Hinds + Lesma na Casa Capitão. A força da mulher e da liberdade

As madrilenas Hinds vieram a Lisboa, à Casa Capitão, no passado sábado para finalizar a tour de “Viva Hinds”, disco lançado em 2024 e trouxeram consigo aquilo a que o público português sempre se habituou desde a primeira vinda do grupo de rock de garagem, já há mais de dez anos, a Portugal – energia, liberdade e diversão.

Texto: David Pissarro
Fotos: Pedro Sebastião

O duo espanhol convidou as portuguesas, Lesma, para fazerem a primeira parte de uma noite muito esperada apesar da sua curta marcação, apenas há sensivelmente três semanas. Foi um grande sucesso, uma noite de casa cheia que contou com muita energia, partilha e muito, muito rock.

A primeira parte deste concerto SUPER na Casa Capitão foi da autoria do trio sintra-margem sulense Lesma, uma das bandas mais recentes e que mais rápido cresceu no underground português, que conta com Leonor Casimiro (voz, guitarra), Rita Mira (baixo) e Beatriz Sobralinho (voz, bateria). As Lesma trazem para o cenário português, que neste momento está marcado pelo som polido e mega produzido, um contraste que faz falta – energia crua e pouca produção, enquadrando-se numa estética musical de grupos como Vaiapraia ou Pega Monstro.
Entra a bateria e dá-se inicio ao concerto com “Homem”, penúltimo tema do álbum de estreia “É Mentira”, lançado em 2025, marcando o tom do que aí vinha, puro punk e rock feminista, seguido de “Maria”, tema com uma grande pitada de sátira e de referência a Xutos, mas com um pequeno twist que faz rir qualquer um. Este tom cómico está presente em todos os temas do registo editado pela Saliva Diva, editora independente baseada no Porto.
Logo de seguida e sem grandes paragens, o grupo apresenta “Everyday (oh yeah)”, um tema extra do primeiro registo do trio, um rock cru e puro, presente ao longo de todo o álbum, fazendo até lembrar o som dos primeiros álbuns de grunge que saíram de Seattle. É seguido de “Breakdown”, um baixo pesado acompanhado pela bateria cria um ambiente mais negro, alternando constantemente entre uma sonoridade lenta e rápida, com andamento e batidas de punk tradicional, desta vez sem voz, um tema puramente instrumental.
“Sexgma” e “Dominante Cona”, sendo o primeiro ainda um tema que não está editado, vieram logo a seguir, num concerto em que o público já estava fã por completo das Lesma e que muito pouco tempo esteve parado. À semelhança de “Breakdown”, o tema seguinte, “Dominante Cona”, que contém elementos de post-hardcore, é o primeiro tema de “É Mentira” e também não tem voz, no entanto, o título consegue-nos dar exatamente o tema do mesmo, presente ao longo de todo o disco.
A vocalista e guitarrista, Leonor Casimiro, com um mote simples e direto, caracteriza em poucas palavras o que as Lesma são: “Quem gostou, fixe. Quem não gostou, foda-se”. É precisamente esta atitude que atrai o público mais jovem aos seus concertos, a honestidade pura e o querer fazer as coisas à sua maneira. É um reflexo dos jovens em Portugal e, sem dúvida alguma, uma atitude muito necessária no cenário nacional.
A seguir, veio o “Heroína”, outro tema mais indie/psicodélico com uma vertente muito forte de spoken-word, talvez um dos temas que mais inclui esta vertente. Fala do vício do telemóvel com outro elemento muito característico no seu estilo e que é algo que ressoa muito com os seus contemporâneos da Gen Z – um humor sarcástico e direto. Em “Heroína”, o telemóvel e o vício nele inerente pelo funcionamento das redes sociais, é um gerador de ansiedade, com o contraste na alternativa de largar o telemóvel para um vício mais produtivo, como “fumar um cigarro e olhar para o céu”. A crítica social das “três filósofas do século XXI” foca-se em vários aspetos como a desigualdade de género, a situação social e económica atual, com uma atitude muito simples – eu sou quem sou e sou o que quiser ser.
Outra característica muito importante para as Lesma é a secção rítmica composta por Rita Mira e Beatriz Sobralinho que cria uma base muito forte para os devaneios poético-vocais da vocalista, Leonor Casimiro.
Antes do esperado último tema, as Lesma tocam os calmos primeiros acordes do penúltimo tema, “Eu sou uma (colher)”, onde muitos elementos de psicodelia estão presentes e o baixo elétrico é, sem dúvida, rei. O Rés do Chão da Casa Capitão canta a plenos pulmões e acapella “Eu sou uma colher, não tenho garfo”, refrão simples que apesar de ter um grande sentido de humor, é marcado pelo empoderamento da mulher.
O seu concerto acaba com o já clássico dentro do underground “Barreiro”, com uma sonoridade ala The Stooges, um tema muito forte e que contém os principais aspetos deste power trio na sua forma mais pura – a crítica social e o sentido de humor, que contagiam todos e põem uma sala de cheia de putos a gritar “Barreiro”. Isto só as Lesma conseguem fazer. A energia estava lá, o público aquecido e com toda a certeza foi um ótimo começo para a noite que esperava ansiosamente pelas espanholas, Hinds.

O duo espanhol Hinds composto por Carlotta Cosials (voz, guitarra) e Ana García Perrote (voz, guitarra) e que conta ao vivo com a colaboração da baixista Paula Ruiz e da baterista Maria Lazaro, voltou a Portugal para finalizar a tour do seu trabalho mais recente, “Viva Hinds”, editado em 2024 pela Lucky Number, editora independente baseada em Londres. Este disco é uma mostra de vida, uma conversa entre o passado e o presente, com sonoridades novas e antigas. Foi produzido por Pete Robertson (The Vaccines) e conta com participações de Beck e Grian Chatten, dos Fontaines D.C.
O grupo, formado em 2011, foi composto por Carlotta Cosials e Ana García Perrote e com o nome Deers, mas após anos de ausência, em 2014, voltam com outra identidade, gravam versões de músicas dos seus grupos favoritos e um novo nome – Hinds (veados femininos, em inglês).
O muito esperado retorno das Hinds a Lisboa, começa com a projeção de um vídeo com um apanhado do processo de gravação e produção de “Viva Hinds”. Mal elas entram em palco, o ritmo é marcado e o público entra imediatamente no seu ambiente. Começam com “Boom Boom Back” – tema que conta com a participação de Beck na versão de álbum, num pop-rock que contagia o público, dando início a uma dança constante que só terminou com o final do concerto.
Carlotta Cosials, guitarrista e vocalista, entre várias interações com o público, diz uma frase que caracteriza a energia do grupo: “Sou uma mulher com pouca vergonha”, algo que o público já sabe e adora – podem ser eles próprios, sem vergonha, daí tanta entrega por parte do público lisboeta, que nunca parou de dançar e saltar.
De seguida, tocam “Riding Solo” do seu terceiro álbum “The Prettiest Curse”, lançado em 2020, que põe na cabeça “I’ve been riding solo” até ao final do concerto. É seguido de “Stranger”, tema introspectivo que se enquadra na estética mais indie-rock do grupo e que conta na versão de álbum com a participação de Grian Chatten (Fontaines D.C). Fala de um sentimento de alienação e de querer viver fora da sua própria mente: “I’m a stranger to myself”, uma ideia com a qual todos se identificaram.
Volta-se ao passado com “Garden”, single lançado em 2015, posteriormente editado no álbum de estreia do grupo, “Leave Me Alone”, em 2016. Mantendo-se em temas antigos, o baixo, tocado por Paula Ruiz, começa e inicia-se “The Club”, um grande tema de rock alternativo clássico, ala Strokes, que faz parte do álbum “I Don’t Run”, de 2018, seguido de “Waiting For You”, do disco de 2020. Não se consegue mentir quando se diz que a sua energia é contagiante, pois durante toda a sua apresentação, o público tornou-se uma extensão do grupo que estava em palco, uma simbiose entre artista e público.
Retornando a “Viva Hinds” apenas para manter a apresentação do seu registo mais recente, o grupo toca “Coffee”, um dos seus hits mais atuais, seguido de dois temas do seu disco de 2020, “Just Like Kids (Miau)” e “Good Bad Times”, sendo o último o maior tema de  “The Prettiest Curse”, tal como provado pelo público a cantar em conjunto todo o refrão.
De seguida, as Hinds apresentam “Girl, so confusing”, lançado como single no ano passado, uma versão da música de Charli xcx do seu álbum “Brat”, bastante diferente da original, mas mantendo a sua mensagem e apresentando-a na forma pop-rock já conhecida do grupo espanhol, uma interpretação mais simples, mas muito bonita.
Na última parte desta noite bem mexida na Casa Capitão, o grupo apresenta mais dois temas de “Viva Hinds” – “The Bed, the Room, the Rain and You”, um tema mais indie-pop, numa mistura de inglês e de espanhol e “Superstar”, outro dos temas mais aclamados pelo público, seguidas de “San Diego”, um já clássico das espanholas, do seu primeiro registo, uma celebração do seu passado e do seu percurso que já conta com mais de uma década.
Com este último tema, as Hinds dizem ser o final do concerto, no entanto, para um público bem habituado a este tipo de finais, logo após o grupo sair de palco, começa a chamar por mais e as Hinds deram exatamente isso – um encore muito forte com três temas, entre eles:  “Hi, How Are You”; “Spanish Bombs”, uma bela versão do clássico de The Clash lançada como single em 2020, e por fim, “En Forma” do seu último disco, dando fim a uma noite de grandes emoções e de muita diversão.
Nesta noite de mulheres fortes e de música muito contagiante marcada por grandes hooks e refrões que ficam na cabeça, foi também uma noite de grande honestidade e verdade por parte dos seus intervenientes, que encontraram na noite de sábado, no Rés do Chão da Casa Capitão, libertação e conexão.

Lesma

Hinds

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