Fjords: “O formato intenso e cru advém da nossa procura de não copiarmos o que já está a ser feito”

Nesta entrevista, os Fjords falam-nos sobre a criação do seu mais recente single, “Purgatorio”, inspirado na obra clássica A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Explorando o peso do rock, a experimentação sonora e referências literárias profundas, a banda partilha o processo criativo, os desafios da produção e como a sua identidade artística se reflete nesta faixa e no álbum de estreia.

Por Sandra Pinto

Entre loops de emoções, densidade sonora e imagens literárias, descobrimos como os Fjords conseguem unir tradição e inovação, mantendo um som poderoso e singular que promete conquistar tanto os fãs de música pesada como os apreciadores de novas experiências sonoras.

“Purgatorio” é inspirado na obra A Divina Comédia de Dante Alighieri. Como é que a ideia de transpor essa dimensão para a música surgiu?
Na altura estávamos na fase de criação do novo álbum, e após termos duas malhas já criadas, tendo já a ideia base ligada ao texto, mas com mais cowboyada, decidimos dar um twist nosso ao texto clássico. Do álbum final, o capítulo do Purgatorio pareceu-nos o mais indicado para single.

O tema apresenta um som intenso e cru. Quais foram os principais desafios na composição e produção deste single?
O formato intenso e cru advém da nossa procura de não copiarmos o que já está a ser feito, principalmente pelas nossas influências. Não só a progressividade da nossa música apresenta já em si um desafio, a adaptação da obra onde nos baseámos também o é. Tentamos manter tudo coerente ao adaptamo-la à nossa linguagem musical.

Como descreveriam a experiência de misturar peso, experimentalismo e referências literárias num único tema?
Não é nada novo na nossa discografia, sendo que já fizemos um EP baseado no Dune, do Frank Herbert, e entrámos, também, no terror lovecraftiano com Dagon. Para nós não é algo tão complicado, porque simplesmente juntamos referências e inspirações que realmente mexem connosco.

Que emoções ou imagens esperam que o ouvinte sinta ou visualize ao ouvir “Purgatorio”?
O sentimento de repetição é algo que queríamos instaurar, o parecer que algo vai mudar, porém continua na mesma, um loop de emoções e de movimento. O vídeo da faixa poderá transparecer mais facilmente o imaginário para o qual apontámos.

Há algum elemento ou detalhe na música que consideram essencial para captar a mensagem da faixa?
A repetição exagerada de certas partes ou letras, que não é algo que costumamos fazer. Esta adaptação do nosso “modus operandi” permitiu-nos distanciar esta malha do resto do nosso repertório, e até dar-lhe uma identidade singular dentro do álbum. Daí ser o single, aguenta-se bem sozinha.

Vindos dos vales centrais de Portugal, de que forma o vosso local de origem influencia o som e a identidade dos Fjords?
De onde nós somos não existe muito a cultura de banda, pelo menos de originais e, principalmente, de música mais pesada. Sermos dois adveio desse meio, o que acaba por ser positivo, porque também nos obriga a explorar maneiras de conseguirmos um som preenchido sem termos mais instrumentos.

O vosso som mistura rock progressivo, stoner doom, drone e música industrial. Como equilibram essas influências sem perder a coerência?
Experimentamos bastante. Nós não seguimos um estilo ou estética em si, somos simplesmente influenciados. A maneira como juntamos essas influências não segue nenhum padrão, a não ser experimentar e vermos o que gostamos.

A experimentação tem sido uma constante nos vossos trabalhos. Como definem a relação entre peso e inovação na música da banda?
O nosso objetivo acaba por ser fazermos música que ainda não ouvimos. O peso não existe só por existir, normalmente tudo tem o seu lugar na música. Não procuramos necessariamente o peso ou o experimental, só aparecem.

Consideram que “Purgatorio” representa uma evolução ou uma continuação natural do que fizeram nos EPs anteriores?
É uma evolução, sem dúvida. As sementes plantadas no nosso EP homónimo evoluíram bastante ao longo destes tempos, e tem muito também a ver com a nossa evolução como músicos. Novos horizontes são sempre bem-vindos, a nosso ver.

O André Figueiredo esteve envolvido na gravação, edição e mistura do tema. Como é trabalhar tão intimamente com a própria produção?
É sempre complicado, pois antes de gravar, sendo o próprio artista, já temos uma ideia do que queremos que aquilo seja. Às vezes acontece focarmo-nos na música um bocado demais, na tentativa de atingirmos as expectativas pré-estabelecidas.  Alguém de fora da banda, terá um olhar muito mais neutro.

Qual foi o papel de João Pires na masterização e como é que isso influenciou o resultado final?
Sendo o André integrante da banda, e tendo também sido ele a gravar, a masterização estaria, de certa forma, enviesada. O olhar neutro do João Pires permitiu que tal não acontecesse.

Trabalhar em duo (Rafael e André) traz vantagens e desafios. Como é que se repartem as tarefas criativas e técnicas?
A maior divisão consiste no André ficar com a parte sonora e o Rafael com a imagem. De resto, criativamente, ambos temos o mesmo input, daí a facilidade em misturar inspirações.

O processo de criação mudou muito desde os EPs Fjords e Dunes até este single?
Por incrível que pareça, não. Trabalhamos da mesma maneira, compomos da mesma maneira. Só muda a nossa proficiência no instrumento e a curiosidade por experimentar outras sonoridades.

“Purgatorio” é o primeiro single do vosso LP de estreia. Que temas ou atmosferas podem os ouvintes esperar do álbum?
Preparem-se para um doom industrial capaz de tremer chão. O Inferno de Dante será o nosso inferno e esperamos que tenham umas ferias quentes por lá. Muito experimentalismo e muita jarda, fica o aviso.

Há algum conceito ou narrativa que atravessa o álbum e que se liga a “Purgatorio”?
Sim! A adaptação da Divina Comédia, dividida pelas diferentes partes, visa apresentar ao ouvinte a narrativa célebre de Dante, pelos nossos olhos.

Como é que planeiam explorar novas fronteiras do rock pesado sem perder a identidade que vos define?
A nossa identidade acaba por residir um bocado na experimentação. Podem sempre esperar um fuzz grosso e um peso inerente, mas tudo à volta poderá mudar.

Há planos para levar “Purgatorio” e o novo álbum aos palcos em Portugal ou além-fronteiras?
Sim, estamos atualmente a trabalhar nisso. Já temos algumas datas apontadas para o ano, e aceitamos sempre mais, por isso terão oportunidades de nos ver por aí.

Como é que imaginam a experiência ao vivo desta faixa, especialmente considerando a densidade sonora e a componente experimental?
Já a tocámos ao vivo: houve mosh, caos, pancadaria da boa e beijos na boca. Tem sido uma bela festa cada vez que a malha entra no set.

Quais são os próximos passos da banda após o lançamento do álbum de estreia?
Tocar, partir palco, tocar mais um bocado e ir experimentando coisas novas para não estarmos parados.

Se tivessem de definir o som dos Fjords em três palavras para este novo capítulo, quais seriam?
Peso, pau e jarda.

Que mensagem ou sensação querem deixar ao público com este single e com o álbum que se aproxima?
Na verdade, gostamos que o publico vibre tanto com as nossas músicas como nós. Não há uma mensagem assim tão clara, embora as nossas letras sejam abertas a diversas interpretações. A grande mensagem poderá recair em como a vida passada não necessita de influenciar o nosso futuro, mas sim ajudar-nos a evoluir como ser.

Até que ponto a literatura e outras artes influenciam o vosso processo criativo?
Influenciam ao mesmo nível que outras músicas ou outros músicos. A espetacularidade literária tem bastantes portas que podemos abrir. A cultura é um mundo gigante e é divertido brincar neste recreio.

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Foto: Diogo Rivers

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