Krisiun encerram o primeiro dia do LX Extreme “Death Fest” com uma atuação esmagadora em Lisboa

O RCA Club, em Lisboa, recebeu a edição de 2026 do LX Extreme Death Fest numa noite marcada por intensidade e expectativa. No primeiro dia do festival, os Krisiun assumiram o protagonismo com uma atuação esmagadora.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Numa noite de calor, o RCA Club, em Lisboa, recebeu a edição 2026 do LX Extreme Death Fest. Para o primeiro dia do eventos os cabeças de cartaz eram os brasileiros Krisiun, que transformaram a sala de espetáculos lisboeta num espaço de pura energia.  Antes mesmo de os primeiros riffs soarem já a sala transbordava de expetativa. Assim que surgiram, os Krisiun assumiram o palco com a força habitual, dominando a sala do início ao fim.
Vindos de Ijuí, no Brasil, e ativos desde 1990, os Krisiun continuam a afirmar-se como uma das formações mais sólidas e brutais do death metal mundial. A ligação entre os três irmãos — Alex Camargo, Moyses Kolesne e Max Kolesne — mantém-se inalterada desde o início, e isso reflete-se numa entrega em palco quase absoluta, sem falhas nem hesitações. O concerto foi marcado por uma intensidade constante, mas também por uma forte ligação com o público. Mesmo debaixo do calor pesado que se fazia sentir dentro da sala, a plateia respondeu com uma entrega total: mosh pits contínuos, headbanging sem pausa e uma energia que parecia acompanhar cada mudança de ritmo da banda. O ambiente tornou-se numa troca direta entre palco e audiência, sem barreiras. Os Krisiun, por sua vez, não se limitaram a tocar — interagiram com os fãs entre temas, agradecendo o apoio e sentindo claramente a reação do público lisboeta. Essa proximidade, mesmo num contexto de brutalidade sonora extrema, reforçou a intensidade do espetáculo e criou momentos de cumplicidade no meio do caos controlado do death metal. Musicalmente, o concerto manteve a identidade habitual da banda: velocidade extrema, precisão técnica e agressividade constante, com influências de nomes como Slayer, Morbid Angel e Kreator, sempre filtradas por uma linguagem própria e já inconfundível. O alinhamento percorreu diferentes fases da carreira, equilibrando a brutalidade das origens com a maturidade dos trabalhos mais recentes, como Scourge of the Enthroned e Mortem Solis, sem nunca perder a essência crua que marcou discos como Black Force Domain e Conquerors of Armageddon. No final, ficou a sensação de um concerto vivido no limite — não só pela música, mas pela entrega total do público e pela interação constante entre banda e fãs. Em Lisboa, os Krisiun não deram apenas um concerto: criaram um momento de intensidade coletiva difícil de repetir.

Os Undersave nasceram em Lisboa, em 2004, e desde então foram-se afirmando de forma discreta, mas muito consistente, como uma das bandas mais sólidas do death metal underground em Portugal. Nunca foram uma banda de grandes palcos mediáticos, mas sim de circuitos mais pequenos, onde o contacto com o público é direto e a música fala sempre mais alto do que qualquer outra coisa. Ao longo do tempo, o seu som foi-se tornando cada vez mais característico: um death metal pesado, técnico e bastante dissonante, que mistura brutalidade com uma atmosfera mais densa e quase sufocante. Essa identidade não surgiu por acaso — foi sendo construída com paciência, mudanças de formação e muito trabalho contínuo. Ainda assim, o núcleo manteve-se firme em Nuno Brás, que assume os vocais e guitarra, acompanhado atualmente por Renato Laia, Pedro Pereira e André Carvalho, formando uma estrutura estável e bem entrosada. As letras seguem essa mesma linha mais sombria e introspetiva. Falam muito de estados mentais, colapso psicológico, alienação e fragilidade humana — temas que encaixam perfeitamente na música e reforçam aquela sensação de desconforto e intensidade que a banda transmite. Na discografia, há três momentos importantes para perceber a evolução do grupo: o primeiro álbum Now… Submit Your Flesh to the Master’s Imagination (2012), que deu a conhecer de forma mais clara a identidade da banda; depois Sadistic Iterations… Tales of Mental Rearrangement (2018), onde tudo ficou mais técnico e dissonante; e mais recentemente Merged in Abstract Perdition (2025), que mostra uma banda mais madura, com um som mais trabalhado e atmosférico, mas sem perder a agressividade. No LX Extreme Death Fest, em Lisboa, no RCA Club, essa identidade ganhou forma em palco de forma muito natural. Os Undersave não precisaram de grandes discursos ou efeitos — entraram, tocaram e deixaram a música fazer o resto. O concerto foi intenso do início ao fim. Riffs pesados, estruturas complexas e uma execução muito segura criaram aquele ambiente característico da banda: denso, fechado e quase esmagador. Ao mesmo tempo, havia uma certa fluidez na forma como tudo se encaixava, mostrando uma banda confortável no que faz. O público respondeu bem, com energia constante e atenção ao longo de todo o set. Não foi um daqueles concertos de espetáculo exagerado, mas sim daqueles que vão crescendo à medida que se sente o peso da música na sala. No fim, ficou exatamente isso: uma atuação honesta, direta e com identidade. Os Undersave não precisam de muito mais do que isso para deixar marca.

Os Tvmvlo, vindos de Viseu e ativos desde 2020, são daqueles nomes que vão crescendo de forma silenciosa no underground, mas com uma presença cada vez mais difícil de ignorar. No death metal português, surgem como uma proposta muito direta, sem adornos e sem preocupação em soar “bonito” — aqui a ideia é outra: peso, agressividade e uma entrega totalmente crua. A base do som deles vem claramente do old school death metal. É tudo muito focado no essencial: riffs densos e repetitivos, bateria constante e uma voz que entra como mais um instrumento de pressão. Não há grande espaço para floreios ou mudanças inesperadas — e isso é mesmo parte da identidade deles. A música dos Tvmvlo vive dessa sensação de intensidade contínua, quase como se fosse um bloco único a avançar sem parar. As letras seguem essa mesma linha mais sombria e pesada, sempre a puxar para temas como morte, religião, violência e destruição. Não é uma estética forçada — encaixa naturalmente no tipo de som que fazem, reforçando aquela sensação de algo duro e fechado sobre si mesmo. Apesar de serem uma banda relativamente recente, os membros já trazem experiência de outros projetos da cena extrema portuguesa. António Baptista (vocais), Gonçalo Coelho (guitarra), Nuno Mendonça (baixo) e Fábio Loureiro (bateria) formam um grupo que sabe bem o que está a fazer em palco. Nota-se essa segurança, essa capacidade de manter tudo coeso mesmo quando a música é mais caótica e agressiva. Trabalhos como The Well of the Lost Children e Portals of Terror ajudaram a dar forma ao projeto e a colocá-los no radar do underground nacional. São lançamentos que não procuram reinventar nada — procuram antes afirmar uma identidade clara dentro do death metal mais tradicional e pesado. No LX Extreme Death Fest, no RCA Club em Lisboa, isso ficou ainda mais evidente. O concerto dos Tvmvlo foi tudo o que se podia esperar deles: intenso, direto e sem qualquer tipo de enfeite. Entraram em palco e simplesmente começaram a esmagar som. Riffs pesados, bateria firme e vocais agressivos criaram uma parede sonora constante, sem grandes pausas ou momentos para respirar. Foi um daqueles concertos que te prende mais pela pressão do som do que por qualquer interação ou espetáculo visual. O público entrou nessa mesma energia — mais contido nalguns momentos, mais explosivo noutros — mas sempre dentro dessa atmosfera densa que a banda cria naturalmente. No fim, fica a sensação de uma atuação honesta, sem truques. Os Tvmvlo não precisam de artifícios para ocupar a sala — basta-lhes o peso do som para transformar o espaço inteiro num único bloco de pressão contínua, difícil de esquecer depois de acabar.

Os Skinning, vindos de Guimarães e ativos desde 2011, são daqueles nomes que nunca precisaram de grandes voltas para dizer o que fazem: death metal rápido, direto e sem qualquer tipo de suavização. No underground português, foram construindo o seu espaço de forma consistente, sempre fiéis a uma abordagem old school que vai buscar inspiração a bandas como Vader, Deicide ou Morbid Angel. A música deles é mesmo isso — pressão constante. Riffs acelerados, bateria sempre em alta rotação e uma energia que não abranda. Não há grandes momentos de pausa nem preocupações em “embelezar” o som. É tudo feito para avançar em linha reta, com peso e agressividade do início ao fim. Essa identidade está bem espelhada nos seus lançamentos, como Cerebral Mutilation e Homicidal Experimentation, discos que reforçam exatamente essa ideia de um death metal cru, sem filtros, focado na força e na execução. No LX Extreme Death Fest, no RCA Club em Lisboa, isso ficou ainda mais claro. Ao vivo, os Skinning fizeram o que sempre fazem: chegaram, começaram a tocar e deixaram o som tomar conta do espaço. O concerto foi intenso desde o primeiro momento, com um ritmo sempre alto e uma sensação constante de pressão. Sem grandes pausas ou floreados, a banda foi construindo uma parede sonora que encheu a sala. Em palco, a postura foi simples e direta, sem distrações — tudo centrado na música. E isso acabou por funcionar muito bem, porque o público entrou nessa mesma energia, acompanhando a velocidade e a agressividade do concerto do início ao fim. No final, fica aquela sensação de algo honesto e sem artifícios. Os Skinning não tentam ser mais do que aquilo que são e talvez seja precisamente por isso que funcionam tão bem ao vivo: fazem do death metal uma experiência crua, rápida e sem travões, que não precisa de mais nada para se fazer sentir.

KRISIUN

UNDERSAVE

TVMVLO

SKINNING

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