José Luís Peixoto e a arte de contar histórias

Uma mão cheia de convidados, entre eles o escritor José Luís Peixoto, encheram durante três dias a sala principal do cinema São Jorge, em Lisboa. O evento patrocinado pela Grant’s, famosa marca de whisky, teve o título de True Tales fazendo justiça à arte de contar histórias.

Um dos convidados deste ano do Grant’s True Tales, que teve como lema «As pessoas mudam. As memórias ficam para sempre» foi o escritor português José Luís Peixoto para quem os livros que escreve são uma maneira de manter as suas memórias vivas. «Nestes já 13 anos que distam desde a data em que publiquei o meu primeiro livro tem sido muito curioso olhar para trás e perceber como é que tem sido feita a construção das minhas memórias com a publicação dos livros que tenho vindo a escrever», refere. «Efetivamente, em cada um dos livros vejo de uma forma concreta diferentes momentos da minha vida. Momentos que de alguma forma ainda me dizem respeito, ainda sou a pessoa que era neles, mas em alguns aspetos evolui e cresci» acrescenta o escritor.

Cada um dos livros de José Luís Peixoto é de alguma forma muito autobiográfico, afirmação com a qual o escritor concorda, acrescentando que «é curioso porque apesar dessa repercussão, que é muito importante para mim, os livros surgem muitas vezes como a oportunidade de dizer a pessoas que me são próximas algumas coisas que pessoalmente tenho mais dificuldade em falar, mas também para mim próprio são uma constatação muito interessante das minhas próprias memórias. Ajudam a uma certa organização de quem sou. E isso tem sido algo que se tem vindo a desenvolver com a passagem do tempo e com a construção dessa obra que é tão ligada à minha própria vida».

Ao Grant’s True Tales José Luís Peixoto contou uma história ocorrida há muitos anos, antes ainda de editar o seu primeiro livro, no âmbito de uma alucinante viagem que fez à Costa do Marfim. «Essa viagem em particular que fiz com esse meu amigo à Costa do Marfim deu origem a muitas histórias sendo que já escrevi sobre algumas», afirma, «mas o desenvolvimento tão perfeito da própria história que acabou noutra parte do mundo, noutro momento da minha vida, fez-me pensar que era uma história com um sentido secreto meio misterioso, mas muito forte». Referindo-se à época em que tudo aconteceu, o escritor fala «noutra vida» em que os livros ainda não faziam parte dela da maneira e com a importância que viriam a ganhar mais tarde.

Questionado sobre o que é preciso para fazer um bom contador de histórias, José Luís Peixoto confessa que «tenho uma certa dificuldade em saber a resposta exata, pois, creio, que essa é uma tarefa em que todos nós vamos de alguma forma crescendo, na medida em que os contadores de histórias são todas as pessoas».

Para o escritor a «memória é ela própria uma história que nós contamos a nós próprios». «Acho que as histórias, apesar de muitas vezes lhes darmos apenas um significado lúdico, têm uma profundidade e uma importância muito maior, porque muitas vezes são a nossa forma de compreender o mundo e de encontrar um sentido. Perceber como contar histórias é perceber como viver melhor e como lidar melhor com nós próprios e com as coisas que nos acontecem», refere o escritor à Look Mag.

Já para saber o que transforma um acontecimento numa boa história, José Luís Peixoto afirma que para termos uma resposta «seria necessário ir buscar noções quase académicas daquilo que é um enredo, como uma sequência de acontecimentos que dão origem uns aos outros». «No fundo, a própria vida é uma sequência de acontecimentos, nada vem do nada, tudo está encadeado, tudo o que fazemos vai dar algum resultado», acrescenta.

O escritor que, em 2001, recebeu o Prémio Literário José Saramago com o romance «Nenhum Olhar», afirma ter «muito mais à vontade com a palavra escrita do que com a palavra falada», mas confessa «que estar assim à frente de centenas de pessoas vicia um pouco e dá vontade de voltar ao palco para contar e falar mais».
Com mais de uma dezena de livros publicados, José Luís Peixoto sente-se mais à vontade com a escrita, pois «o tempo é diferente, é um tempo que para mim é muito mais confortável porque me permite muito mais seguir ao meu próprio ritmo sem ter quase esta obrigação de gerir os silêncios».

Tendo sido esta a primeira vez que participou num evento do género, o escritor revela que não só gostou como ficou com vontade de repetir a experiência, desejando que a mesma «possa acontecer outra vez».
Com parte das receitas do evento a reverter para a Casa do Artista, ação da Grant´s com a qual José Luís Peixoto não podia estar mais de acordo, o escritor refere que «fico sempre contente quando tenho oportunidade de participar em alguma coisa que possa ter esse tipo de repercussão porque, de alguma forma, também me faz sentir que estou a devolver um pouco daquilo que recebo».

O último livro publicado por José Luís Peixoto, «Dentro do Segredo- Uma viagem na Coreia do Norte», resultou de uma viagem do escritor àquele país. Sobre o que se passa na Coreia do Norte, o escritor vê a situação com muita preocupação pois «por um lado sei que é um país que vive muito da retórica, mas também sei que é um país governado por pessoas que não tem pudor em pôr em causa o bem-estar e a própria vida do seu povo, muitas vezes em nome de atitudes politicas e sem humanidade», conclui.

Sobre o Festival Grant’s True Tales falámos com António Carvalhão, Brand Manager da marca, que nos revelou que este projeto, já com quatro anos de existência, nasceu «de uma plataforma desenvolvida internacionalmente pela marca Grant’s onde a ideia era contar a história da marca e da família que a desenvolve desde há cinco gerações».

O que começou por ser uma plataforma exclusiva da marca rapidamente cresceu e passou a ser «casa» de muitas outras histórias contadas por personalidades relevantes nas mais diferentes áreas. «Procuramos pessoas que estejam alinhadas com os valores da marca, pessoas que sejam terra a terra e genuínas. Pessoas autênticas e que revelem algum espírito independente», esclarece António Carvalhão quando questionado sobre a forma como escolhem os participantes.

Quem participa, se no início fica de alguma forma apreensivo, rapidamente se deixa conquistar, «é muito curioso porque a maior parte das pessoas quando confrontadas com o convite estranham que alguém vá vê-las a contar histórias e episódios da sua vida, ficando muitas vezes um pouco receosas e pouco recetivas, mas depois de verem como foram os eventos anteriores vão ganhado confiança e sempre, invariavelmente, quando participam gostam e acham muito interessante, chegando a afirmar ter pena de não terem participado mais cedo», partilha connosco o Brand Manager da Grant’s.

O sucesso do evento tem sido um crescendo ao longo do tempo, tendo, curiosamente, Portugal sido o primeiro país a implementar o Grant’s True Tales fora do Reino Unido, onde o conceito foi originalmente desenvolvido pela marca. «Em 2010 aconteceu o primeiro evento na Livraria Ler Devagar, que contou com a presença de cerca de 170 pessoas. No ano seguinte mudámo-nos para o Museu da Água onde estiveram presentes cerca de 200 pessoas. Devido ao enorme sucesso percebemos que o evento podia crescer e nessa altura decidimos fazer um festival, primeiro no Teatro Tivoli e este ano chegámos ao cinema São Jorge com um formato mais diversificado, com histórias e música» refere António Carvalhão.

Este que é um projeto para continuar, «ainda não sabemos em que moldes ou em que termos, mas podemos contar como certo o Grant´s True Tales 2014» desvenda o responsável pela marca, apresenta também uma preocupação de índole social, pois parte das receitas reverte a favor da Casa do Artista. «Nos últimos anos a Grant´s tem vindo a incrementar uma forte componente na área da responsabilidade social. Como marca líder de mercado temos o peso de estar na dianteira de muitos aspetos, como seja na área do consumo responsável e na responsabilidade social. O ano passado foi a primeira vez que parte das receitas de bilheteira reverteu para a Casa do Artista e este ano prosseguimos exatamente o mesmo caminho», garante António Carvalhão.

http://www.grantswhisky.com/lda/pt

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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