Integrity no RCA Club: 30 anos depois, o diabo continua a falar alto
Os Integrity nunca fizeram música para ficar em segundo plano. Desde Cleveland, em 1988, a banda de Dwid Hellion foi empurrando o hardcore para zonas cada vez mais pesadas, cruzando-o com o metal e deixando uma marca própria no underground. Quase quatro décadas depois, continuam a tocar com a mesma urgência. Em 2026, regressaram a Portugal com Humanity Is the Devil a celebrar 30 anos e uma discografia que continua a alimentar os seus concertos.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Os No Path estão a ganhar espaço no circuito nacional com uma mistura de hardcore e metal que privilegia o impacto e a intensidade. A banda lisboeta começou a lançar música no final de 2025 e, desde então, tem vindo a transformar os palcos numa parte essencial do percurso. O primeiro lançamento chegou em novembro de 2025, com “Deadline”. Seguiram-se “Dead Inside” e “Crawl”, reunidos no EP Real Life. É uma estreia curta, mas suficientemente pesada para deixar claras as coordenadas musicais do projecto. A formação também passou por alterações. André Cardoso assumiu a voz, enquanto Henrique Feher está no baixo. A ligação entre Lisboa e São Paulo associada a Feher é uma das particularidades do percurso da banda. Para uma banda ainda recente, era um palco com peso histórico e uma oportunidade para se apresentar perante um público habituado a uma das referências maiores do hardcore. A resposta foi direta. Guitarras pesadas, ritmo apertado e uma postura frontal, sem espaço para grandes rodeios. O hardcore mantém-se no centro, mas o metal acrescenta densidade e peso aos temas. No palco, essa combinação ganha uma dimensão mais física do que aquela que os primeiros lançamentos deixam adivinhar. É aí que os No Path parecem encontrar o seu terreno natural. A música pede volume, proximidade e movimento. Não se trata apenas de reproduzir os temas do EP, mas de lhes dar outra vida perante uma sala cheia. Entre Real Life, a mudança de vocalista e uma agenda de concertos cada vez mais preenchida, os No Path estão ainda numa fase inicial, mas já deixaram de ser apenas um nome novo no cartaz. O caminho está a ser feito concerto após concerto, sem atalhos e sem grande preocupação em esconder o peso que carregam. O próximo passo será perceber até onde conseguem levar tudo isto.
Os Utopium nasceram em Lisboa, em 2007, e rapidamente encontraram o seu espaço no underground com uma mistura de grindcore, crust e sludge. A música era rápida, pesada e pouco dada a concessões. A estreia discográfica aconteceu em 2010, com Conceptive Prescience. No ano seguinte, a banda participou num split 7″ com os Lifedeceiver, antes de editar, em 2013, Vicious Consolation / Virtuous Totality. O disco juntava 18 temas e trabalhava um conceito ligado aos sete vícios e às sete virtudes. Depois de vários anos afastados dos palcos, os Utopium regressaram à actividade em 2025, com presença no Xapada Fest, no RCA Club, em Lisboa. O regresso não ficou por aí. Em abril desse ano, a banda passou também pelo SWR Barroselas Metalfest, recuperando o contacto com um circuito onde já tinha deixado marca. Em 2026, os Utopium continuaram a aparecer em cartazes nacionais e chegaram ao RCA Club ao lado dos No Path e dos Integrity. A banda voltou a ocupar o palco com a mesma base sonora: grindcore directo, peso de crust e uma camada de sludge que torna tudo mais denso.É uma música que não precisa de grandes explicações. Os temas avançam depressa, acumulam ruído e deixam pouco espaço entre uma descarga e a seguinte. O regresso dos Utopium não é uma tentativa de recuperar exatamente a banda que existia há quinze anos. Existe esse passado, claro, mas também existe uma formação que voltou a tocar e a levar esses temas para salas onde continuam a fazer sentido. Depois de anos longe dos palcos, os Utopium estão novamente em circulação. E o ruído continua lá.
Os Integrity nasceram em Cleveland, Ohio, em 1988, pelas mãos de Dwid Hellion. Ao longo de quase quatro décadas, a banda passou por várias formações e fases musicais, sem perder o hardcore como ponto de partida. Those Who Fear Tomorrow, de 1991, marcou uma primeira fase da discografia. Em 1996, Humanity Is the Devil levou a banda para um terreno mais pesado, aproximando o hardcore do metal e tornando-se um dos discos mais importantes do seu percurso. Seguiram-se trabalhos como Systems Overload, Seasons in the Size of Days, To Die For e The Blackest Curse. Mais recentemente, os Integrity continuaram a editar material, entre recuperações de arquivo e novas gravações, incluindo All Death Is Mine: Total Domination! e BACKBITE SINGLES V1. Em 2026, os Integrity regressaram a Portugal. No RCA Club, em Lisboa, apresentaram um alinhamento que atravessou diferentes momentos da carreira, com particular atenção a Humanity Is the Devil, que completou 30 anos. A noite começou com “Vocal Test”, seguida de “Hollow” e “Psychological Warfare”. “Sarin” recuperou Seasons in the Size of Days. Depois chegaram “Taste My Sin”, “Incarnate 365” e “Abraxas Annihilation”, três temas de Humanity Is the Devil. “Systems Overload” trouxe outro momento marcante da discografia. Seguiram-se “Rise” e a introdução de “Diseased Prey Within Casing”, antes de “Judgement Day”, “Harder They Fall” e “Those Who Fear Tomorrow”. Já perto do fim, os Integrity tocaram “Jagged Visions of True Destiny”. Para fechar, escolheram “Hybrid Moments”, dos Misfits, versão que integra o repertório da banda.
Com Dwid Hellion na voz e Harley McCoy na guitarra, o alinhamento não ficou preso a Humanity Is the Devil. O disco teve um peso evidente, mas houve espaço para recuperar temas de diferentes períodos, desde os primeiros anos até fases posteriores. Trinta anos depois de Humanity Is the Devil, os Integrity continuam a levar esse material para a estrada, ao lado de temas de uma discografia que já atravessa várias décadas. O hardcore continua no centro.
No Path
Utopium
Integrity