FREEFALL PROTOCOL: “Se soubéssemos exatamente onde isto vai acabar, também perdia metade da graça”

“Se soubéssemos exatamente onde isto vai acabar, também perdia metade da graça.”

A frase resume bem o espírito dos FREEFALL PROTOCOL. Formados em 2025, os cinco músicos partiram de relações e experiências anteriores para construir um projeto novo, sem a obrigação de caber numa fórmula ou de escolher antecipadamente o caminho a seguir. Há rock e metal, mas também blues, soul, jazz, post-punk e eletrónica. Há espaço para a melodia, para a intensidade, para a improvisação e, sobretudo, para aquilo que acontece quando cinco pessoas deixam uma ideia passar pelas mãos umas das outras. No centro está também uma vontade de transformar o quotidiano em música. O cansaço, a dúvida, a inquietação, a mudança ou a necessidade de perceber que história estamos a construir aparecem nas letras sem respostas fechadas, deixando espaço para que cada ouvinte encontre as suas próprias.

Por Sandra Pinto

Com os primeiros temas já apresentados e novos concertos e gravações no horizonte, os FREEFALL PROTOCOL estão ainda a descobrir o que podem ser. E talvez seja precisamente aí que esteja a parte mais interessante desta história: numa banda que prefere experimentar, desconstruir e voltar a construir a ter certezas demasiado cedo. Falámos com os cinco elementos sobre o nascimento do projeto, as influências, o processo criativo, o palco e o que poderá acontecer quando o próximo capítulo começar a ganhar forma.

Os FREEFALL PROTOCOL nasceram em 2025. Como aconteceu o encontro entre os cinco elementos e em que momento perceberam que havia aqui uma banda para levar a sério?
Na verdade, a história começa bastante antes de 2025. O Jorge e o NES já tinham partilhado vários projetos, alguns deles desde os tempos da universidade. Entretanto o Pedro juntou-se no projeto anterior e, quando esse projeto terminou, ficou a vontade de virar a página, criar um novo conceito e uma nova identidade.
A passagem para cinco elementos aconteceu de forma bastante natural. Havia vontade de ter duas guitarras para enriquecer a nossa música com camadas adicionais, e também nos parecia interessante trabalhar com uma voz feminina. Conhecíamos a Madalena e o Nuno Silva, lançámos-lhes o desafio e ambos aceitaram praticamente de imediato.
A partir daí, as coisas cresceram muito depressa, e para nossa própria surpresa, de forma muito natural. Parecia que tanto a Madalena como o Silva já estavam na banda há anos! As músicas começaram a ganhar forma e percebemos que cada pessoa acrescentava alguma coisa que fazia os temas evoluir. O momento em que percebemos que isto era mesmo para levar a sério foi quando deixámos de pensar “isto até soa bem” e começámos a perguntar “quando é que mostramos isto às pessoas?”.

O nome FREEFALL PROTOCOL fala de queda, reconstrução e transformação. Quando escolheram este nome, já tinham definida a filosofia que queriam transportar para a música?
Não completamente. O nome apareceu primeiro como uma ideia que nos dizia qualquer coisa e, curiosamente, o próprio processo de o escolher obrigou-nos a pensar sobre aquilo que estávamos a fazer. O Pedro, que é o gajo dos conceitos, não descansou enquanto não fechássemos esse tal conceito. E tinha de conter uma narrativa (musical e visual), uma ideia central e algo a entregar para além das notas
musicais. A certa altura percebemos que FREEFALL PROTOCOL traduzia bastante bem o instinto da banda. A queda não aparece necessariamente como perda de controlo, mas como aqueles momentos em que somos obrigados a deixar cair certezas e reconstruir a partir daí. E este universo fornece-nos muitas histórias e episódios que podemos explorar. No fundo, trata-se de dar som e letra ao quotidiano.
Isso também acontece muito no nosso processo criativo. Experimentamos, desmontamos coisas, mudamos de direção, discutimos bastante e voltamos a construir. O “protocolo” talvez seja precisamente isso, encontrar uma maneira de continuar quando não existe propriamente um manual de instruções.

A vossa música cruza rock, metal, blues, jazz, post-punk, soul e eletrónica. Como conseguem juntar referências tão diferentes sem perder uma identidade própria? 
Talvez porque nunca começamos uma música a pensar em que género ela tem de ficar. Temos gostos musicais muito diferentes dentro da banda e isso provoca alguma turbulência, algumas discussões e, felizmente, muitas ideias. Mas essa diferença também é uma das grandes forças do projeto. Se uma música pede uma abordagem mais rock, seguimos por aí. Se pede blues, soul, eletrónica ou outra coisa qualquer, não temos nenhum problema com isso. Cada elemento entra porque faz sentido para aquela música e para aquilo que queremos transmitir. No fundo, a nossa identidade não está numa etiqueta. Está na maneira como juntamos essas referências, na energia, na interpretação e nas histórias que queremos contar. O resto vai-se descobrindo.

A nossa identidade não está numa etiqueta.

Na biografia dizem que não vieram para “navegar em segurança”. O que significa, na prática, não ter medo de arriscar enquanto banda?
Significa não termos medo de experimentar e, sobretudo, não ficarmos presos a uma fórmula só porque determinada coisa funcionou uma vez. A nossa paleta de referências é bastante larga e pode levar uma música para sítios completamente diferentes. Gostamos dessa imprevisibilidade. Há sempre vários caminhos possíveis e tentamos deixar espaço para o inesperado. Se o arranjo tem energia, se a música nos diz alguma coisa e se gostamos genuinamente do resultado, as barreiras de estilo deixam de ter qualquer importância. Preferimos descobrir o caminho enquanto fazemos música a decidir previamente onde temos de chegar.

Como funciona o processo de composição? Normalmente existe uma ideia inicial de um dos guitarristas, da voz, da secção rítmica, ou as músicas nascem verdadeiramente do trabalho coletivo?
Pode acontecer de todas essas maneiras. Há músicas que nascem de um riff ou de uma ideia trazida de casa, outras de uma linha vocal, de uma letra que pede determinada atmosfera ou de um momento de improvisação durante um ensaio.
Temos também uma espécie de “baú de ideias”, pequenos riffs, ambientes ou momentos que ficaram guardados e que, de repente, encontram lugar numa música meses depois. Depois começa a parte divertida, ou caótica, dependendo do dia. A ideia passa pelos cinco e cada pessoa acrescenta qualquer coisa. Às vezes existe consenso imediato, outras vezes há colisões bastante saudáveis. Normalmente ninguém acaba exatamente com a música que tinha imaginado no início. E ainda bem. Pode existir um ponto de partida individual, mas o destino acaba por ser coletivo.

Madalena, a tua voz mistura rock, soul e blues, mas também existe uma forte componente de interpretação. O que procuras transmitir quando entras numa canção dos FREEFALL PROTOCOL?
Para mim, cantar é sobretudo contar histórias. Quando entro numa música dos FREEFALL PROTOCOL tento perceber quem está por detrás daquela história, o que essa pessoa sente, o que esconde e aquilo que está realmente a tentar dizer.
Gosto muito dessa componente de interpretação porque me permite dar uma vida diferente a cada música. A voz pode ter a força do rock, a alma do soul ou a crueza do blues, mas aquilo que me interessa realmente é que exista verdade por detrás disso. Não quero apenas cantar a música. Quero vivê-la durante aqueles minutos e tentar que quem está a ouvir também consiga entrar naquela história.

Jorge e Nuno trabalham ambos as guitarras, mas vêm de referências e percursos diferentes. Como se complementam na construção dos riffs, harmonias e arranjos?
Boa pergunta, porque não sabemos se temos propriamente um método. Temos formas bastante diferentes de abordar a guitarra e isso acaba por ajudar. Há arranjos que surgem numa guitarra e que provavelmente nunca apareceriam na outra. Noutras músicas acontece precisamente o contrário, as duas guitarras respondem uma à outra e aí entramos muito mais no detalhe das harmonias e dos arranjos.
Essas diferenças acabam por criar um equilíbrio interessante entre ambiente, intensidade, melodia e ritmo. Mas há uma coisa que tentamos evitar: tocar alguma coisa só porque tecnicamente podemos. O arranjo tem de servir a música. Se não acrescenta energia, emoção ou alguma coisa relevante ao tema, provavelmente não precisa de estar lá.

Pedro, o baixo aparece descrito como elemento de ligação e textura. Que papel procuras assumir dentro do som da banda e na relação com as duas guitarras?
Vejo o baixo muito como o ponto de ligação entre a bateria e tudo o que acontece harmonicamente nas guitarras. Com duas guitarras há bastante informação a acontecer, por isso nem sempre faz sentido o baixo tentar disputar esse espaço. Às vezes o melhor é segurar a música
com o NES, outras vezes há espaço para criar uma linha que se afaste das guitarras e acrescente movimento ou textura.
Interessa-me sobretudo perceber aquilo de que cada música precisa. Há momentos em que o baixo deve quase desaparecer dentro da secção rítmica e outros em que pode assumir mais personalidade. É como um pêndulo de intensidade. Há temas que gravilha no som é uma bênção, e noutros temas, o veludo da simplicidade assenta melhor no resultado final. No fundo, tento servir a música. Embora, como qualquer baixista, de vez em quando também ache que toda a gente devia ouvir um bocadinho mais o baixo.

NES, a tua abordagem à bateria parte muito da dinâmica e da canção, em vez do virtuosismo. O que procuras acrescentar aos temas através da percussão?
Procuro sobretudo servir a música e o ambiente que ela pede, seja esse ambiente criado pelos instrumentos ou pela própria letra. Até chegarmos àquele momento em que todos pensamos “é isto!”, vou à procura dos pontos onde uma mudança de dinâmica, uma acentuação, uma pausa ou até uma pequena aceleração pode tornar o tema mais interessante.
Para mim, numa banda de rock a bateria, juntamente com o baixo, deve ser o motor da música. Mas não precisa de estar constantemente a chamar a atenção para si própria. Tem de ser um motor sólido, constante e com alguns momentos de loucura. Loucura em doses controladas é bastante saudável.

Há cansaço, dúvida, medo, mudança, procura, esperança e também uma certa vontade de escapar ao piloto automático.

As vossas letras parecem partir muitas vezes de estados de tensão, cansaço, inquietação e procura de redenção. Existe uma preocupação em transformar experiências do quotidiano em matéria artística?
Existe, embora talvez “preocupação” seja uma palavra demasiado consciente para aquilo que acontece. Às vezes há uma espécie de catarse, pegamos em coisas que nos inquietam e transformamo-las numa música. Outras vezes o processo começa precisamente ao contrário. Surge primeiro uma determinada atmosfera musical e percebemos que aquilo nos faz pensar numa situação, numa emoção ou numa personagem.
E as letras não são necessariamente autobiográficas. Muitas começam com uma imagem, uma situação ou uma personagem completamente inventada. Interessa-nos observar aquilo que acontece à nossa volta, incluindo coisas aparentemente pequenas ou invisíveis, e imaginar histórias a partir daí. Mesmo quando a história é ficção, as emoções podem ser muito reais.

“Câmara Lenta”, “Cansaço”, “Epiderme”, “Nevoeiro” e “Que História Vais Contar?” parecem explorar diferentes formas de olhar para a existência. Há um fio condutor entre estas músicas?
Há, embora não tenha sido propriamente decidido numa reunião antes de começarmos a escrever. Os primeiros temas do Embryo Zero acabaram por refletir uma visão bastante interior sobre aquilo que nos toca, aquilo que nos inquieta e a forma como lidamos com o
quotidiano. Há cansaço, dúvida, medo, mudança, procura, esperança e também uma certa vontade de escapar ao piloto automático.
Talvez o fio condutor esteja precisamente aí, na tentativa de olhar para aquilo que nos acontece e fazer perguntas sobre isso. A realidade passa depressa e se nunca nos questionarmos, é muito fácil acordarmos um dia dentro de uma vida que simplesmente foi acontecendo.

“Cansaço” fala do desgaste provocado pela rotina e da procura de algo que possa salvar a nossa história. Até que ponto escrever uma canção pode ser também uma forma de lidar com aquilo que nos pesa?
Muito. “Cansaço” parte precisamente dessa sensação de desgaste, de andar sem direção e de ver os dias passar sem encontrarmos aquilo que procuramos. Mas existe também a procura de alguma coisa que possa trazer luz à personagem e alterar o rumo da história.
Talvez exista sempre essa secreta esperança de transformar algo que pesa em qualquer coisa positiva. E quando aquilo que estava dentro de nós passa para uma canção e é partilhado, deixa de nos pertencer completamente. Outra pessoa pode ouvir aquela história e encontrar nela qualquer coisa da sua própria vida. Não resolve necessariamente o problema, mas às vezes ajuda-nos a fazer perguntas
melhores.

“Que História Vais Contar?” coloca a questão da marca que deixamos e do modo como escolhemos viver. É uma pergunta dirigida ao público ou, antes de tudo, aos próprios FREEFALL PROTOCOL?
A todos, incluindo nós. Gostamos que as letras tenham alguma ambiguidade e deixem espaço para que cada pessoa as interprete a partir da sua própria experiência. “Que História Vais Contar?” pode querer dizer uma coisa diferente para cada um de nós, mas é provavelmente uma pergunta que, mais cedo ou mais tarde, acaba por aparecer na vida de quase toda a gente. O que fazemos com o tempo que temos? E, quando olharmos para trás, que história ficou?

Estão ainda numa fase muito inicial da carreira, mas já falam numa identidade estética consistente. O que querem que alguém reconheça imediatamente quando ouve uma música dos FREEFALL PROTOCOL?
Gostávamos que sentisse que existe ali alguma coisa para descobrir. Mais do que reconhecer imediatamente um género específico, queremos que as pessoas reconheçam uma atmosfera, uma energia, uma intensidade e uma forma muito nossa de contar histórias. Há normalmente alguma coisa por detrás daquilo que se ouve, uma personagem, uma emoção, uma tensão, uma pergunta. Se alguém terminar uma música com vontade de voltar atrás, ouvir outra vez e perceber melhor o que acabou de acontecer, já ficamos bastante satisfeitos.

Lisboa tem muitos projetos interessantes e não estamos propriamente à procura de ocupar o espaço de alguém.

Depois dos primeiros lançamentos e concertos, o que aprenderam sobre a banda que não conseguiriam descobrir apenas dentro de uma sala de ensaio?
Que uma banda destas só fica verdadeiramente completa quando sobe ao palco. Na sala estamos muito focados nos detalhes. Corrigir, repetir, experimentar, discutir um compasso durante tempo suficiente para começar a questionar as nossas decisões de vida…
No palco tudo isso muda. Há energia, reação, imprevisto, público e uma necessidade de confiar uns nos outros de uma forma completamente diferente. Também percebemos que aquilo que nós achamos que é o momento mais forte de uma música nem sempre coincide com aquilo que o público leva para casa. E há outra aprendizagem menos romântica mas importante: uma banda precisa de trabalho, foco e objetivos. Só “curtir tocar” não chega. Caso contrário, cinco pessoas dentro de uma sala de ensaio podem transformar-se numa das formas mais sofisticadas alguma vez inventadas de perder tempo.

Lisboa tem uma cena musical muito diversa, mas também bastante competitiva. Como é que sentem o vosso lugar dentro da atual cena rock lisboeta?
Ainda não sabemos. Estamos a descobrir. Estamos numa fase muito inicial e seria um bocadinho prematuro dizer que já sabemos exatamente qual é o nosso lugar. Lisboa tem muitos projetos interessantes e não estamos propriamente à procura de ocupar o espaço de alguém. Queremos construir o nosso, através das músicas, dos concertos e das pessoas que se forem identificando com aquilo que fazemos.
O resto aparecerá naturalmente, esperamos nós.

O que procuram transmitir num concerto que não esteja necessariamente presente nas gravações? Há uma dimensão de improvisação ou de risco em palco?
Sem dúvida. Uma gravação permite repetir até as coisas ficarem exatamente como queremos. Ao vivo não existe essa rede de segurança e é precisamente isso que torna um concerto fascinante. Há arranjos que só tocamos ao vivo, pequenas alterações, momentos que esticamos
mais, interações com o público e decisões que surgem naquele instante. Também existe uma vulnerabilidade diferente. Temos de reagir uns aos outros, confiar e continuar, mesmo quando acontece alguma coisa que não estava prevista. Não queremos que quem vai ver os FREEFALL PROTOCOL sinta que está simplesmente a ouvir o disco reproduzido em palco. Para isso, ficava em casa.

Para uma banda que fala tanto de queda e reconstrução, qual é o próximo passo dos FREEFALL PROTOCOL? O que estão a preparar e até onde querem levar este “protocolo”?
No imediato temos vários concertos pela frente e três temas novos que queremos gravar. Depois disso, queremos continuar a perceber até onde conseguimos levar isto. Há novas músicas a nascer, caminhos que ainda queremos experimentar e muita coisa que só vamos descobrir quando esses temas saírem da sala de ensaio e chegarem ao palco.
O próprio “protocolo” não é uma coisa fechada. Se falamos tanto de queda, reconstrução e transformação, também temos de aceitar que podemos seguir numa direção e, a certa altura, decidir mudar completamente. Queremos continuar a criar, contar histórias e construir um universo que seja cada vez mais nosso. E, se pelo caminho tivermos de desconstruir algumas certezas e começar outra vez, faz parte. Se soubéssemos exatamente onde isto vai acabar, também perdia metade da graça.

 

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