“Levo muitas aprendizagens deste disco, mas, acima de tudo, a ser fiel ao que sinto”, Nayr Faquirá
Ao revisitar o seu álbum de estreia, Nayr Faquirá apresenta agora “Entrelinhas (Versão Deluxe)”, um projeto que fecha um ciclo importante na sua trajetória artística e abre portas para novas possibilidades. Mais do que uma simples reedição, este álbum é um convite a mergulhar nas emoções, nas memórias e na honestidade de uma artista que se revela sem reservas. Entre pop, soul e R&B, Nayr constrói um universo musical que é, ao mesmo tempo, íntimo e universal, abordando temas como amor, rutura, perdão e autodescoberta.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, a cantora fala sobre o processo criativo, as colaborações internacionais, a importância da dimensão visual e o impacto de revisitar suas próprias emoções através da música, revelando o quanto Entrelinhas é também um espelho da sua evolução pessoal e artística.
“Entrelinhas (Versão Deluxe)” surge como o encerramento de um ciclo importante no teu percurso. O que representa para ti este momento de fecho e revisão do álbum de estreia?
Este momento de fecho do meu primeiro “filho” ou dito álbum traz muita mistura de sentimentos. É uma sensação de dever cumprido e ao mesmo tempo de tanto que ainda quero fazer daqui para a frente. Sinto que deixei a semente bem plantado ao deixar como primeiro trabalho meu algo que me representa tão bem em todos os sentidos – musicais, pessoais e visuais. Fui muito fiel ao processo e a quem sou e isso tranquiliza-me.
O que te levou a querer voltar a “Entrelinhas” e acrescentar novas camadas ao disco original?
Quis voltar ao Entrelinhas porque senti que ainda não estava completamente tranquila com a forma como o processo tinha terminado. Sentia que ainda havia coisas por dizer e por navegar e daí sentir que três músicas eram o mínimo pra poder seguir em frente.
“Sentir” nasce de uma residência artística em São Paulo, no songwriting camp “Por Elas que Fazem a Música”. Como é que esse contexto influenciou a criação da canção?
O contexto do songwriting camp no qual estive no ano passado influenciou muito a minha criatividade, conforto e forma de ver o processo criativo. Percebi que, acima de tudo, muitas de nós mulheres pelo mundo partilhamos a mesma visão e experiências em relação a imensas coisas e isso fez-me sentir muito menos sozinha mesmo a 10 horas de voo de casa. Foi incrível poder conhecer outras histórias e culturas e fundir mundos em música e letra. Foi sinceramente algo que eu quero fazer muito mais daqui para a frente e, se possível, muito mais colaborações com mulheres
De que forma o encontro com a Dandara Manoela moldou a energia e a narrativa de “Sentir”?
O encontro com a Dandara moldou a “Sentir” exatamente porque eu sinto que estamos muito sozinhas no processo criativo e não nos podemos esquecer que é preciso estarmos de peito aberto pra sentir tudo, sem medos, e poder vivenciar momentos como o que vivenciámos naquela residência.
As vozes de ambas entrelaçam-se numa abordagem muito emocional e direta. Como foi encontrar esse equilíbrio entre duas identidades artísticas?
Foi sinceramente mais fácil do que pensava encontrar o equilíbrio entre as nossas identidades. Neste caso sinto que temos muito em comum e falamos a mesma língua, pelo que facilitou todo o processo. Eu cresci a ouvir muita música lusófona, inclusive MPB, então a sonoridade do tema penso que facilitou esta aproximação das nossas vozes.
“Sentir” fala da importância de viver as emoções sem reservas. Essa ideia surgiu de forma consciente ou foi algo que se impôs naturalmente no processo criativo?
A ideia da sentir surgiu sim de forma consciente! Quis escrever sobre tudo o quanto é bom e importante sentir muito pouco tempo depois de voltar do Brasil. São Paulo rejuvenesceu-me e fez-me tão bem que quase não quis voltar. Despertou em mim tanta coisa que foi natural escrever este tema.
Sentes que esta canção aprofunda o universo emocional que já tinhas explorado em temas como “Púrpura”?
Sinto que a Sentir aprofunda sim o universo emocional da “Púrpura” mas de uma forma mais leve. Sinto que é o tema certo pra acabar o álbum numa linha suave mas forte.
O álbum aborda temas como amor, rutura, relações abusivas e perdão. Foi um processo terapêutico escrever sobre estas experiências?
Foi sem dúvida terapêutico escrever estas músicas no sentido em que purguei muita coisa que me estava presa na garganta e no corpo. O meu corpo inclusive parece que perdeu uns quantos quilos com as coisas que fui aprendendo ao longo do processo de escrever este álbum. Música pra mim funciona muito desta forma e tenho a sorte de para além de me apaixonar, fazer bem.
Dizes que “Entrelinhas” representa mais do que um disco, mas uma fase de afirmação artística. Que aprendizagens levas deste primeiro álbum?
Levo muitas aprendizagens deste disco mas, acima de tudo, a ser fiel ao que sinto. Tive algum receio de principiante por exemplo com o tema brinde, por ser algo tão taboo. Curiosamente , ao seguir o meu instinto, foi dos temas com que as pessoas mais se identificaram. Não volto a duvidar do meu instinto ou pelo menos espero ouvi-lo mais vezes.
A versão deluxe acrescenta novas perspetivas ao projeto original. Sentes que estas novas faixas mudam a leitura global do disco?
Sinto que acrescentam mas não mudam a leitura global. Em termos sonoros continua muito na mesma vibração apesar de acabar num tema mais leve e upbeat. Em termos de composição está tudo muito à volta desta permissão que nos devíamos dar mais de sentir e expor o que sentimos então acho que nessa linha, não houve grande mudança mas sim um reforço.
A tua escrita tem uma forte componente confessional. Como consegues transformar experiências pessoais em canções que também são universais?
Esforço-me cada vez mais para perceber qual a linha que junta e não separa as minhas condições das experiências dos outros mas acabo cada vez mais por perceber que o segredo está no ser honesto. Como em tudo na vida, quando contamos uma verdade, há sempre alguém que se vai rever nela e alguém que não a vai entender. O importante é sabermos que nos é verdadeiro porque quando alguém se mostrar impactado, sabemos que foi por algo que realmente nos toca e não por uma falácia que criámos em busca de preencher um vazio com a validação de alguém que nem somos.
Do ponto de vista sonoro, manténs uma fusão entre pop, soul e R&B. O que procuras hoje quando defines a tua identidade musical?
Hoje em dia quando procuro a minha identidade musical, procuro não me fechar em caixinhas, sinceramente. Eu cresci a ouvir mesmo tudo, por isso não faz sentido ser uma só coisa. O Afrobeat tanto como o soul, rnb e até o fado de certa forma, são tudo partes de quem eu sou. Tento, de alguma forma, misturar sempre influências. Não quero ser exatamente igual a ninguém e ao mesmo tempo quero honrar quem abriu portas para eu poder hoje me expressar livremente.
Trabalhas novamente com o produtor Alec Chassain. O que este colaborador traz ao teu som e à consistência do projeto?
O Alec conhece-me há uma década. Trabalhamos juntos há mais ou menos 8 anos, o que facilita imenso o processo criativo. Ele nem sequer fala português, mas traduzo tudo o que sinto e quero transmitir quando trabalhamos num projeto e sendo ele super sensível, torna-se mágico ver o que eu lhe disse ou tentei explicar, em música. Ele é mesmo incrível a traduzir sentimentos e torna-se mais fácil trabalhar com ele a cada ano que passa, mesmo longe, e cada vez mais difícil confiar que qualquer outra pessoa faria o que ele faz.
Em “Sentir”, a interpretação vocal aproxima-se da confissão. Foi um desafio expor-te desta forma tão direta?
Não. Como disse, estou cada vez mais confortável com ser vulnerável e a minha voz sempre foi o sítio no qual me sinto mais confortável. Em termos de letra e produção, se calhar ainda tenho muito que percorrer, mas na minha voz, sinto-me muito segura de mim.
O artwork de RGBORED também acompanha esta fase. Qual a importância da dimensão visual na construção deste universo?
A dimensão visual na construção deste álbum foi algo que deu outra vida ao álbum. É muito importante, hoje em dia mais do que nunca, haver uma imagem associada diretamente a um tema. A Madalena ou RGBORED, é minha amiga desde sempre. Mais uma vez, sinto que quem priva mesmo comigo, consegue traduzir quem sou de uma forma muito mais real e isto ajudou imenso na criação deste universo. Ela sabe quem eu sou no íntimo e como gosto de me mostrar ao mundo, para além de ter uma mão e criatividade incríveis. Estou muito feliz com o resultado.
“Entrelinhas” fala muito de consciência emocional e de ultrapassar estados de sobrevivência. Em que ponto pessoal te encontras hoje depois deste processo?
Hoje em dia encontro-me num ponto de viragem. Não completamente curada, apesar de achar que nunca paramos de nos curar e o processo está sempre em andamento, mas também muito mais confiante de quem sou e quem quero ser. Estou tranquila com quem sou – com as minhas fraquezas e tudo. Sinto-me pronta pra dizer e fazer muito mais.
Ao revisitar este disco, sentes que já és uma artista diferente daquela que o iniciou?
Sinto que já sou diferente mas com a mesma essência. A cada ano que passa aprendo algo novo e visto que já passaram 2 anos desde o começo da sua criação, muito já aconteceu entretanto e também muito mudou consequentemente na minha visão de quem sou e do mundo. Acho que acima de tudo, muito se consolidou.
Adorava que sentissem. Sinceramente, adorava mesmo que os fizesse sentir tudo o que quiserem sentir – raiva, amor, tristeza, saudade, felicidade. O que for, mas que os fizesse sentir algo. O sentir é mesmo o ponto de partida pra estarmos atentos ao que nos rodeia e sairmos desta vida com a sensação de que estivemos cá a sério, e não apenas de passagem.