Insomnium no Milagre Metaleiro: quando a escuridão também sabe ser bonita
Nem todo o metal precisa de ser uma explosão. Às vezes, a verdadeira força está naquilo que fica depois do impacto, uma melodia, uma memória, uma sensação difícil de explicar. É nesse território que os Insomnium construíram a sua identidade.
E talvez seja precisamente por isso que a presença dos finlandeses no Milagre Metaleiro Open Air 2026 desperte uma expectativa diferente. No dia 23 de agosto, a banda vai trazer ao festival uma música que tanto pode esmagar como parar o tempo durante alguns segundos.
Os Insomnium estão ainda a viver outro momento importante: têm um novo álbum a caminho. Netherworlds chega a 16 de outubro e promete abrir uma nova página numa história que começou há quase 30 anos. É um daqueles casos em que o calendário parece jogar a favor do concerto português.
Os Insomnium nasceram em 1997, em Joensuu, na região finlandesa da Carélia. Desde então, fizeram do melodic death metal o ponto de partida para algo muito mais pessoal. Há peso, claro. Há guitarras agressivas, vozes guturais e bateria com força suficiente para fazer o chão tremer. Mas há também silêncio. Há saudade. Há paisagens.
E há uma melancolia muito própria, quase como se algumas músicas tivessem sido escritas para serem ouvidas numa viagem longa, quando a noite já caiu e temos tempo demais para pensar. É essa mistura que atravessa álbuns como Above the Weeping World, One for Sorrow, Shadows of the Dying Sun, Winter’s Gate, Heart Like a Grave e Anno 1696.
Os Insomnium nunca precisaram de escolher entre ser pesados ou emocionais.Fizeram questão de ser as duas coisas.
Em Anno 1696, a banda mergulhou num dos períodos mais negros da história finlandesa. A narrativa, criada pelo baixista e vocalista Niilo Sevänen, passa por fome, medo, superstição, perseguições religiosas e julgamentos de bruxas. É um daqueles discos que não se limitam a tocar. Contam uma história. E à medida que as músicas avançam, é fácil imaginar as paisagens geladas, as aldeias, o medo e as pessoas a tentar sobreviver num mundo que parece cada vez mais pequeno.
Entre os momentos mais fortes está “Godforsaken”, que conta com a participação da cantora finlandesa Johanna Kurkela. É uma música que mostra exatamente porque é que os Insomnium conseguem ir além das fronteiras habituais do death metal.
Com Netherworlds, a banda parece estar a mudar ligeiramente o foco. Depois de histórias tão ligadas ao passado, o novo álbum aproxima-se de temas que todos conhecemos, mesmo que nem sempre gostemos de falar deles. Mortalidade. Memória. Tempo.
Aqueles pensamentos que aparecem quando percebemos que as coisas mudam, as pessoas partem e determinadas fases da nossa vida nunca mais regressam. É um território perfeito para os Insomnium. Porque a música da banda sempre teve essa capacidade de transformar sentimentos difíceis de explicar em algo que conseguimos ouvir.
O primeiro avanço, “Gleam in the Black”, já abriu essa porta, enquanto “Shadowlife” veio reforçar a dimensão mais atmosférica deste novo capítulo.
Há também uma mudança importante dentro da banda. Netherworlds será o primeiro álbum dos Insomnium com Tomy Laisto como membro oficial. O guitarrista junta-se a Niilo Sevänen na voz e baixo, Ville Friman e Markus Vanhala nas guitarras e Markus Hirvonen na bateria. E isso importa. Porque as guitarras são uma das grandes responsáveis pela identidade dos Insomnium. São elas que conseguem passar de um riff pesado para uma melodia quase cinematográfica sem que a transição pareça forçada. É ali que a banda encontra boa parte da sua magia.
Há uma ideia preconcebida de que um concerto de death metal tem obrigatoriamente de ser uma sucessão de mosh pits, cabeças a abanar e paredes de som. Com os Insomnium, a história é outra. Claro que haverá peso. Muito. Mas também haverá momentos em que a multidão simplesmente vai ficar a ouvir. Uma guitarra pode começar sozinha. A voz entra. A bateria cresce. E, quando damos por isso, estamos completamente dentro da música.
É esse contraste que torna os Insomnium tão especiais ao vivo. Podem fazer-nos querer saltar e, segundos depois, deixar-nos simplesmente parados a absorver aquilo que está a acontecer.
O Milagre Metaleiro Open Air 2026 terá muitas formas diferentes de entender o metal. Os Insomnium levam uma das mais emocionais. No dia 23 de agosto, Pindelo dos Milagres vai receber uma banda que passou quase três décadas a transformar histórias, perdas, memórias e paisagens em música pesada. E talvez seja essa a melhor forma de preparar este concerto: não esperar apenas peso.
Esperar uma viagem. Esperar guitarras que tanto podem cortar como acariciar. Esperar uma voz que vem das profundezas. Esperar momentos para cantar, outros para fechar os olhos e outros em que simplesmente vamos ficar ali, a olhar para o palco.
Porque no universo dos Insomnium, a escuridão nunca é completamente negra. Há sempre uma pequena luz algures no meio.