“Gostava que a minha música estivesse associada a uma sensação de confiança e de possibilidade”, about jlm

O projeto about jlm afirma-se como um dos percursos mais confessionais da nova música portuguesa, construído a partir de uma lógica profundamente autobiográfica onde a vida, a identidade e a criação artística se confundem. Entre hip-hop, rock e sonoridades mais experimentais, o artista transforma experiências pessoais em narrativas musicais que oscilam entre a introspeção e a afirmação, num processo contínuo de descoberta e construção de si próprio.

Por Sandra Pinto

Nesta entrevista, o artista reflete sobre o papel da escrita como ferramenta de autoconhecimento, a evolução do seu som e a forma como o Porto, as suas referências e as suas vivências moldam uma identidade artística em permanente definição.

O projeto about jlm nasce de uma abordagem muito biográfica à música. O que te levou a assumir esse registo tão pessoal na tua identidade artística?
Comecei a minha carreira como forma de perceber mais sobre mim. Foi muito com o objetivo de falar comigo mesmo e de refletir sobre a vida, sobre como eu me via e como sentia que me inseria na sociedade. Ao longo dos anos isso permitiu-me conhecer e construir a minha identidade. A nível pessoal sou alguém muito honesto, muito franco — e trago isso para a música. Gosto de falar de mim, gosto de me mostrar, gosto de me expor. Nunca me fez sentido não ser about jlm, nunca seria about someone else ahaha.

Quando escreves, cruzas as tuas vivências com histórias de amigos e familiares. Como decides o que pertence ao teu universo e o que se transforma em narrativa musical?
Há assuntos em que ainda não sinto que consiga tocar, não por medo ou por querer esconder algo, mas porque não sei fazê-lo de forma artística o suficiente no que toca à musicalidade. Já os abordei em poesia diversas vezes, mas musicá-los… não acho que faça sentido ainda. Coisas como reflexões sobre família ou alguns pontos da vida — sempre que o tentei fazer, soou-me demasiado a slam poetry, mais do que a uma música. Quando era mais novo não tinha à vontade para falar de amor e de paixão, achei que nunca seria capaz… hoje em dia é capaz de ser das coisas de que mais falo. Talvez porque eu próprio, como pessoa, estou mais confortável com esse âmbito da minha vida. Tem tudo a ver comigo, mais uma vez — não sei ser de outra forma.

Sentes que a música funciona para ti como um espaço de reflexão e de autoconhecimento?
Até ao meu primeiro disco Éter, era sem dúvida esse o meu método. Esse álbum retrata uma idealização do que seria uma jornada perfeita em prol da harmonia, algo super metafórico, onde abordava a ideia dos quatro elementos e como seria eu conquistar cada uma dessas facetas para “dominar” as emoções e viver em paz. Depois desse projeto, em meados de 2023, comecei a conectar-me com outros artistas do Porto, a ouvir novas sonoridades e novos métodos de criação. Pessoas como Boy Rodo, Manu Aboghe e Jon5DM foram fundamentais para a minha fundação como artista. Deixei de escrever apenas como reflexão e comecei também a pensar mais na musicalidade e depois na letra.
Hoje em dia separo mais a música da poesia: a poesia fica para momentos mais catárticos e vulneráveis, enquanto a música serve cada vez mais como manifestação das minhas ambições.
O que me acontece muito é ter tópicos, frases, metáforas, palavras… anotadas, seja em blocos de notas seja em ficheiros digitais, que uso nas letras consoante o sítio para onde o instrumental me leva. Adoro escrever — continua a ser a coisa mais importante para mim — mas preocupo-me muito com a música soar bem primeiro.

Em que momento percebeste que a tua identidade enquanto músico e compositor passava por este formato mais autobiográfico?
Foi sempre claro. Desde o início que o meu objetivo era ouvir algo meu e sentir-me capaz de conquistar o mundo. Se conseguisse criar esse sentimento em alguém, já era um bónus. A música foi a forma que encontrei de me tornar quem queria ser quando era adolescente — e hoje é a forma que tenho de me tornar o adulto que quero ser.

Tens vindo a construir um percurso na música urbana, cruzando hip-hop, rock e também registos acústicos. Como defines hoje o teu som?
Posso tentar definir o meu último disco A\WAY — foi um misto de influências, com músicas mais próximas do R&B, outras de club music, hip-hop e trap. Foi um disco bastante experimental, um conjunto de influências ligadas pela linha textual do projeto. Definir o meu som no geral é mais difícil… já fiz muita coisa. Diria que faço música intensa. Acredito nisso — trago uma energia intensa, seja em registos nostálgicos ou mais reivindicativos.

Essa mistura de géneros é algo intencional ou resulta naturalmente das tuas influências e experiências?
Para além da base do hip-hop, a minha música surge de uma mescla de tudo o que ouço ao longo da vida — influências dos meus pais, dos meus amigos, das pessoas que me rodeiam. Por isso sim, vem muito das minhas influências. Apesar de ouvir muito hip-hop, adoro rock — Linkin Park é a minha banda favorita. Nirvana, U2, Three Days Grace… são influências muito fortes, mesmo que não sejam sempre óbvias na minha música.
Para além disso, gosto muito daquela fase do dance-pop e da música de club — coisas como “Sexy Bitch” do David Guetta ou sons da Rihanna dessa altura, muito digitais e eletrónicos. Isso inspira-me bastante e nota-se, por exemplo, em “ALRIGHT”.
Diria que é intencional também — eu tenho noção do que gosto e tento cruzar esses elementos com a minha identidade.

Ao longo dos últimos anos, sentes que a tua escrita se tornou mais direta, mais introspetiva ou mais experimental?
Sem dúvida mais experimental. Introspetiva é sempre, isso não muda. Mas hoje faço música mais reivindicativa, mais confiante. Ainda assim, tudo parte da introspeção. O meu último álbum mistura muitos estilos porque eu próprio estava a descobrir o que mais gostava e também a minha voz. Agora sinto que estou a entrar numa fase em que o próximo disco será mais coeso e com uma linha mais definida.

O nome about jlm sugere também uma espécie de observação sobre ti próprio. Sentes-te mais como narrador ou como personagem dentro das tuas músicas?
Não sei quem escreveu esta pergunta, mas adorei. Acho que sou um narrador da minha própria vida, mas ao mesmo tempo também sou personagem. Muitas vezes sinto essa ideia de “personagem principal”, no sentido em que estou em controlo e que as coisas acontecem porque eu me coloco nelas. Diria que about jlm é eu a narrar a personagem que escolho ser — mas nunca como uma fábula, sempre com base em quem eu sou.

Quando te expões de forma tão pessoal nas canções, há alguma linha que evites ultrapassar ou isso não é uma preocupação no teu processo criativo?
Não penso muito nisso. Há temas que me saem com facilidade e outros que ainda não consigo musicar de forma interessante. Já falei de coisas muito pessoais — às vezes só omiti nomes e datas. Não é uma preocupação. É a minha história. Quero poder, daqui a anos, ouvir músicas minhas e perceber como pensava em cada fase da vida. Há coisas que ainda ficam só na poesia — não por falta de vontade, mas porque ainda não encontrei a forma certa de as transformar em música.

Como é que o contexto da cidade do Porto influenciou o teu percurso musical até agora?
Pelas pessoas que conheci; artistas inspiradores, talentosos e pelo próprio Porto. A energia do Porto é muito limpa, muito honesta. Acho que ser do Porto me permitiu ser mais honesto como pessoa e isso acabou por se refletir diretamente na forma como faço música. Não me imagino a viver muito tempo fora daqui, gosto disto, adoro o sol, adoro o rio Douro, adoro a vida que se vive cá.

O equilíbrio entre hip-hop, rock e acústico sugere várias camadas de expressão. Há alguma destas linguagens que te represente mais neste momento?
Sem dúvida que o hip-hop é a base. O rock sinto que é algo mais platónico, mas está muito presente em mim — sinto essa energia mais crua, mais punk, essa urgência, essa atitude não conformista e essa ambição desmesurada. A parte acústica é algo que quero desenvolver mais. Tenho mesmo o objetivo de fazer um concerto só com banda e explorar melhor esse lado.

Sentes que a tua música está mais focada em contar histórias ou em procurar respostas?
Procurar respostas. Perceber quem sou, racionalizar o que sinto — isso sempre foi o meu objetivo. Gosto de contar histórias, mas sinto que as conto quase sempre com uma camada de reflexão, já algo trabalhado ou até metaforizado. Falo do que vivo, conto histórias minhas, mas normalmente a partir de uma perspetiva mais introspetiva.

Em relação à tua atuação no dia 23 de maio na Associação ACGITAR, em Gondomar, o que é que o público pode esperar desse concerto?
Podem esperar um concerto, certamente, diferente do que fiz até agora. Vou experimentar várias coisas. Vou passar por diferentes fases da minha carreira, trazer algumas das músicas mais marcantes para quem me acompanha e também momentos mais acústicos com banda. Sendo em Gondomar, na minha terra, acaba por ter um peso emocional maior — ainda por cima num espaço que conheço tão bem e com o qual já colaboro há algum tempo.

Esse tipo de espaços mais intimistas muda a forma como preparas ou apresentas o teu repertório?
Este tipo de concertos até me permite ver o feedback mais cru das pessoas, há músicas que fazem mais sentido nestes palco. Honestamente, eu tenho mais experiência neste tipo de palco.

O que te motiva hoje a continuar a desenvolver este projeto de forma consistente?
Hoje em dia motiva-me muito a evolução que sinto em mim e a forma como a minha música começa a chegar às pessoas. Também me motiva perceber que aquilo que eu manifesto nas minhas letras tem impacto real na minha vida e, de certa forma, na dos outros. É essa sensação de construção — pessoal e artística — que me faz continuar, não sei viver de outra forma já.

Ao olhares para o teu percurso até agora, que evolução sentes mais evidente na tua identidade enquanto about jlm?
A maior evolução está na forma como deixei de estar só virado para dentro e passei a falar mais para o outro. No início era muito mais introspetivo, como já disse, muito focado em perceber-me. Hoje continuo a ser biográfico, mas sinto que tenho mais intenção em transmitir confiança, atitude e visão a quem ouve. Há uma maturidade maior na forma como encaro a música e o meu papel enquanto artista.

Há alguma mensagem ou sentimento que gostasses que ficasse mais associado à tua música?
Gostava que a minha música estivesse associada a uma sensação de confiança e de possibilidade. Que alguém ouça e sinta que pode fazer pela própria vida, que pode acreditar no que é e no que quer ser. Mais do que uma mensagem fechada, quero que fique essa energia de impulso. Isto é um sentimento que eu ambiciono, não é o único. Gosto que a minha música também tenha esta vertente nostálgica e de introspeção, acho fascinante quando alguém se identifica com uma letra que eu fiz por causa de uma ex-relação minha… penso sempre como é que tu te identificas, tu não sabes de quem estou a falar ahaha! Isto dá-me muita satisfação.

Que próximos passos ou objetivos gostarias de explorar depois deste momento do teu percurso?
Quero continuar a consolidar a minha identidade artística e chegar a mais pessoas, sem perder a verdade do que faço. A nível criativo, quero aprofundar esta fusão de sonoridades e conceitos que tenho vindo a construir, especialmente nesta fase mais recente. Ao mesmo tempo, quero dar mais passos ao vivo, tocar mais, crescer nesse lado performativo e tornar o projeto cada vez mais sólido em todas as frentes.

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