João Hasselberg: Um casamento perfeito

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Perante um CCB rendido, João Hasselberg dá provas de que já conquistou o seu lugar no jazz. Falta que o grande público o conheça. E, nas composições do contrabaixista, há músicas para todos os gostos.

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A discografia de João Hasselberg não é tão longa quanto os títulos dos seus álbuns. Whatever It Is You’re Seeking, Won’t Come In The Form You’re Expecting (2013) e Truth Has To Be Given In Riddles (2014) mostraram-nos mais que um contrabaixista, um compositor. Álbuns aclamados, discos que merecem chegar a mais ouvidos. João Hasselberg tem agora o reconhecimento ao vivo. E o Pequeno Auditório do CCB está cheio de público e de expectativas.

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Quando sobe ao palco, Hasselberg faz-se acompanhar dos músicos que o ajudaram a dar vida às suas composições em disco. Diogo Duque no trompete e João Firmino na guitarra – hão-de ocupar a frente do palco durante a noite, saindo e regressando sempre que o alinhamento o exigir. Luís Figueiredo é o mestre ao piano e um dos pilares do concerto. Bruno Pedroso, na bateria, é outro pilar. João Hasselberg ocupa-se do contrabaixo e do baixo eléctrico, claro. Joana Espadinha entra em palco e inaugura a noite entoando “Opening”. É a faixa de abertura de Truth Has To Be Given In Riddles e a maneira ideal de entrar no alinhamento.

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Seguir-se-á “Perry Smith’s Dreams”, do mesmo álbum. Faixa demorada, que traz o universo literário de Truman Capote para o palco. “The Old Man and the Sea”, logo de seguida, traz-nos Hemingway. São assim as composições de Hasselberg – músicas estruturadas, em que cada instrumento tem direito a uma linha independente, e que bebem inspiração naquilo que rodeia o músico, dos livros às notícias.

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Foi precisamente nas páginas dos jornais que Hasselberg encontrou material para “Kenji in Burma”, sobre o fotojornalista japonês morto no Burma, em 2007. Kenji Nagai continuou a fotografar mesmo ferido, com balas no peito, deitado no chão. A composição replica a verdade: Bruno Pedroso é deixado sozinho em palco enquanto repete pancadas secas na sua bateria; no ecrã, vemos o desenho de um guerreiro caído. (Durante todo o espectáculo, os desenhos projectados no ecrã, de Camila Reis, vão guiar-nos pela imagética de Hasselberg, dando pistas sobre a inspiração e tema das faixas que ouvimos.)

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“Kenji in Burma” é um dos temas novos que o compositor apresenta esta noite ao CCB. Também nova é “Ela”, a peça feita propositadamente para o filme que Tiago Correia fará estrear em breve e que terá ainda outros temas de Hasselberg.

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Segue-se então “Two Brothers in a Treasure Hunt”, um dos temas mais capazes de chegar ao grande público. Aqui, a voz de Joana Espadinha guia-nos pela história que o título faz adivinhar e perdemo-nos dos instrumentos em palco, esquecemos o jazz e as técnicas, viajamos pelos versos. Afinal, nem todas as músicas de João Hasselberg são letradas e esta letra apanha-nos a atenção, desprevenida. Na mesma onda, surge “The Ballad of the Sad Cafe”, que Luísa Sobral escreveu, talvez inspirando-se nos contos de Carson McCullers.

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E, por falar em amigos, é o momento de chamar ao palco um dos mais presentes. Ricardo Toscano traz um toque de festa ao espectáculo. Hasselberg escreveu belas linhas para o seu saxofone, como se vê em “En Madrid”. A orquestra está completa e toca a uma só voz. Os sons fundem-se e embalam-nos até aos momentos finais do concerto, que não poderia fechar com “To a God Unknown”. O público conhece a festa e é isso que pede quando, de pé, exige o encore.

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Com “In Cold Blood” (Capote, novamente), Toscano volta a juntar-se ao grupo, que Hasselberg lidera sem protagonismos. O nome de capa é o seu, a mestria também – e não restam dúvidas de que é grande, depois desta noite. Mas o grupo de músicos que aqui reúne desempenha o papel crucial de dar corpo e alma às suas composições. O casamento é perfeito.

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Texto: Filipa Moreno
Fotos: Márcia Lessa

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