MIL: Viagem transatlântica e a nova vida da música portuguesa

Tem nome de festival internacional e assume-se como convenção. O objetivo é mostrar noutros mercados a música que se anda a fazer por aí. O palco voltou a ser o Cais do Sodré, em mais uma edição do MIL Lisboa. Uma espécie de Web Summit da música. Em ponto pequeno.

O MIL – Lisbon Internacional Music Network 2018 invadiu vários pontos, na zona do Cais do Sodré, entre 4 e 6 de abril. O roteiro começou junto ao rio, no b.leza, onde os brasileiros Boogarins foram quase anfitriões do festival ao fazerem a festa de abertura.

A banda não é, de todo, desconhecida do público português e terá passado agora a conhecer ainda melhor o País. É que os Boogarins passaram quase uma semana em Lisboa, numa residência artística que antecedeu o MIL e que convidou anónimos e artistas para conhecerem e participarem no processo criativo destes brasileiros de Goiânia.

O resultado da experiência desfilou no palco do b.leza, primeiro com Capitão Fausto, banda quase congénere dos Boogarins. As afinidades são muitas e o diálogo intercontinental surgiu, por isso, como natural. Há uma linguagem comum entre a música dos dois grupos. Será aquilo que se convencionou descrever como paisagens sonoras? A verdade é que os Capitão Fausto dizem ter os dias contados (álbum de 2016) e os Boogarins lançaram, em 2017, “Lá Vem a Morte”. Os portugueses andaram pelo Brasil (São Paulo) recentemente, a preparar o próximo passo. As viagens instrumentais são marcas das duas bandas. E nos dois lados do Atlântico se encontra aquela voz quase discreta, ao fundo do túnel, que é como quem diz ao fundo da música. É isso que importa aqui e foi uma música orgânica e espacial que resultou da colaboração entre Boogarins e Capitão Fausto.

Seguem-se os Paus, eles que acabam de lançar o álbum Madeira, paragem a meio do Atlântico no caminho para o encontro com Boogarins. Se da colaboração com Capitão Fausto se esperava uma harmonia absoluta, foi a fusão com a música dos Paus que mais surpreendeu. Os Boogarins contribuíram com o toque brasileiro, os Paus entraram com o seu ritmo frenético e consistente. As baterias vestiram-se de cor para uma festa que podia ser de qualquer fim de tarde, com um pôr-do-sol como pano de fundo.

Mas eis que chega The Legendary Tigerman, o “famoso tigrão”, como lhe chamou o vocalista dos Boogarins, Fernando “Dinho” Almeida. Quando entra em palco, Dinho conta como Paulo Furtado tem feito uma grande promoção à banda brasileira, em território nacional, através de um passa-palavra entusiasta que se fundamenta na qualidade do som dos Boogarins. E não é afinal este o objetivo do MIL? Quanto à fusão musical entre Boogarins e Tigerman, diga-se apenas que a guitarra de Paulo Furtado se ouve do outro lado do Atlântico, unido dois panoramas musicais vizinhos. The Legendary Tigerman também tem disco novo, Misfit, que anda a mostrar pelo País. Mais um sinal de que a música portuguesa está viva e pronta a atacar outros mercados. De facto, os Boogarins seguem dentro de algumas semanas para o americano Coachella. E se algumas bandas portuguesas já atuaram naquele festival californiano, afirma-se sem qualquer dúvida que Capitão Fausto, Paus e The Legendary Tigerman estão mais do que qualificados para marcar presença no Coachella um dia destes, assim consigam captar os olhares internacionais.

Feito o primeiro dia, o roteiro seguiu na senda do bom rock português. Boogarins voltaram a atuar no segundo dia do MIL, mas a qualidade do som deixou perdida no escuro a voz doce de Dinho e a empatia que tinha sido automática, no dia anterior, desvaneceu-se. Mas a chave de ouro deste segundo dia de festival ficou bem entregue: The Legendary Tigerman também bisou e atuou no Musicbox, agora com um alinhamento sobretudo focado no seu trabalho de 2017.

É verdade que o roteiro da Look Mag se concentrou mais nas bandas nacionais que passaram pelo MIL, mas o que é nacional é mesmo muito bom e só esperamos que os artistas que voaram de outros países para o Cais do Sodré tenham podido ver The Legendary Tigerman a mostrar como se faz. Fica sempre a sensação que o palco do Musicbox é demasiado pequeno para Paulo Furtado, como também foi curto para o rock que os Keep Razors Sharp lá fizeram, no derradeiro dia do MIL. A banda de Afonso “Sean Riley” também deverá apresentar trabalho novo este ano, assim como os Best Youth de Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas, que até estrearam uma música no Musicbox.

De Luís Severo diga-se que fez um dos concertos mais bonitos a que o Cais do Sodré já assistiu. Também ele lançou um álbum novo em 2017, apesar de parecer que já passou muito tempo desde que começámos a ouvir este disco homónimo. Não se percam na impressão. É que Luís Severo não tem parado de tocar nas rádios e foi mesmo considerado por muitos o melhor álbum do ano passado. Ao piano, no Rive Rouge, fez desfilar as canções desde disco e outras mais antigas. Ao piano, de forma simplista mas não simples, pôs o foco do concerto nas suas habilidades como escritor de canções. Ou seria melhor dizer crónicas, já que estas músicas de Luís Severo são retratos da sua vida e dos locais onde ela é vivida? Melhor ainda: dá-se o caso de serem crónicas da vida de quase uma geração, que ali, a acompanhar timidamente as canções, se mostrou identificada e representada pelo artista. A música é isso mesmo.

Destaque ainda para Júlio Resende, que também atuou no Rive Rouge, e fez de um pequeno alinhamento uma homenagem generosa à música nacional. Houve espaço para “Barco Negro” e ouviu-se mesmo a voz de Amália Rodrigues a acompanhar o pianista. “Eu sei, meu amor,/que nem chegaste a partir”…

O MIL trouxe a Lisboa vários artistas internacionais e protagonistas da cena musical estrangeira. Houve conferências e espaços de conversa, momentos de interacção que se espera que venham a dar frutos no futuro, qual Web Summit da música portuguesa a invadir a Rua Cor-de-Rosa. É que a música portuguesa está de volta. Ou então, nunca chegou a partir.

Texto: Filipa Moreno e André Clemente Aguiar

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