Faulklord: “Parte do desafio, para nós, está em tentar combinar de forma coerente estilos que à partida não se ligam entre si”
Formada em 2020, num período marcado pela pandemia, a banda portuguesa Faulklord está a ganhar destaque na cena metal com uma mistura eclética de death metal melódico, thrash, black e até elementos folk. O seu primeiro single, To Give A, aborda as contradições da sociedade e a responsabilidade pessoal, combinando riffs agressivos com passagens melódicas que refletem as diversas influências de cada membro.
Por Sandra Pinto
Nesta entrevista, os músicos falam sobre o processo criativo por trás do EP de estreia, a inspiração para as letras e para os videoclips, os desafios de gravar durante a pandemia e a forma como pretendem afirmar-se tanto na cena nacional como internacional.
Contem-nos um pouco sobre “To Give A”. Qual é a história ou a ideia que quiseram transmitir com esta música?
Quisemos que o nosso primeiro single refletisse algo sobre a sociedade que nos rodeia. Vivemos numa sociedade imperfeita, de contradições, que nos molda enquanto indivíduos. Se por um lado somos ensinados desde cedo a não julgar um livro pela sua capa, por outro todos sabemos que esta regra não se aplica a todos da mesma forma. Quisemos validar o que todos nós já sentimos quando confrontados com essas contradições, que é: no one gives a fuck.
A faixa mistura momentos muito agressivos com partes mais melódicas. Como é que conseguiram equilibrar estes dois lados na composição?
Faz parte da nossa perspetiva enquanto banda e é uma forma de refletir as nossas diferentes influências. Todos somos fãs de diferentes géneros e estilos musicais, não apenas metal. E o peso, apesar de ser uma componente, não é o nosso único foco; também valorizamos a melodia e a harmonia. O Frangolho – o nosso vocalista – está sempre a dizer que é a melodia é que acaba por agarrar as pessoas.
O videoclip acompanha o lançamento do single. Que história ou mensagem quiseram passar visualmente com este vídeo?
Um dos temas que quisemos refletir foi o da dessensibilização das pessoas perante os horrores do mundo. Estamos cada vez mais insensíveis perante a desgraça alheia e quisemos que o nosso videoclipe também refletisse isso. O Tiago Cruz (realizador do videoclip) deu forma ao conceito e nós ficámos contentes com o resultado. Foi um ótimo trabalho de equipa.
A letra fala de hipocrisia e responsabilidade pessoal. É algo que surge de experiências vossas ou de observações sobre a sociedade?
A resposta é: ambos. Sentimos que, com o passar dos anos, a sociedade tem se tornado cada vez mais fria, desconectada e egoísta. Vivemos rodeados de contradições e tudo isto acaba por se refletir não só na forma como olhamos para o mundo, mas também no modo como pensamos, sentimos e agimos. O próprio ‘eu’ acaba por ficar igualmente desligado, tornando‑se parte do problema.
A vossa música junta death metal melódico, thrash, black e até alguns elementos folk. Como surgiu esta mistura tão eclética?
Somos pessoas versáteis e com diferentes backgrounds. Mais do que tentar incluir diferentes estilos musicais de forma deliberada, a nossa abordagem tenta refletir o contributo de cada membro, que por sua vez traz as suas próprias influências musicais. O desafio está em garantir que o contributo de cada um faça sentido no grande esquema das coisas, que invariavelmente tem de agradar a todos nós. Não temos uma fórmula nem encaixamos num estilo particular; antes, tentamos produzir algo que seja coerente e fiel à nossa identidade musical.
Quais são os artistas ou bandas que mais vos inspiram, tanto cá em Portugal como lá fora?
Depende de a quem perguntares. Por exemplo: o Frangolho (vocalista) é fã de Arch Enemy, Lamb of God e Asking Alexandria, mas o Caracol (guitarrista) já gosta mais de Trivium, Megadeth e Guns N’ Roses. O Enock (guitarrista) é fã de “As Blood Runs Black”, mas o nosso baixista Luís já curte mais Mastodon. E claro, o nosso baterista Rúben revê-se em bandas como Kalmah. Olhando para influências nacionais, certamente Moonspell e os nossos conterrâneos More Than a Thousand – bandas com as quais crescemos a ouvir.
Sentem que não se prenderem a um subgénero vos dá mais liberdade criativa?
Sem dúvida. Parte do desafio, para nós, está em tentar combinar de forma coerente estilos que à partida não se ligam entre si; é incrivelmente satisfatório fazer com que esses diferentes elementos funcionem. Ligar um solo do estilo anos 80 com um metalcore mais moderno, ou uma secção mais clean e em seguida black metal. Acabamos sempre por descobrir algo de novo, precisamente porque não nos prendemos numa única abordagem. Depende muito das ideias que cada um traz. O importante é que na nossa perspetiva essas combinações façam sentido e que o resultado final seja do nosso agrado.
Este single é a primeira amostra do vosso EP de estreia. O que podem revelar sobre o restante do trabalho?
O nosso EP vai ser composto por 4 temas: “Evil Forest”, “Happy Days”, “Faith Keepers” e “To Give A”. Temas que, juntos, acabam por contar uma história. O EP começa num tom mais folk, o que remonta aos primórdios da banda, quando o nosso conceito era mais fantasioso. Mas há uma evolução, que culmina no single “To Give A”, que segue uma direção mais introspetiva e inspirada em metalcore Mais do que uma amálgama de géneros, o EP reflete sobretudo a personalidade da banda.
Quais foram os maiores desafios enquanto gravavam e produziam este EP?
Passar da sala de ensaio para o estúdio de gravação é difícil. Tanto pelas condições sonoras do espaço de ensaio, que por vezes não nos permite ouvir cada detalhe na perfeição, ou por haver linhas melódicas que afinal não combinam tão bem como julgávamos. Tivemos de nos adaptar a essa diferença. Gravámos no Liver Shutdown Studios e tivemos a ajuda dos produtores João “Corpse” Martins e Jorge Leitner, que foram fantásticos. Ambos tiveram imensa paciência connosco e ajudaram-nos a dar o nosso melhor.
Como têm sentido a receção da cena underground portuguesa até agora?
Ainda é cedo para dizer. O nosso foco agora é lançar o EP e dar mais concertos ao vivo. Mas o feedback tem sido positivo e tem-nos permitido conhecer outras bandas, o que também é essencial para o crescimento saudável da cena underground. Todos acabamos por beneficiar. Também é bom ver que ainda há aí muitas bandas portuguesas com criatividade e qualidade. Temos todo o interesse em explorar a cena underground e tocarmos de norte a sul do país
Cada um de vocês tem funções distintas dentro da banda. Como é que funciona o processo de criação em grupo?
Normalmente os guitarristas trazem ideias ou riffs, mesmo que à partida pareçam aleatórios. Funcionam como uma espécie de esboço, a partir do qual trabalhamos. Também somos fãs de jams (sessões de improviso). Por exemplo, tivemos uma música que começou com uma linha que o vocalista trauteou e a partir da qual todos trabalhámos.
Já pensaram em levar a vossa música para fora de Portugal? Quais são os planos para mostrar o vosso trabalho internacionalmente?
Sim, evidentemente. Apesar de adorarmos tocar ‘em casa’, queremos que o nosso som alcance novos públicos e outras cenas de metal lá fora. Mas somos pragmáticos e reconhecemos que só agora é que deixámos de existir fora do estúdio de ensaios. Por isso queremos primeiro estabelecer-nos nacionalmente e só mais tarde considerar se faz sentido olhar para fora do país.
Formaram a banda em 2020, um período difícil com a pandemia. Como é que isso afetou a banda e a forma como fazem música?
Na altura tínhamos outro vocalista e teclista. Devido às restrições de confinamento da altura, passámos a pandemia a tocar e a fazer sessões de improviso, o que serviu de base para a maior parte das nossas músicas. Eventualmente a pandemia acabou e acabámos também por mudar o nosso vocalista, que passou a ser o atual (Frangolho). Portanto um dos desafios da altura passou por adaptar as músicas ao estilo do nosso novo vocalista. Também deixámos de ter um teclista na banda, que “emigrou” para o centro do país, o que influenciou a nossa mudança de estilo.
Há alguma música vossa que sintam que representa a “alma” da banda?
O single To Give A é uma escolha do Caracol e do vocalista Frangolho, talvez por ser uma música que reflete as influências musicais de cada um dos membros da banda. Mas o nosso baterista Rúben prefere a Evil Forest, que também será o nosso próximo single. Essa música traz alguma nostalgia por refletir melhor a sonoridade da banda na nossa fase puramente folk. Já o Enock prefere a Dark Days, uma música que ainda não lançámos, mas que também tem presença obrigatória na nossa setlist.
Se pudessem escolher qualquer banda ou artista para tocar ou colaborar, quem seria e porquê?
Vasco Ramos (More Than a Thousand), Fily (Neuropsy), Alissa White-Gluz (Arch Enemy) Matt Heafy (Trivium) ou Ronnie Radke (Falling in Reverse) seriam colaborações de sonho.