IDLES no Lisboa ao Vivo e a luta continua

A história dos IDLES escreve-se em poucas linhas. Formados na cidade inglesa de Bristol em 2011, a banda punk rock lançou o seu primeiro registo discográfico, “Brutalism”, em 2017, com um excelente feedback por parte da critica, fazendo chegar aos escaparates no ano seguinte “Joy as a Act of Resistance”, o álbum que lhes trouxe um maior reconhecimento do público.

Se de uma forma muito resumida a história dos IDLES é “só” isto, a essência daquilo que são e o que representam leva um pouco mais de tempo, todo ele resumido em quase duas horas de concerto.

Foi um Lisboa ao Vivo cheio que recebeu os IDLES. Cheio de amigos, mas também cheio da mais pura comunhão musical, numa adrenalina latente que nos fez recuar no tempo umas quantas décadas, trazendo à nossa memória a nossa própria adolescência quando sem medos dávamos o corpo às balas no meio do moche de um concerto punk. Sim, porque é disso que se trata quando falamos do IDLES, puro punk rock, pura energia positiva que nos dá uma vontade brutal de mudar o mundo.

No meio da agitação Joe Talbot o incrível frontman que consegue transmitir de cima do palco uma força bruta com os vocais sujos e rudes, harmonizando-a com a gentileza das palavras que vai dirigindo ao público durante todo o concerto, «obrigada por serem um público tão respeitoso».

“Colossus” abre as hostilidades com o público a acompanhar com moches e crowdsurf cantando a canção cujas palavras sabem na ponta da língua. Do palco os IDLES mostram-se felizes, pois logo à primeira música conseguiram instalar o caos. Estava dado o mote para o resto da noite, a qual se concretizou numa imparável energia punk que inundou a alma de todos.

Mais do que música, as canções dos IDLES são também letras, afirmações contra e a favor daquilo que defendem num mundo caótico e num país em fase de grande mudança. Veja-se “Mother” durante a qual todos gritaram “the best way to scare a Tory is to read and get rich”! Querem melhor para mostrar aquilo que aqui se fala?

Poucas bandas soam como os IDLES e poucas bandas conseguem transpor para o palco a magia que dão a conhecer nos discos. A verdade é que ao vivo ainda soam melhor, porque ao vivo conseguem transmitir a pureza da sua energia, uma energia imparável que os move incessantemente numa torrente de passos por vezes incontroláveis.

Pelo meio Talbot, farol desta torrente energética e que no meio das músicas confraterniza com o público brincando ou explicando o significado de cada canção. Para quem afirma que o rock está morto, os IDLES são a melhor prova de que está vivo e que ainda tem cartas para dar, pois mais do que ritmo, as suas canções são verdadeiros statements, como bem prova a t-shirt do baterista e algumas das músicas que se seguiram, como “Danny Nedelko”, um quase agradecimento aos imigrantes que tornam a Inglaterra num país muito mais bonito, “Divide & Conquer” sobre o programa de alojamento para pessoas empobrecidas, “1049 Gotho” onde o tema é a depressão, “Samaritans” contra a masculinidade tóxica defendendo a igualdade e inclusão, “Benzocaine” relembra a dependência das drogas e “Rottweiler” fecha o concerto, nada melhor para o fazer do que este hino anti-fascista.
Impossível não fazer referência àquele que foi para nós um dos momentos mais bonitos e intensos da noite quando os IDLES interpretaram o fabuloso tema de Solomon Burke, “Cry To Me”, e onde de forma impecável a voz de Talbot casou na perfeição. Grande homenagem ao músico norte-americano que ficou conhecido como o rei do Rock’N Soul e bispo do Soul.

Por vezes questionamo-nos se ainda vale a pena lutar por aquilo em que acreditamos, se ainda vale a pena gritar contra o que está errado, pois temos a nítida sensação que ninguém no ouve e que a nossa palavra para nada conta.

Com os IDLES percebemos que sim, ainda vale a pena, enquanto houver alguém que precise do nosso grito e da nossa luta vale a pena não baixar os braços.

E se achávamos que a banda sonora da luta estava esgotada, com os IDLES ela ganha nova força e renovada garra.
Venha a batalha porque ao som dos IDLES a luta continua!

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

You May Also Like

The Catenary Wires editam Til The Morning dia 14 de Junho pela Tapete Records

Stereo Total editam Ah! Quel Cinéma dia 12 de Julho pela Tapete Records

São um dos locais mais apreciados pelos melómanos. Se for este o seu caso, não deixe de conferir aqui 25 lojas de discos que tem mesmo de visitar.

Todos temos uma banda preferida. Ou somos mais apreciadores de um músico. Mas qual seria a nossa banda de sonho? Paul McCartney revela a dele.

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt