocupar o mesmo espaço. Daniel já não estava em palco. Mas a música que ajudou a construir estava. E, durante aquele concerto, foi impossível não sentir que, de alguma forma, ele também estava ali.
Há concertos em que basta uma música para perceber que estamos perante uma banda que sabe exactamente ao que vem. Com os Enforcer, foi assim. Os primeiros riffs chegaram e, de repente, o primeiro dia do Milagre Metaleiro Open Air 2026 ganhou outra velocidade. Os suecos não vieram a Pindelo dos Milagres para reinventar o heavy metal. Vieram para o tocar como acreditam que deve ser tocado: alto, rápido, com guitarras a rasgar, bateria sem descanso e aquela voz aguda de Olof Wikstrand que dificilmente deixa alguém indiferente. E funcionou.
Desde os primeiros minutos, os Enforcer agarraram o público com uma energia que não precisou de grandes discursos. A banda avançou tema atrás de tema com uma segurança impressionante, deixando que os riffs fizessem o trabalho. A resposta foi imediata: cabeças a abanar, braços no ar e uma plateia cada vez mais envolvida. Não é nostalgia. É paixão.
Formados em 2005, na Suécia, os Enforcer cresceram dentro da chamada New Wave of Traditional Heavy Metal, movimento que recuperou a linguagem do heavy metal clássico e a apresentou a uma nova geração. Mas há uma diferença entre tocar música antiga e tocar música com a convicção de quem realmente acredita nela. Os Enforcer pertencem claramente à segunda categoria.
Há algo quase desconcertante na forma como assumem todas as referências do género. Guitarras gémeas, solos rápidos, vocais agudos, refrões enormes e uma estética old school que não tenta ser irónica. Tudo está ali porque os músicos gostam genuinamente daquele som. E quando isso passa para o palco, percebe-se a diferença. O que poderia parecer uma viagem ao passado transforma-se numa coisa bastante viva.
Ao vivo, os Enforcer são uma máquina. Mas uma máquina com personalidade. A precisão está lá, naturalmente. Afinal, estamos a falar de músicos que já levam mais de duas décadas a tocar juntos e que construíram uma reputação internacional precisamente em cima da qualidade das suas actuações. Mas não foi a perfeição técnica que mais marcou a passagem pelo Milagre Metaleiro. Foi a energia. A banda parecia estar permanentemente em movimento. As guitarras puxavam pelo público, a bateria mantinha tudo em alta rotação e Olof Wikstrand assumia o palco com a atitude de um frontman que sabe que não precisa de complicar. Foi uma descarga, mas foi também uma celebração. Ao longo dos anos, os Enforcer construíram uma discografia que vai de Into the Night (2008) e Diamonds (2010) a Death by Fire, From Beyond e Zenith. Em 2023, editaram Nostalgia, um álbum que recupera ainda mais claramente a vertente speed metal da banda. O título poderia sugerir uma viagem sentimental ao passado, mas o concerto mostrou exatamente o contrário. Não há nada de museológico nos Enforcer. As músicas podem beber diretamente do heavy metal dos anos 70 e 80, mas em palco soam urgentes. Há velocidade, agressividade e uma energia juvenil que contrasta com os mais de 20 anos de carreira. É talvez esse o segredo da banda: não tentam convencer ninguém de que o heavy metal clássico voltou. Comportam-se como se ele nunca tivesse desaparecido.
E o público percebeu rapidamente a mensagem. O ambiente diante do palco foi crescendo à medida que o concerto avançava. Os temas mais rápidos eram recebidos com entusiasmo, os refrões encontravam resposta e havia aquela sensação tão característica dos bons concertos de heavy metal: pessoas que provavelmente não se conhecem a cantar juntas como se o fizessem há anos. É esse tipo de ligação que não se consegue fabricar. Pode haver luzes, grandes ecrãs e produções gigantescas, mas às vezes basta uma guitarra, uma bateria e uma banda completamente entregue ao que está a fazer. Os Enforcer provaram isso em Pindelo dos Milagres.
No contexto do cartaz, os suecos também fizeram todo o sentido. O primeiro dia do Milagre Metaleiro juntava diferentes gerações e sensibilidades do meta. Os Enforcer ocuparam o seu espaço sem tentar parecer outra coisa. Foram a dose de velocidade e heavy metal clássico que aquele dia precisava. E talvez tenha sido essa a maior qualidade do concerto: não houve esforço para impressionar artificialmente. Houve simplesmente uma banda a tocar aquilo que gosta, com uma convicção contagiante. Quando deixaram o palco, já tinham feito aquilo que se esperava deles. Tinham aquecido o recinto. Tinham posto o público a mexer. E tinham lembrado uma coisa bastante simples: o heavy metal não precisa de ser reinventado para continuar a ser emocionante. Às vezes, precisa apenas de ser tocado com vontade, com suor e com o volume bem alto.
Há uma frase que ficou a pairar entre o público depois da actuação dos The Haunted no Milagre Metaleiro: “São melhores ao vivo do que em disco.” Dita ali, quase de passagem, por quem tinha acabado de assistir ao concerto, talvez seja uma das formas mais simples de explicar aquilo que aconteceu naquela noite. E, para muitos, foi também a grande surpresa do dia. Os The Haunted entraram em palco sem precisar de grandes apresentações. O nome fala por si para quem acompanha o metal há algum tempo, mas havia também quem estivesse simplesmente à espera de mais um concerto num cartaz particularmente forte. Pouco depois, já ninguém parecia ter dúvidas: a banda sueca tinha acabado de transformar o recinto num dos momentos mais intensos da noite.
Vindos de Gotemburgo, os The Haunted carregam quase três décadas de história. São uma das formações fundamentais da cena extrema sueca e construíram uma identidade própria a partir do cruzamento entre thrash, death metal e groove. Mas em Pindelo dos Milagres não houve qualquer sensação de estarmos perante uma banda a viver de memórias. Havia urgência. Havia energia. E, sobretudo, havia uma enorme vontade de tocar.
A formação atual junta Marco Aro, Patrik Jensen, Jonas Björler, Adrian Erlandsson e Ola Englund. Cinco músicos que parecem funcionar em palco como uma engrenagem perfeitamente afinada, mas sem perder aquela espontaneidade que torna um concerto memorável. Marco Aro domina a frente do palco, enquanto Jensen e Englund constroem uma parede de guitarras que nunca parece perder força. Björler e Erlandsson seguram a estrutura por baixo, garantindo que tudo avança com uma precisão quase cirúrgica. Só que há qualquer coisa mais. Há vida. Os músicos comunicam entre si, sorriem, movimentam-se e parecem genuinamente estar a divertir-se em cima do palco. E essa energia passa para quem está do outro lado.
A presença de Ola Englund acrescentava ainda outra camada ao concerto. Para muitos dos presentes, o guitarrista já era uma cara conhecida antes mesmo de subir ao palco. Ao longo dos anos, Englund construiu uma enorme comunidade no YouTube, onde partilha conteúdos sobre guitarras, amplificadores, pedais e equipamento. É uma das figuras mais reconhecidas da atual cultura digital ligada à guitarra de metal. Mas há uma diferença enorme entre vê-lo através de um ecrã e tê-lo à frente num palco. No Milagre Metaleiro, não havia vídeos, comparações de equipamento ou edição. Havia som. Havia volume. E havia uma guitarra nas mãos de um músico que sabe exatamente o que fazer com ela. Englund trouxe para o palco a experiência acumulada ao longo de anos como guitarrista, mas também uma atitude descontraída que contrastava com a violência da música. Ao lado de Patrik Jensen, encontrou uma química particularmente eficaz. As duas guitarras pareciam conversar. E o público ouviu.
A frase surgiu no meio da movimentação junto ao palco. “São melhores ao vivo do que em disco.” Não era uma análise técnica. Era simplesmente a reação espontânea de alguém que tinha acabado de os ver. E talvez seja precisamente por isso que a frase funciona tão bem. Porque ouvir os The Haunted em disco é uma coisa. Vê-los ao vivo é outra. Em palco, os temas ganham uma dimensão física que nem sempre é possível captar numa gravação. Os riffs parecem mais pesados, a bateria empurra mais, a voz de Marco Aro ganha outra presença e toda a banda parece tocar com uma urgência diferente. O público respondeu imediatamente. As cabeças começaram a abanar. Os braços levantaram-se. Abriram-se mosh pits. Os crowdsurfers começaram a atravessar a multidão. E, de repente, havia muito pouca gente simplesmente a assistir. A maioria estava a participar. Talvez essa seja uma das grandes forças dos The Haunted. Não precisam de pedir ao público que reaja. A música encarrega-se disso. Há uma espécie de instinto físico na forma como a banda toca. Mesmo nos momentos mais técnicos, existe groove suficiente para que a complexidade nunca se transforme numa barreira. É metal para ouvir. Mas é sobretudo metal para sentir. E foi isso que aconteceu no Milagre Metaleiro.
A cada mudança de ritmo, o público respondia. A cada novo riff, havia mais movimento. E quanto mais a plateia se entregava, mais a banda parecia crescer. Era uma relação de ida e volta. Os The Haunted nasceram em 1996 e fazem parte de uma geração que ajudou a definir o metal extremo sueco. Ao longo dos anos, passaram por diferentes fases, diferentes formações e diferentes abordagens musicais. Mas continuam reconhecíveis. No Milagre Metaleiro, essa história esteve presente sem nunca transformar o concerto numa viagem nostálgica. A banda apresentou material mais recente ao lado de temas de outras fases da carreira, mostrando que o passado não é uma âncora. É uma base. E talvez seja essa a razão pela qual os The Haunted continuam a funcionar tão bem. Não estão a tentar ser a banda que eram há 20 anos. São simplesmente os The Haunted de agora.
Se Ola Englund teve uma atenção especial, Marco Aro foi quem manteve o público permanentemente ligado ao palco. Aro tem aquela presença de frontman que não precisa de exageros. Um gesto. Um olhar. Uma aproximação à frente do palco. E a resposta aparece. A sua voz continua a ser uma das características mais fortes da banda e, ao vivo, ganha uma agressividade que dificilmente passa despercebida. Ao seu lado, Jensen mantém-se concentrado nas guitarras, enquanto Englund acrescenta uma energia muito própria. Björler e Erlandsson formam uma secção rítmica sólida, mas nunca estática. Tudo se move. Tudo respira. Tudo parece estar no sítio certo.
Quando o concerto terminou, havia uma sensação curiosa no recinto. Os The Haunted tinham entrado em palco como uma das bandas mais aguardadas por uma parte do público. Mas saíram como a surpresa para muitos dos que ainda não conheciam bem a sua força ao vivo. E não era difícil perceber porquê. Havia quem já os conhecesse e confirmasse aquilo que esperava. Mas havia também quem tivesse acabado de descobrir uma banda que, em palco, parece muito maior do que qualquer gravação consegue transmitir. Para alguns, não havia sequer discussão: tinha sido o melhor concerto da noite.
Por alguns minutos, Pindelo dos Milagres pareceu ter ficado mais escuro. Não por causa das luzes do palco, mas porque a música dos Paradise Lost tem essa capacidade estranha de alterar o ambiente à sua volta. Quando Nick Holmes, Greg Mackintosh e companhia começaram a ocupar o palco do Milagre Metaleiro, o recinto deixou de ser apenas o lugar onde decorria um festival de metal. Passou a ser território dos britânicos. E o mais curioso é que, no meio daquela escuridão toda, houve espaço para rir. Porque Nick Holmes, com a naturalidade de quem já leva quase quatro décadas a percorrer palcos, encontrou motivos para brincar com aquilo que tinha à sua frente. Primeiro, um castelo. Depois, um teclista que não existia. O castelo era insuflável. O teclista chamava-se, segundo Holmes, Sir Elton John. E talvez não haja melhor maneira de resumir a passagem dos Paradise Lost pelo Milagre Metaleiro: um concerto pesado e sombrio, protagonizado por uma das bandas fundamentais do gothic metal, mas com espaço suficiente para alguns momentos de puro divertimento.
Quando a banda subiu ao palco, já não havia dúvidas sobre a dimensão da expectativa. À frente dos Paradise Lost estava uma multidão composta por várias gerações de fãs. Havia quem acompanhasse a banda desde os anos 90 e quem tivesse chegado mais recentemente à sua música. Para todos, porém, havia uma certeza: aquela não era uma presença qualquer no cartaz. Os Paradise Lost são uma daquelas bandas que não precisam de apresentação. Formados em Halifax, em 1988, ajudaram a transformar a relação entre peso e melodia dentro do metal extremo. Partiram do death/doom, contribuíram decisivamente para o nascimento do gothic metal e passaram por várias transformações ao longo da carreira. Quase 40 anos depois, continuam a ter uma identidade que se reconhece em poucos segundos. E isso ficou evidente em Pindelo dos Milagres. Há músicos que envelhecem com a banda. Nick Holmes parece ter feito outra coisa. Tornou-se parte da própria memória dos Paradise Lost. A sua voz acompanhou praticamente toda a história do grupo e continua a ser um dos elementos que tornam imediatamente reconhecível a música da formação britânica. Mas o Holmes que esteve no Milagre Metaleiro não foi apenas o vocalista de uma banda histórica. Foi também um frontman descontraído, atento ao que acontecia à sua volta e perfeitamente disponível para brincar com a situação. A meio do concerto, a ausência de teclista acabou por servir de ponto de partida para uma das suas tiradas. O elemento que não estava em palco ganhou nome. Sir Elton John. O público percebeu a ironia e respondeu com sorrisos. Pouco depois, a banda estava novamente mergulhada na sua música. É este tipo de momento que não aparece numa setlist. Mas é precisamente este tipo de momento que muitas vezes fica na memória.
A outra história nasceu do próprio cenário. Holmes comentou que nunca teria imaginado vir a Portugal tocar num festival com um castelo. Só havia um pequeno problema. O castelo era insuflável. E estava longe de ser uma peça decorativa. Durante os três dias do Milagre Metaleiro, o insuflável foi um dos grandes pontos de atração para as crianças que acompanharam os pais ao festival. Enquanto os adultos mergulhavam no metal, os mais pequenos tinham ali a sua própria aventura. E, naquele momento, as duas realidades cruzaram-se. Paradise Lost no palco. Crianças no castelo. Nick Holmes a achar graça à situação. É uma daquelas imagens que dificilmente alguém teria conseguido planear. E talvez por isso tenha funcionado tão bem.
Se Nick Holmes dá voz à identidade dos Paradise Lost, Greg Mackintosh é uma das figuras responsáveis por lhe dar forma. A sua guitarra esteve no centro de alguns dos momentos mais marcantes da carreira da banda e continua a ter uma característica difícil de reproduzir: consegue ser pesada sem deixar de ser melódica. No palco do Milagre Metaleiro, isso voltou a ficar evidente. As guitarras tinham corpo, densidade e uma certa tristeza que parece inseparável da música dos Paradise Lost. Não era peso pelo peso. Havia sempre uma emoção por baixo. Uma melodia escondida. Uma tensão que se ia acumulando. E é precisamente aí que a banda continua a distinguir-se. Os Paradise Lost poderiam ter escolhido uma fórmula e repetindo-a durante toda a carreira. Não o fizeram. A história da banda é feita de mudanças, experiências e algumas decisões que surpreenderam os próprios fãs.
Do death/doom inicial ao gothic metal, passando por períodos mais eletrónicos, mais alternativos ou novamente mais pesados, a formação nunca deixou de procurar. É por isso que falar dos Paradise Lost apenas como uma banda de gothic metal é insuficiente. Existe muito mais ali. E talvez essa inquietação seja uma das razões pelas quais continuam relevantes. Depois da velocidade e da violência dos concertos anteriores, os Paradise Lost trouxeram uma intensidade diferente ao Milagre Metaleiro. Não era preciso transformar o recinto num caos permanente. A música fazia o trabalho. O público ficou preso às guitarras, à voz de Holmes e às mudanças de atmosfera.
No final, os Paradise Lost deixaram a sensação de uma banda confortável no seu próprio legado. Nick Holmes continua a ter uma presença única. Greg Mackintosh continua a ser uma das grandes referências da guitarra no metal britânico. E a banda, no seu conjunto, continua a saber transformar peso e melancolia numa linguagem própria. Mas ficou também aquela imagem inesperada. O palco sombrio. A multidão. E, algures por perto, um castelo insuflável onde dezenas de crianças passaram parte dos três dias do festival enquanto os pais assistiam aos concertos. Talvez Nick Holmes nunca tivesse imaginado vir a Portugal para tocar num festival com um castelo. Agora já sabe. E, se voltar, provavelmente vai procurar pelo castelo. Quanto ao teclista, esse continuará a ser mais difícil de encontrar. Sir Elton John, ao que tudo indica, só aparece quando Nick Holmes decide chamá-lo.
Gwydion
Enforcer
The Haunted
Paradise Lost
Ethereal