“‘Madrugar em Gaza’ surgiu de forma natural. Existia essa urgência”, Dixit

Num tempo em que a atualidade se impõe com uma dureza difícil de ignorar, a música continua a afirmar-se como espaço de reflexão, denúncia e consciência. “Madrugar em Gaza” nasce dessa urgência — um tema que olha de frente para a realidade da guerra e para o impacto devastador que esta tem nas vidas mais vulneráveis: as crianças. Com mais de três décadas de percurso, os Dixit mantêm intacta a sua vocação interventiva, usando o rock em português como veículo de mensagem e posicionamento. Neste novo single, transformam a dor coletiva numa narrativa simbólica, onde a personagem Samir representa todas as infâncias interrompidas.

Por Sandra Pinto

Falámos com a banda sobre o papel da música enquanto forma de intervenção, a responsabilidade de abordar temas sensíveis e a necessidade de continuar a dar voz ao que não pode ser silenciado.

“Madrugar em Gaza” é um tema particularmente forte e atual. O que vos levou a abordar esta realidade neste momento?
A urgência de denunciar a falta de humanidade que permite que milhares de crianças tenham perdido a vida em Gaza e que tantas outras vivam mutiladas, traumatizadas pela guerra e pelo medo constante. Viver sem poder ser criança é algo que nos responsabiliza a todos enquanto seres humanos.

Como surgiu a ideia da personagem Samir e que papel desempenha na narrativa da canção?
O Samir poderia ter qualquer outro nome: poderia ser filho, irmão, neto ou amigo de qualquer um de nós. Poderia também ser Samira. Representa todas as crianças que vivem as agruras e tragédias da guerra criada pelos adultos.

A música centra-se na perda da infância em contexto de guerra. Foi difícil transformar um tema tão pesado em linguagem musical?
O tema surgiu de forma natural. Existia essa urgência. A música trouxe uma linha que pedia palavras capazes de refletir a nossa visão perante tamanha atrocidade. Não é aceitável ficar em silêncio. É preciso gritar que todas as crianças merecem um amanhecer com esperança, sorrisos, livros e brincadeiras.

Sentem que há um risco ou uma responsabilidade acrescida ao tratar temas tão sensíveis?
Todos nós, enquanto cidadãos deste planeta, temos responsabilidade perante as crianças. Os Estados deveriam protegê-las, e todas as pessoas com um mínimo de humanidade deveriam tomar posição perante estas atrocidades.

A frase “todo o genocídio começa quando se interrompe o futuro das novas gerações” é muito impactante. Até que ponto a canção pretende ser um alerta político?
Mais do que um alerta, é um grito de dor e impotência. É mais uma voz que se junta a muitas outras para denunciar a urgência de travar o que é inaceitável.

Consideram que a música ainda tem poder real de intervenção social nos dias de hoje?
Para nós, não faz sentido fazer música sem intervenção. Foi sempre assim nos Dixit desde o início. Falar de sentimentos também é expor aquilo que nos incomoda num mundo cada vez mais desumano.

O lançamento do videoclipe no Dia Mundial da Criança reforça a mensagem. Qual foi a intenção por trás dessa escolha simbólica?
É um dia que deve servir não só de celebração, mas também de alerta: ainda há muito por fazer na defesa dos direitos de todas as crianças no mundo.

O que podemos esperar do lado visual deste tema?
Criámos, com Inteligência Artificial um videoclipe, estreado a 1 de junho, que acompanha a jornada do nosso personagem em busca de felicidade. Optámos pela animação porque o vídeo foi pensado para todas as crianças do mundo. Queremos que seja compreendido em qualquer parte do planeta e que transmita esperança, sonho e a possibilidade de um amanhecer feliz.

Ao longo de mais de 30 anos de carreira, a intervenção tem sido central no vosso trabalho. De onde nasce essa necessidade de dizer algo através da música?
Desde o início, a música dos Dixit sempre teve uma forte componente lírica, onde a mensagem é essencial. O próprio nome do projeto — Dixit — reflete essa vontade de dizer algo. Essa é a base que nunca abandonámos.

Sentem que o vosso discurso evoluiu ao longo das décadas ou mantém-se fiel à mesma urgência inicial?
Sentimos que ainda temos muito por dizer. Observamos o mundo e olhamos para dentro. Falamos do que nos toca: sentimentos, experiências, sensações e tudo o que nos marca enquanto seres humanos com memória e vivência.

Num panorama musical cada vez mais diversificado, como é que os Dixit mantêm a identidade e a coerência artística?
Mantendo a noção clara do que queremos fazer: rock. Continuamos a dar espaço à criatividade sem seguir modas ou tendências. Enquanto houver vontade, continuamos o caminho de criar e tocar.

Fazer rock em português continua a ser uma escolha natural ou também uma posição?
Foi uma escolha feita há 33 anos e continua a fazer sentido. Fazemos canções com guitarras, baixo, bateria, melodias e vozes humanas. No tempo em que vivemos, isso é quase um gesto de resistência.

Têm abordado temas como saúde mental, racismo ou violência. Como escolhem os assuntos que levam para as canções?
Os temas surgem naturalmente para acompanhar a intensidade da música. O vocalista, enquanto ativista de causas sociais, traz palavras que refletem aquilo que consideramos relevante e urgente.

Já sentiram resistência ou incompreensão por parte do público perante temas mais incómodos?
Sinceramente, pouco nos importamos com isso. Se existe resistência, significa que estamos a dizer o que sentimos ser necessário dizer. Nos tempos que correm, é essencial estar do lado certo das causas.

Este novo single insere-se num ciclo criativo mais alargado. Podemos esperar mais música com esta linha temática?
Este single segue uma linha que já se tornou mais evidente no álbum Uma Maravilhosa Supernova, lançado há dois anos, onde abordamos um planeta cada vez mais desvirtuado. Embora não faça parte desse trabalho, integra essa mesma reflexão sobre o mundo em que vivemos.

Que mensagem gostariam que o público levasse consigo depois de ouvir “Madrugar em Gaza”?
Que não se deixem acomodar nem render à inércia. Todos podemos contribuir para a mudança. Pode parecer utópico, mas é isso que nos torna humanos: a capacidade de sonhar o impossível.

Depois de tantos anos de percurso independente, o que vos continua a motivar a criar e a subir ao palco?
A felicidade de continuar a criar canções e a apresentá-las ao vivo. Vivemos tempos difíceis para quem faz rock, com cada vez menos espaços para mostrar trabalho original, mas isso não diminui a vontade de continuar.

Como veem o papel dos Dixit hoje no contexto da música portuguesa?
O nosso papel é o de tantos outros criadores: não deixar o rock desaparecer. Fazemos parte de uma comunidade, como a Confraria do Rock tuga, que procura cuidar e valorizar esta forma de expressão. É um desafio constante, por vezes ingrato, mas vivido com propósito: tentar tornar o mundo um pouco melhor através da música.

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