As estórias de Sun Kil Moon

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Quando a Pitchfork dá a um álbum uma nota acima de oito (de um a 10), há que prestar atenção. Vem aí fenómeno. Foi assim com For Emma, Forever Ago, o primeiro disco de Justin Vernon como Bon Iver (8.1). Foi assim com o segundo disco de Bon Iver (9.5!).

Benji tem dado que falar depois de ter recolhido um simpático 9.2 da Pitchfork. (Da Bíblia.) Este é o novo LP de Sun Kil Moon, projecto de Mark Kozelek, e até agora apontado como um dos melhores do ano. Sim, ainda só estamos em Abril, mas é quase certo que não ficará de fora dos tops de 2014.

Com expectativas elevadas e vontade de descobrir o projecto até agora desconhecido, fomos ouvir Benji ao vivo, em mais uma noite Optimus Clubbing. A Casa da Música, no Porto, falha em encher quando Mark Kozelek sobe ao palco. (Encherá mais tarde quando o cabeça de cartaz, o lendário Thurston Moore, Mr. Sonic Youth, entrar em palco de forma modesta para rasgar sem pudores o tom monocórdico da noite.)

Será este um daqueles fenómenos a que o público só liga quando se tornar mainstream? Uma espécie de Alt-J no Milhões de Festa em 2012 vs. Alt-J no Optimus Alive 2013? A resposta deve chegar no próximo ano. Certo é que Mark Kozelek não é novidade. Conhecemo-lo dos Red House Painters e dos cinco trabalhos como Sun Kil Moon que antecedem o lançamento deste ano.

Fica no ar a dúvida: é Kozelek que conhece melhor Portugal (ainda em Outubro passou por Torres Vedras) ou são os portugueses que moderam o entusiasmo perante um nome já familiar? O concerto que a Casa da Música recebeu a 29 de Março arrancou com esta pergunta. Lá para o meio do espectáculo, Kozelek irá ensaiar uma aproximação à plateia morna, quando falar do típico caldo verde, a que foi buscar nome para a sua editora, e confessar o seu amor por Portugal.

Kozelek é um storyteller e, como Sun Kil Moon, serve-se sem moderação de cordas que desempenham tão bem essa função de pano de fundo para estórias ímpares. No mais recente LP, Kozelek lança-se a completar as guitarras com alguns efeitos sonoros curiosos. Músicas como “Richard Ramirez Died Today of Natural Causes” têm uma sucessão de vozes descoordenadas que nos distraem do conteúdo. Deixamos de acompanhar o que aconteceu a este Richard Ramirez, apenas uma das várias e curiosas personagens apresentadas neste álbum.

Ao vivo, porém, o som é simples e directo: temos apenas a voz limpa e melódica do singer/songwriter, a guitarra e pouco mais. Surpreende (espreitámos mesmo para confirmar se não havia por ali uma loop station) e é um dos episódios que conseguem prender o público ao palco.

O alinhamento terá outros momentos fortes. “Carissa”, que surge logo no início do concerto, é simplesmente bonita, sem rodeios nem enfeites. “Micheline” põe-nos a pensar que estas são músicas perfeitas para bandas sonoras de filmes. A noite acaba por cair numa sucessão de melodias próximas entre si que dão pouca vida aos poemas de Kozelek, autênticas short stories dignas de publicação em livro. O público é acordado com “Dogs”, quando o cantor grita o refrão e devolver às palavras a sua força.

É ajudado por Vasco Espinheira, dos Blind Zero, no segundo conjunto de cordas. As teclas e a bateria ajudam a dar dimensão à música. Quando se ouve “By the Time That I Awoke”, gravada por Kozelek com Jimmy LaValle e lançada em Perils From the Sea, o cantor deixa o lugar central. A sua voz continua a fazer-se ouvir atrás dos restantes músicos e impõem-se: primeiro no palco, depois na plateia e, por fim, na sala. É esta a fórmula que mais nos agrada no universo Sun Kil Moon e que Among the Leaves (2012) tão bem expressa; a confusão de “reverbs” e ecos dá lugar a histórias simples.

De regresso a Benji (e um pouco ao estilo monocórdico que Thurston Moore está prestes a quebrar), surge “I Love My Dad”. Retirada de Benji, é a música escolhida para fechar a noite, que consegue mesmo alguns aplausos de pé. O Porto está satisfeito.

Texto: Filipa Moreno

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