Gaerea no LAV – Lisboa Ao Vivo: a intensidade de um ritual sonoro que se findou num labirinto de emoções intensas
Lisboa respirava tensão naquela noite, como se o próprio ar soubesse o que estava por vir. Quando os Gaerea surgiram ao palco, não era apenas música que se anunciava: era um convite para mergulhar num ritual sonoro. Entre sombras que se alongavam e vozes que rasgavam o silêncio, cada acorde parecia guiar o público por um labirinto de emoções intensas. A experiência não se limitava a ouvir; era sentir e viver a música. No final, saímos marcados, como se a noite tivesse deixado em nós uma cicatriz invisível, feita de adrenalina, arte e devoção absoluta.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Em 2016 nascia no Porto aquela que é hoje uma das bandas portuguesas mais marcantes da atual cena de metal extremo, os Gaerea. Tendo pulado as fronteiras lusitanas, a banda regressou à pátria este ano, primeiro na última edição do Evillive Fest e, agora, com dois concertos no Porto e em Lisboa. Foi precisamente neste último que marcámos presença. Sala cheia de um público que se percebia fiel e por entre o qual fomos vendo muitas caras conhecidas, amigos e conhecidos que se (re)veem em ocasiões solenes, como esta. Instantes antes da banda entrar em placo sentia-se uma ansiedade latente, uma urgência em tê-los ali, em ouvi-los. A entrada fez-se com “Hellbound”, do recente e último álbum “Loss”, lançado em março passado pela Century Media Records. O resto é já história…uma bonita história de amor, música e entrega entre a banda e o seu público. Ao desfilar das pérolas musicais, a plateia e a galeria respondiam com uma emoção redobrada. O LAV encheu-se de post-black metal, tal como uma teia onde se cruzam a agressividade crua do género com atmosferas densas, emotivas e profundamente imersivas. Se “Loss” serviu de pretexto, a verdade é que a setlist ganhou uma consistência perfeita ao integrar temas dos trabalhos discográficos anteriores. O concerto desenhou paisagens sonoras de grande intensidade, nas quais blast beats implacáveis, guitarras afiadas e vocais dilacerantes se uniram numa harmonia inesperada, intercalada por passagens melódicas e contemplativas. Esta oscilação entre agressividade sonora e introspeção gera um forte impacto emocional, transformando cada tema numa experiência quase catártica. A apresentação ao vivo de cada tema, eleva a sua intensidade emocional e a sua sofisticação musical, enquanto os temas liricamente abordados, como dor, solidão, transcendência e o confronto com o eu interior, ganham outra dimensão com a “teatralidade” impactante do vocalista. Por sua vez, o impacto visual das máscaras usadas pelos músicos, converte cada apresentação numa experiência ritualística e coletiva, ultrapassando a simples performance musical. A intensidade brutal da performance, somada à estética sombria e à entrega total dos músicos, forja uma ligação quase primária com o público. É nesse instante que a banda alcança o seu ápice, arrastando a plateia para uma experiência sufocante, hipnótica e absolutamente inesquecível, onde cada nota reverbera como um ritual de pura imersão. No término do espetáculo, ficou claro que os Gaerea transcendem o convencional do metal português, transformando cada nota numa expressão artística intensa e visceral, e deixando uma impressão que ressoa muito além das fronteiras nacionais. “Meus meninos lindos, o mundo é vosso”: assinado, Sandra.
Formados em Paços de Ferreira no ano de 2008, os Apotheus têm vindo a conquistar espaço na cena nacional graças à sua combinação de técnica, melodia e narrativa conceptual. A sua qualidade, já mais do que cimentada, deu-se, mais uma vez, a conhecer no palco do LAV – Lisboa Ao Vivo o qual se encheu de riffs complexos e arranjos atmosféricos, responsáveis pela profundidade emocional das suas músicas. Influenciados por bandas como Katatonia, Soen e Gojira, os Apotheus destacam-se pela sua abordagem conceptual através da qual exploram universos narrativos próprios, frequentemente inspirados em ficção científica, filosofia e introspeção. A sua apresentação, irrepreensível diga-se, ficou marcada pelas melodias densas, a atmosfera envolvente e uma execução cuidada ao detalhe. Ao ouvi-los conseguimos perceber a evolução constante da sua sonoridade, a qual se apresenta hoje mais madura e , ainda, mais ambiciosa. Com a mestria de quem sabe, a banda demonstrou uma tremenda capacidade de envolver o público que enchia por completo a sala de espetáculos lisboeta. Captaram a atenção de todos com as suas músicas complexas e progressivas, desconhecidas para muitos, testemunho vivo de que o metal conceptual que praticam pode muito bem ser técnico e emocional, em doses igualmente importantes (e cativantes).
Gaerea
Apotheus