LX Extreme Summer Invasion: O dia em que o metal mais pesado dominou a capital
O Music Station, em Lisboa, acolheu a estreia do LX Extreme Summer Invasion, um festival que marcou a entrada em força do metal mais pesado na capital. Durante o evento, o público teve a oportunidade de assistir a atuações intensas e enérgicas de bandas nacionais e internacionais, numa noite repleta de adrenalina e música de alta voltagem.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Esta primeira edição destacou-se pela qualidade sonora e pela atmosfera eletrizante que envolveu os fãs, consolidando o festival como uma promessa para o panorama cultural lisboeta.
O LX Extreme Summer Invasion apresentou um alinhamento potente que teve inicio com os portuguese Speedemon. Seguiram-se os Invictus. Oriundos de Nagano, no Japão, o power trio que iniciou atividade em 2015, é composto por Takehitopsy Seki (voz e guitarra), Toshihiro Seki (baixo) e Haruki Tokutake (bateria). Com um nome que significa “invencível” ou “invicto” em latim a banda toca um death metal técnico, fortemente influenciada pelo thrash metal dos anos 80. O som combina riffs rápidos, solos shred, blast beats agressivos e uma atmosfera old-school com produção contemporânea, o que os insere na nova onda do Old School Death Metal (OSDM) vindo do Japão. Tudo isto tivemos ocasião de testemunhar no concerto que deram no evento.
Os Deathbringer foram os senhores que se seguiram. Na encruzilhada entre o death metal técnico, o industrial e a música electrónica atmosférica, a banda tem-se afirmado como uma das propostas mais ousadas e progressivas da cena extrema da Europa de Leste. Oriunda de Grodno, na Bielorrússia, com laços fortes à cena metal da Polónia, os Deathbringer constroem um universo sonoro tão denso como a própria temática que explora: o colapso do cosmos e o fim da existência. Formados no início dos anos 2000, começaram por explorar o death metal mais tradicional, mas rapidamente expandiram os seus horizontes para sonoridades mais técnicas e conceptuais. O guitarrista Artyom Serdyuk, fundador da banda, é o cérebro por detrás desta evolução musical e filosófica. A sua presença em palco revelou-se cheia de força. A Lisboa trouxeram uma atuação intensa, técnica e quase ritualista, uma viagem carregada de peso e ambiência. Através dos riffs esmagadores e das paisagens sonoras etéreas, conseguiram o seu objetivo principal: confrontar o público com o abismo.
Entre os momentos mais marcantes da noite, os dinamarqueses Konvent surpreenderam com uma atuação que provou ser muito mais do que apenas peso e distorção. Com uma abordagem profundamente atmosférica e mergulhada nas sombras do doom metal, a banda conseguiu criar um espaço emocional único, distinto e, acima de tudo, necessário no meio de um cartaz dominado por bandas de andamento mais rápido e estética mais agressiva. Oriundos de Copenhaga, os Konvent têm vindo a afirmar-se no cenário europeu como uma das propostas mais sólidas e coerentes dentro do universo do death doom. A sua música é marcada por riffs lentos e esmagadores, linhas de baixo densas e uma bateria que conduz cada tema com precisão e peso cerimonial. Por cima dessa estrutura, destaca-se a voz gutural poderosa de Rikke Emilie List, que impressiona tanto pela sua intensidade como pela entrega emocional. Ao vivo, os Konvent não procuram a velocidade nem a fúria imediata. Em vez disso, oferecem uma viagem introspetiva, onde cada nota parece ter o peso de uma pedra e cada silêncio é carregado de tensão. Foi precisamente essa abordagem contida, quase ritual, que trouxe uma lufada de ar fresco ao alinhamento do festival , provando que o doom não precisa de ser estático nem monótono, mas sim emocionalmente devastador quando bem executado.
Vindos de Baltimore, nos Estados Unidos, os Misery Index provaram porque são uma das formações mais respeitadas e ferozes do metal extremo contemporâneo. Com uma fusão explosiva de death metal, grindcore e hardcore punk, a banda deu um concerto visceral, intenso e carregado de urgência, uma verdadeira descarga de energia e crítica social que não deixou ninguém indiferente. Reconhecidos pela sua intensidade ao vivo, os Misery Index mostraram porque são tanto um ataque sonoro como uma catarse coletiva. A sincronização entre os membros, a energia ininterrupta e a brutalidade controlada tornam cada atuação num momento de libertação, numa experiência quase física. O público respondeu com entusiasmo, entre mosh pits frenéticos e headbanging ininterrupto, alimentando a simbiose entre banda e audiência.
O regresso dos lendários Massacre aos palcos europeus foi mais do que uma simples viagem nostálgica, foi uma demonstração viva de que o death metal, nascido da podridão criativa da Flórida nos anos 80, continua a respirar com força e a inspirar legiões de fãs em todo o mundo. A banda norte-americana apresentou um concerto enérgico e brutal, repleto de clássicos do seu repertório e com uma entrega que evocou as origens mais puras e agressivas do género. No palco, os Massacre não precisaram de pirotecnia nem cenários elaborados. Bastaram guitarras afiadas, ritmos esmagadores e uma presença carismática para conquistarem o público com facilidade. O vocalista Kam Lee, figura histórica e ex-membro dos primeiros Death, continua a dominar o microfone com uma intensidade quase sobrenatural. A atuação foi uma verdadeira aula de death metal na sua forma mais primitiva e autêntica, onde o som cru, as estruturas simples e os ritmos pesados fazem todo o sentido, especialmente perante um público que reconhece o valor histórico e a longevidade de uma banda com mais de quatro décadas de estrada.
A encerrar com chave de ouro a primeira edição do festival, os incontornáveis Malevolent Creation subiram ao palco com a autoridade de quem tem quase quatro décadas de história às costas e a energia de quem ainda tem muito para destruir. Com uma atuação carregada de técnica, brutalidade e precisão cirúrgica, os norte-americanos reafirmaram o seu estatuto como uma das bandas mais respeitadas (e temidas) do universo death metal. A performance no festival foi marcada por uma intensidade constante, riffs cortantes como lâminas e uma secção rítmica que funcionou como um rolo compressor. A formação atual, liderada pelo guitarrista Phil Fasciana, membro fundador e pilar criativo do grupo, mostrou uma coesão impressionante, capaz de alternar entre momentos de velocidade vertiginosa e passagens mais arrastadas e sufocantes, sem nunca perder impacto.
Este alinhamento diverso e de alto nível fez do LX Extreme Summer Invasion um evento memorável, que celebrou a riqueza e a diversidade do metal extremo.
Malevolent Creation
Massacre
Misery Index
Konvent
Deathbringer
Invictus