“Gostava que quem ouvisse esta canção tivesse vontade de ir ouvir toda a discografia do Fausto”, Pedro Branco

Há canções que atravessam gerações e permanecem como território quase sagrado na memória coletiva. “Não Canto Porque Sonho”, de Fausto Bordalo Dias, é uma dessas obras — um encontro raro entre música, poesia e identidade. Revisitar um tema com este peso exige mais do que uma nova leitura: implica respeito, sensibilidade e uma ligação profunda ao universo original. É nesse ponto de equilíbrio que surge a nova interpretação de Pedro Branco, construída em colaboração com Noiserv e Tipo, e moldada por uma cumplicidade artística que se estende há vários anos.

Por Sandra Pinto

A propósito deste lançamento, falámos com o músico sobre o processo de recriação desta canção intemporal, a influência de Fausto no seu percurso, a passagem do palco para o estúdio e o regresso a um registo mais íntimo no seu trabalho a solo.

“Não Canto Porque Sonho” é uma canção de Fausto Bordalo Dias. O que te levou a escolhê-la para este novo single?
Na altura do lançamento do meu primeiro disco a solo “A Narrativa Épica do Quotidiano”, eu e os meus bons amigos Noiserv e Tipo fizemos uma tour que andou um pouco por todo o país. No disco são poucas as canções em que eles participam, o Tipo participa na Composição da Fuga e o Noiserv na Cinco Minutos Antes por isso a sua participação no concerto esgotava-se muito rapidamente e eu sentia-me mal pelo convite se limitar a essa canção cada, por isso depois de dois ou três concertos pensei que podia repensar a setlist e acrescentar uma canção que pudéssemos fazer os três. Esta época foi logo a seguir aos concertos na Aula Magna com o Fausto e a Não Canto Porque Sonho veio-me logo à cabeça, pois foi uma canção que esteve sempre presente no meu imaginário desde os Três Cantos e claro a versão magistral com a participação do Zeca. É óbvio que no início tive um pouco de receio porque me custa sempre pegar em repertório que para mim é tão sagrado, mas logo depois do primeiro ensaio as dúvidas dissiparam-se e a canção passou a constar de todos os alinhamentos.

Esta é uma reinterpretação de uma obra intemporal. Como encontraste o equilíbrio entre homenagem e reinvenção?
Quando a fazemos ao vivo o objetivo é não estragar, e quando a gravámos o objetivo foi um bocadinho o mesmo (risos). Um dos elementos que sempre me cativou na canção foi aquele cânone final em que as vozes se vão entrelaçando e por isso pensámos que esse seria o elemento chave para a nossa versão. O jogo entre os diferentes timbres de vozes esteve sempre muito presente na música dos YCWCB e eu sentia falta desse elemento no meu concerto, principalmente com a presença do David e do Salvador que têm vozes tão impactantes. Depois em termos de arranjo, a canção é tão rica em termos melódicos e da poesia do texto que a melhor forma de a interpretar foi mesmo despi-la à sua essência e timbrá-la só com pequenos apontamentos nossos que era inevitáveis porque de facto somos nós que a estamos a interpretar.

A canção já fazia parte do vosso repertório ao vivo há vários anos. O que muda quando uma versão passa do palco para o estúdio?
Essa foi uma questão que me criou um pouco de receio porque sempre que tocámos esta versão o público reagia de forma muito impactante e era sempre um momento bastante forte do espetáculo, o que me criou algum medo de não conseguirmos transpor essa magia que se sente quando a tocamos ao vivo para uma gravação em que de facto não controlamos a forma nem a altura em que a música é consumida. A maneira que arranjámos de tentar aproximar esses dois momentos foi mantermos a gravação o mais próxima possível da forma como a interpretamos ao vivo, com o som mais natural e semelhante ao que seria a nossa performance live, e restringirmo-nos aos primeiros takes e a uma produção super minimal e quase não presente, para as pessoas sentirem quase que estamos a cantar na sua sala de estar.

Este lançamento surge também num contexto simbólico, próximo da data de falecimento de Fausto. Esse enquadramento influenciou a abordagem ao tema?
Não influenciou a abordagem ao tema, mas influenciou o seu lançamento. Eu estava com vontade de lançar algo novo em breve e desde há muito tempo que achava que esta nossa versão merecia um registo mais sério, então o aproximar da data foi a razão perfeita para celebrarmos o Fausto.

Tiveste a oportunidade de acompanhar Fausto Bordalo Dias nos seus últimos concertos na Aula Magna. De que forma essa experiência marcou esta leitura da canção?
Esses dois concertos foram duas das experiências musicais mais marcantes da minha vida. Eu cresci com a música do Fausto e em particular com o Por Este Rio Acima e nunca nos meus sonhos mais longínquos pensei que fosse ter a oportunidade de tocar o disco na integra com o próprio. Qualquer explicação que se tente dar não faz jus ao que se viveu naquela sala naquelas duas noites, a perfeita comunhão do público com o artista, a celebração de uma obra maior que a vida, a generosidade e a certeza de que se estava a viver um momento histórico. É algo que vou guardar até ao final dos meus dias com um orgulho que não me cabe no peito.

A colaboração com Noiserv e Tipo já vem de longe. O que torna esta relação artística tão natural entre vocês?
Acho que o mais importante é mesmo a amizade que nos une e a música é uma consequência disso. Desde que nos conhecemos que ficámos muito próximos e que conversamos sobre todo o tipo de assuntos e partilhamos muito as nossas visões sobre as coisas. Apesar de termos backgrounds e gostos diferentes, a nossa forma de estar na música e a nossa noção estética sobre o nosso próprio repertório é muito semelhante.

O facto de terem passado também pelos You Can’t Win, Charlie Brown influencia a forma como continuam a colaborar hoje?
Foi nos YCWCB que conheci ambos, por isso sem YCWCB não existiria esta colaboração. De resto, os YCWCB foram uma escola enorme para mim, foi com eles que ganhei confiança na minha voz e que descobri muitas formas diferentes de pensar a música que até lá não tinha, quer em termos de produção e arranjos mas também de songwriting.

Como se construiu o espaço sonoro desta versão, onde convivem guitarra clássica, vozes e sintetizadores?
Eu queria muito que este meu novo trabalho fosse uma continuação do meu primeiro disco, daí também o convite ao David e ao Salvador, portanto a instrumentação teria de ser próxima também daquilo que foi a “Narrativa”. O foco primordial estava na guitarra clássica e os sons de teclado foram os mesmos ou muito semelhantes (mellotron e um cásio antigo). Na altura foram escolhidos por limitação, desta por opção.

Este single abre também caminho para o teu próximo disco a solo. O que é que ele antecipa desse novo capítulo?
Antecipa que é uma espécie de retorno ao primeiro disco. Vai ser gravado novamente em casa, com a mesma guitarra e os mesmos instrumentos, a única diferença é que agora tenho uns microfones um bocadinho melhores (risos). Vai ser composto só por música original (sendo este primeiro single a exceção óbvia) e vou voltar à guitarra clássica e a tentar explorar a canção instrumental.

Depois de projetos como Tape Junk, Branco toca Marco Paulo e Old Mountain, o que te motivou a regressar agora em nome próprio, de forma independente?
Eu acho que o projeto a solo de cada artista é quase um escape de muitas das suas obrigações. Por muitos projetos paralelos que tenha (e que são essenciais para me exprimir enquanto artista ativo na minha comunidade) o meu projeto a solo é sempre a base a que gostava de voltar. Guardo muitas memórias boas do meu primeiro disco, muitas viagens, muitos concertos, muitas descobertas acerca de mim e do meu instrumento, novos lugares (alguns desconfortáveis) que me ajudaram a dar muito a todos os outros projetos. Nenhum músico é um lugar estanque, todos nós somos mil e uma coisas e eu gosto de não me esquecer disso.

Quando revisitamos uma canção tão forte de outro autor, o que procuras preservar acima de tudo — a emoção original ou a liberdade de a transformar?
Procuro essencialmente respeitar o original sem deixar de lhe dar um cunho pessoal. É um processo um bocadinho diferente de outras versões que já fiz, como o projeto do Marco Paulo, em que a proposta era muito específica e partia de uma premissa clara de transformar canções populares muito conhecidas e lhes dar uma roupagem completamente diferente. Aqui a nossa versão não inventa a roda nem foge do universo original da canção, foi só uma humilde homenagem a um dos maiores que já tivemos.

O que gostarias que permanecesse com o ouvinte depois de escutar esta versão de “Não Canto Porque Sonho”?
Gostava que desse vontade de ir ouvir toda a discografia do Fausto, de reler a bela poesia de Eugénio de Andrade, de ir abraçar as pessoas que amam, de sonhar com sítios belos e justos onde as pessoas se possam sentir bem com quem são e fazer sentir bem a pessoa ao lado.

Links Pedro Branco

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