João Mesquita na BOTA. Uma viagem por um mundo repleto de música e honestidade
O compositor e multi-instrumentista lisboeta veio à BOTA (Base Organizada da Toca Das Artes) nos Anjos, na passada sexta-feira, para apresentar o seu álbum de estreia “Olheiras”, lançado em janeiro de 2026. “Olheiras” é um álbum gravado ao longo de vários anos, contando com a participação de mais de 20 instrumentistas, co-produzido por João Borsch e, que agora em 2026, vê finalmente a luz do dia, após anos de “muito cansaço acumulado”.
Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião
O disco chama-se “Olheiras”, pois segundo o próprio “as olheiras o representam, física e emocionalmente, são o somatório do trabalho e de todo o esforço” que foi feito para a criação deste disco, funcionando como uma espécie de diário dos últimos anos de criação do artista.
Trouxe consigo um mundo sonoro muito repleto, que vai desde a MPB, a música orquestral, o pop e o rock. Uma fusão de estilos em cada tema, mas que conta sempre com a identidade de João Mesquita, sendo a sua voz o fio condutor que liga todas estas estéticas e, que de alguma maneira, fazem sempre sentido. É a honestidade e verdade que está presente no seu trabalho, com uma lírica muito pessoal, que conecta de uma forma tão forte com o público.
João Mesquita, já conhecido como guitarrista de projetos como Ceuta e João Borsch, apresenta-se em palco com João Borsch (bateria), Eduardo Santiago (baixo elétrico), Samuel Pacheco (sintetizadores) e Simão Bárcia (guitarras), contando também no concerto na BOTA com Rodrigo Pereira (trompete), Guilherme Fradinho (saxofone tenor) e Álvaro Pinto (saxofone alto).
Já na sala de concertos da BOTA, com a banda em palco, o João no centro, sem guitarra, apenas microfone e público à sua frente, está tudo prestes a começar. O concerto abre com “Cruz”, uma introdução orquestral – cordas, sopros e percussão, acompanhados pela banda. “Cruz” é um tema de abertura, fazendo lembrar os últimos álbuns dos Arctic Monkeys e The Last Shadow Puppets, na sua vertente mais completa em termos de instrumentação. É um tema com muito romantismo, altamente introspectivo e de reflexão acerca do passado, especialmente na primeira parte do tema. A segunda parte, apresenta uma reviravolta, de continuar a andar, ignorar os medos e as inseguranças – “seguir em frente”. Este tema é uma grande introdução ao mundo de “Olheiras” – um mundo de contrastes, lutas internas e de humanidade.
Segue diretamente para “Filho da Mãe”, penúltimo tema do disco que começa com um baixo simples ao estilo de electro/dream-pop, tocado pelo Eduardo Santiago (MIND MOJO, João Borsch). Este é um single mais “dreamy”, algo diferente no seu catálogo, emprestando muitos elementos do indie-pop, com um lead de sintetizador no refrão que fica na cabeça até ao final do concerto. Um tema que mostra um outro lado, de mais força, segue a ideia da parte final de “Cruz”, aparecendo luz, no meio da escuridão.
É seguido de “Nada de Nada”, outro tema com uma estética pop, à semelhança do anterior. Um baixo forte, sintetizadores e uma estrutura convencional, “Nada de Nada” fala sobre o sentimento de querer continuar a avançar, apesar dos erros cometidos e das dificuldades, sabendo que a eventualidade do fim é inevitável. Estes temas são, à semelhança de todos os outros em “Olheiras”, grandes exemplos da escrita vocal melódica do músico e compositor, que apresenta sempre uma linguagem e escrita coesa, com grandes harmonias, melodias e temas muito bem construídos.
“Num Dia” é o tema que se segue neste concerto. O primeiro a ser gravado, em 2023, é um tema muito especial, que originalmente era para ser editado apenas como um single. João Mesquita dedica-o a amigos e familiares que já cá não estão. A sua versão em álbum conta com arranjo orquestral, no entanto, para o formato live conta com um arranjo mais simples, baseado na voz e no sintetizador, tocado pelo açoriano e artista em nome próprio, Samuel Pacheco (SAMUEL, MIND MOJO). O tema acaba com o público a cantar “Nunca mais” – uma bonita ode para todos aqueles que já partiram.
Após esta homenagem, João Mesquita leva o público para um intimismo ainda maior com “Se eu não soubesse”, uma balada muito elegante, num estilo simples com voz e guitarra, que na versão de álbum conta com a participação da cantora, Sara Afonso. É um retrato melancólico de uma separação e tudo o que ela acarreta – entender a profundidade e o investimento emocional, lamentar a perda e aceitar o seu fim, “chorando” para ter um closure, o encerrar de um processo.
Este álbum é um trabalho intrinsecamente introspectivo, servindo de veículo para compreender as diferentes emoções sentidas pelo músico, que resulta de muito trabalho de reflexão e de experimentação, sendo possível observar este nível de profundidade e entrega, em todo o disco.
“Não Conto a Ninguém”, tema do seu EP de 2022, “Primeira Volta de Saturno”, novamente com a banda completa a tocar, continua a linha de intimismo apresentada antes, neste caso, serve para expor e refletir sobre a dor de guardar e suprimir o sofrimento e a luta para consigo próprio, apercebendo-se que apesar de toda a beleza e calor, estas dores irão continuar consigo, num “luto de portas fechadas”.
“Desaparece”, de “Olheiras”, volta à energia e ao rock, sempre com um “piscar de olho” cinematográfico, manda “desaparecer a dor” e “calar a boca”, a todas as vozes internas. Um tema de rock alternativo com grandes riffs, ao estilo de Arctic Monkeys, tocados pelo guitarrista Simão Bárcia (Cíntia, Maia Balduz), uma bateria e baixo pesados num ambiente negro e de revolta. É um tema que reflete uma imensa força e luta do autor.
Entram os sopros em palco e inicia-se “Borsch”. Com este tema volta-se ao passado, ao seu registo anterior, “Primeira Volta de Saturno”. Uma viagem a um mundo pop e funk, onde a percussão e o ritmo são “quem manda” pelas mãos do músico João Borsch, que produziu este tema, tal como todo o registo. É um tema de electro-pop e nu-disco, repleto de sensações e leveza, num estilo ala L’Imperatrice, que serve também de homenagem à amizade e colaboração entre João Mesquita e João Borsch. Marca também um momento de transição para o autor, de liberdade criativa e de exploração de texturas e estilos musicais antes da sua mudança para temas mais introspectivos e emocionais, como os que se encontram em “Olheiras”.
Após “Borsch”, volta-se ao novo álbum “Olheiras”, com um dos temas mais fortes deste registo, “Patada no Queixo”. Conta com um arranjo muito variado que começa com uma introdução de piano ao estilo de Mingus, seguindo para um rap, ala Da Weasel, por cima de uma linha muito forte de contrabaixo e batida de hip-hop na bateria, chegando até a um rock clássico e épico nos refrões, onde se faz referência ao som de bandas como Ornatos Violeta. Este tema é, sem dúvida, uma “patada” com imensa energia, que se sentiu em toda a sala da BOTA.
O tema que se segue é “Quando o Pano Cai” , o segundo single do registo a ser lançado, em maio de 2024. É um tema que fala do fim da “atuação”, quando a performance termina, a realidade se impõe e as ilusões acabam. Fala acerca do que resta quando as luzes da ribalta se apagam e o “eu” está entregue aos seus sentimentos e à realidade crua, tal como de uma sensação de confiança acerca de para onde seguir, mesmo sendo uma confiança fingida.
Independente do tema e estilo, a obra de João Mesquita apresenta sempre uma visão muito única e coesa, variados instrumentais que se colam através da sua voz e da lírica, encantando o público, seja numa balada sentimental ou num rock “sempre a abrir”.
“Sorte de quem”, single que continua o concerto, é outro dos temas mais antigos do catálogo de João Mesquita, presente no EP de 2022 e que conta com as suas influências de tropicália e da música popular brasileira. Repleto de energia e dança, o público não conseguiu parar de se mexer, exaltado ainda mais pela presença dos saxofones e trompete no arranjo ao vivo. A saída dos sopros é feita com solos por parte de cada instrumentista, que após terminado o seu solo, abandona o palco, deixando-o para a banda apresentar o seu último tema.
Antes do fim desta bela apresentação, Mesquita faz um agradecimento muito grande a todos os presentes – músicos, técnicos, amigos e familiares que fizeram parte da criação deste disco, tal como a todo o público que veio apoiar e promover esta sua nova fase artística.
Para o fim, ficou “Culpa”, uma música muito honesta e delicada, mas, ao mesmo tempo, muito dura e com uma grande carga emocional – “Esta culpa que carrego nunca quis saber de ti”. É o último tema do disco e é daqueles que mexe mesmo com o ouvinte, onde o autor admite a culpa por toda a dor que causou e o ouvinte carrega essa “Culpa” com ele, numa grande e sincera viagem. É, provavelmente, o tema mais impactante deste disco, que encerra um ciclo que durou mais de três anos a criar e a expor.
Com os aplausos finais, é certo dizer que a BOTA viveu, na passada sexta-feira, uma noite muito bonita, repleta de amigos, em sala cheia e o culpado foi João Mesquita, um músico e compositor de escrita irrepreensível, dos mais interessantes e ecléticos em Portugal. É um daqueles artistas que tem mesmo muitas cartas para dar e que, com certeza, irá continuar a mostrar, num futuro próximo, o seu mundo sonoro e poético para uma crescente audiência.