“Este EP é o meu gesto para dizer: Estou aqui! Ouçam-me! Esta é a minha música!”, Cátia Gonçalves

Num tempo em que a autenticidade se afirma como um dos pilares mais fortes da criação artística, Cátia Gonçalves apresenta O Caminho a Seguir como um registo íntimo, cru e profundamente honesto. Entre o R&B, o neo-soul e a pop contemporânea, este EP nasce de um processo emocional intenso, marcado por transformação, vulnerabilidade e afirmação pessoal. Mais do que um conjunto de canções, trata-se de um reflexo direto de quem é enquanto artista e enquanto pessoa — sem filtros, sem máscaras.

Por Sandra Pinto

Ao longo desta conversa, Cátia Gonçalves leva-nos para dentro do seu universo criativo, revelando as histórias, os desafios e as emoções que moldaram este trabalho. Entre momentos de fragilidade e força, a artista partilha o caminho que a trouxe até aqui e a visão que orienta o futuro, num percurso onde a música se assume não só como expressão, mas também como cura e libertação.

“O Caminho a Seguir” apresenta-se quase como um manifesto pessoal. O que sentiste que precisavas de dizer ao mundo neste momento da tua vida artística?
Sinto que este EP é o meu gesto para dizer: “Eu estou aqui! Ouçam-me! Esta é a minha música!”. Foram anos de muita luta até chegar a este momento e, sendo artista independente, todo o processo se torna mais desafiante — até porque nem sempre conseguimos alcançar o número de pessoas que desejamos. Sinto que estou numa fase da minha vida artística em que a minha música já não faz sentido se não for partilhada.
Todo o processo de criar música é mágico, mas poder ver outras pessoas a criar empatia com ela e, acima de tudo, a encontrar conforto nela, é surreal. Refiro muitas vezes que a maior força deste EP é a fragilidade. A fragilidade é uma força, embora, infelizmente, no mundo em que vivemos, nem sempre seja vista dessa forma. Se eu puder contribuir para mudar essa perspetiva, então este EP é, sem dúvida, um passo nesse sentido.
Enquanto artista, a minha postura será sempre sem filtros, sem máscaras e sem barreiras com o público. Foi este o caminho que escolhi desde o início e é o único que faz sentido para mim. A Cátia pessoa nunca estará desvinculada da Cátia artista — e vice-versa. São os meus valores e crenças que movem a minha música. Enquanto este for  o meu mindset artístico, saberei que estou a chegar às pessoas da forma certa e mais genuína possível.

O EP nasce com “Chamo Por Ti” e termina com “Se o Destino”. Pensaste estas cinco faixas como uma narrativa ou como momentos diferentes do mesmo processo emocional?
Há, efetivamente, uma Cátia antes e depois deste EP. O Caminho a Seguir foi um processo profundamente emocional, e as cinco faixas nasceram em momentos distintos desse caminho. Sinto que são diferentes entre si, mas pertencem todas ao mesmo lugar — aquilo a que costumo chamar “a casa da Cátia”. Em nenhum momento pensei nelas como uma narrativa. Na verdade, não pensei de todo no que elas viriam a ser. Quando escrevi cada canção, nunca foi com o intuito de criar um EP — algumas delas, aliás, nunca pensei que viessem a ser lançadas. Escrevi-as pela necessidade emocional que sentia em cada um desses momentos, e hoje poder vê-las fazer parte da vida de outras pessoas é muito gratificante.
“A Chamo Por Ti” foi a primeira canção a nascer neste processo e representa o ponto emocional em que me encontrava no início deste EP. Já a “Se o Destino” foi a última — e simboliza um momento de libertação. Foi, sem dúvida, a música mais pesada emocionalmente para mim. Lembro-me perfeitamente da noite em que a escrevi: cheguei a casa, abri o computador e simplesmente despejei tudo o que sentia, até não restar mais nada por dizer. Quando terminei, não fui capaz de a ouvir durante semanas. Acabei por enviá-la à Rebeca — amiga e pianista — que, como sempre, foi uma das maiores admiradoras das minhas canções. Foi ela, aliás, quem me deu a força necessária para gravá-la. Hoje, é uma das músicas de que mais me orgulho e, para mim, é, sem dúvida, a mais madura.

Falas muito de renascimento e transformação. De que forma os últimos dois anos influenciaram diretamente as canções deste trabalho?
Costumo brincar e dizer que este EP foi parte da minha terapia… e, na verdade, foi mesmo! É incrível o poder que a música tem. Os dois anos em que escrevi estas canções foram especialmente desafiantes a nível pessoal — anos de mudança, crescimento, superação e cura. Cada uma destas músicas nasceu de uma necessidade emocional muito concreta: foram a minha forma de libertação. Muitas vezes, foram também a única maneira de dizer aquilo que não conseguia expressar de outra forma.
São canções muito pessoais, onde me mostro sem filtro, de uma forma crua e humana. Peguei neste processo tão íntimo e transformei-o neste EP. Sem estes dois anos, O Caminho a Seguir não teria nascido.

O título “O Caminho a Seguir” sugere movimento e decisão. Representa mais um ponto de chegada ou o início de uma nova fase?
Sem dúvida que este EP representa o início de uma nova fase. Não acredito em pontos de chegada — em tudo na minha vida gosto de sentir que estou numa caminhada constante, com apenas algumas paragens pelo caminho para recuperar energia…Acredito que a vida nos dá os trilhos, e somos nós que os tornamos mais bonitos. Quando nos entregamos verdadeiramente, a vida acaba sempre por devolver algo em troca. O meu objetivo é simples: ser melhor todos os dias. Este EP marca, sem dúvida, o início de uma nova fase — a melhor até agora, possivelmente o ponto mais alto desta caminhada. Mas, quando olho em frente, sei que ainda há muito caminho por trilhar… e este é apenas o começo.

Referes que na música consegues ser “80”, completamente sem filtros. O que é que a música te permite expressar que antes te era difícil dizer?
As minhas emoções, sem dúvida. Era uma miúda emocionalmente fechada, por vezes difícil de ler. Tinha muita dificuldade em mostrar o que realmente sentia e recorria muitas vezes ao humor para evitar fazê-lo. As canções acabaram por trazer esse equilíbrio numa fase mais jovem — e, com o tempo, foram também responsáveis por me tornar melhor todos os dias. Acredito mesmo que foi a música que me ensinou a não ter medo das minhas emoções. Hoje, sinto-me uma pessoa muito mais madura emocionalmente. É curioso, porque sinto que me tornei melhor compositora à medida que fui crescendo a nível emocional. Sem dúvida que quando deixei de ter medo das emoções, as minhas canções melhoraram a duzentos por cento.

Este EP tem uma forte dimensão de afirmação enquanto mulher. Como é que essa consciência se foi refletindo na tua escrita e na tua interpretação?
Este EP tem, sem dúvida, uma forte dimensão de afirmação enquanto mulher, mas isso acabou por acontecer de forma muito natural. Nunca senti que estivesse a escrever com essa intenção específica — foi mais um reflexo do meu crescimento pessoal e da forma como fui ganhando consciência de quem sou.
À medida que me fui tornando mais segura, mais consciente das minhas emoções e do meu valor, isso começou a refletir-se automaticamente na minha escrita e na forma como interpreto cada canção. Há uma maior honestidade, uma maior entrega e, acima de tudo, uma maior liberdade. Sinto que, hoje, já não tenho medo de ocupar o meu espaço — nem na música, nem enquanto mulher. E isso nota-se tanto nas palavras que escrevo como na forma como as canto.
As minhas influências no R&B e no neo-soul também tiveram um papel muito importante nesse processo. Sempre vi nessas artistas uma força muito grande — não só musical, mas também visual e identitária. Há uma confiança, uma presença e uma liberdade que sempre me inspiraram e que, de alguma forma, também procurei trazer para a minha  própria expressão artística. Este EP acaba por ser um equilíbrio  entre a vulnerabilidade e a força. Mostro as minhas fragilidades, mas também enalteço essa confiança, essa presença, essa afirmação.
É uma forma de dizer que podemos ser sensíveis e, ainda assim, extremamente fortes.

Sentes que este trabalho revela uma versão mais autêntica de ti enquanto artista?
Sim, sem dúvida. Sinto que tenho a minha linguagem artística e musical muito bem definida, e este EP é o reflexo disso. É o resultado de anos a criar, a tocar e a viver muita música — e, claro, também da minha própria biblioteca musical, de tudo aquilo que fui ouvindo e absorvendo ao longo do tempo. Sinto que estou também numa fase da minha vida pessoal em que nunca tive tanta certeza de quem é a Cátia. E esse fator, aliado a uma linguagem artística já bem definida, reflete-se na autenticidade deste EP.

O EP cruza R&B, neo-soul e pop contemporâneo. Como encontraste o equilíbrio entre essas linguagens dentro do teu próprio som?
O EP cruza R&B, neo-soul e pop contemporâneo, mas esse equilíbrio acabou por surgir de forma bastante natural. Durante a minha adolescência, o R&B e o neo-soul inundaram completamente a minha playlist, e essas influências ficaram muito presentes em mim — na forma como sinto a música, na forma como escrevo e até na forma como interpreto. Ao mesmo tempo, o pop contemporâneo acabou por entrar de forma orgânica no meu caminho, até pela forma como hoje em dia consumo música e pela vontade de tornar as canções mais acessíveis e próximas de quem as ouve. A verdade é que nunca senti que estivesse a “forçar” esse equilíbrio. Ele aconteceu porque todas essas referências fazem parte de mim. Quando entrei em estúdio, o objetivo nunca foi misturar géneros de forma pensada, mas sim ser fiel àquilo que sou enquanto artista. Acho que esse equilíbrio vem precisamente daí — de uma identidade já muito enraizada. É a minha forma natural de fazer música, e este EP acaba por ser o reflexo mais honesto disso.

Álbuns como Baduizm ou Brown Sugar tiveram um impacto forte em ti. Que elementos dessas influências sentes que acabaram por entrar naturalmente na tua música?
A primeira música da Erykah Badu que ouvi foi Rimshot do álbum Baduizm, e foi aí que percebi que queria fazer música assim – com aquele feeling, aquele groove, aquela liberdade. Lembro-me de ouvir os álbuns Baduizm e Brown Sugar do D ́Angelo em loop, a analisar cada instrumento, a tentar cantar cada detalhe. Ficava horas a ouvir bateria, baixo, vozes, harmonias… e a tentar reproduzir. Às vezes ficava chateada comigo mesma, porque sentia que não tinha a habilidade técnica para chegar àquilo, mas, ao mesmo tempo, era essa vontade intensa de cantar assim que me fez melhorar. Foi esse fascínio pelo groove, pelos runs, pelo laidback, pela simbiose entre bateria e baixo, e pelas letras cruas que me ensinou a trabalhar a Cátia cantora e artista e a desenvolver a minha própria identidade musical.
No fundo, essas influências entraram na minha música de forma natural, porque foram absorvidas com paixão, estudo e muita repetição. Esta música vai fazer sempre parte da forma como escrevo, canto e interpreto as minhas canções. Uma curiosidade: quando quero lembrar do porquê de ter começado a escrever música, ouço novamente o álbum Baduizm e Brown Sugar – volto à adolescência e volto a sentir a “pica” de querer cantar assim… de querer fazer música assim. Para mim é importante ter este sítio onde voltar emocionalmente.

Como foi descobrir o teu lugar dentro do groove e perceber que esse era o caminho musical que querias seguir?
Descobrir o meu lugar dentro do groove foi um processo muito natural, mas a verdade é que foi sempre o R&B que me puxou. Desde miúda que mergulhava nos meus fones para ouvir os meus artistas preferidos: Ne-yo; D ́Angelo; Erykah Badu; Jill Scott; Jojo, entre outros. Era o groove que me prendia, o laidback, os runs, a confiança dos artistas…sempre foi fascinante pra mim. Sonhava em um dia poder conseguir fazer música assim. Desde cedo que me identifiquei com essa sonoridade — havia ali qualquer coisa que me fazia sentir em casa. Mais tarde, quando tirei o curso de canto jazz, acabei por aprofundar ainda mais a minha relação com a música, principalmente ao nível da liberdade,
da interpretação e da improvisação.
E foi precisamente no neo-soul que senti que encontrei o melhor dos dois mundos. Por um lado, essa base mais orgânica e livre que vem do jazz; por outro, o feeling, o groove e a identidade do R&B que sempre fizeram parte de mim. O groove trouxe-me uma forma diferente de viver a música. Não é só sobre cantar, é sobre sentir, sobre estar dentro do tempo, dos silêncios, da intenção. E isso acabou por moldar muito a minha forma de escrever e interpretar. Nunca senti que estivesse a forçar esse caminho — foi algo que foi crescendo comigo. Quanto mais explorava, mais certo se tornava que era aqui que a minha identidade fazia sentido.

“Chamo Por Ti” foi a primeira canção escrita para o EP e uma das mais vulneráveis. Foi difícil transformar uma experiência tão íntima numa música?
Para mim sempre foi a parte mais fácil do processo. Passar experiências íntimas para música foi o que me moveu a fazer música em primeiro lugar. É a maneira mais intuitiva e confortável para me expressar emocionalmente.

A interpretação vocal foi gravada num único take. O que aconteceu naquele momento em estúdio para que tudo se alinhasse dessa forma?
A voz da “Chamo Por Ti” acabou por ser uma das mais desafiantes deste EP — tanto a nível técnico como emocional. Sendo uma pessoa bastante perfecionista no meu processo criativo, nunca me sentia totalmente satisfeita com o que estava a fazer durante o meu estudo… até que entrei numa fase de saturação. Cheguei mesmo a deixar de cantar a música uma semana antes da gravação, porque comecei a desanimar.
Quando cheguei ao estúdio, estava convencida de que ia ser um processo longo e difícil. Mas no momento em que a Diana e a Rebeca disseram “bora gravar”, aconteceu algo que não estava à espera: nunca tinha entrado tão profundamente na canção. Gravei o take… e, no final, foi como um verdadeiro libertar de emoções. Foi tão avassalador que só me lembro de respirar fundo antes da última frase da canção.
A Diana ajudou-me a confiar que aquele era o take. Por vezes sou demasiado exigente e perfecionista comigo própria e sabia que tinha de confiar nela! Foi uma pessoa que me ajudou a equilibrar o meu perfeccionismo durante todo o processo e foi sem dúvida uma aprendizagem pessoal também nesse sentido.
Há coisas que simplesmente não se explicam. Foi um momento avassalador. Não sei bem o que aconteceu… só sei que, de alguma forma, saí mentalmente do estúdio e mergulhei completamente na música. Só voltei quando o take terminou. É sem dúvida das vozes que mais me orgulha deste EP e quando a ouço volto àquele momento no estúdio.

A canção fala sobre deixar partir alguém e lidar com as consequências dessa decisão. Foi também um processo de libertação pessoal?
Sim, sem dúvida. A “Chamo Por Ti” foi um processo muito profundo de libertação pessoal, mas curiosamente não nasceu de um término — nasceu antes disso. Foi o momento em que comecei realmente a questionar a relação em que estava. Comecei a perguntar-me se estaria melhor sem aquela pessoa, algo que, já é um lugar emocional muito difícil de aceitar. E a música surgiu exatamente dessa pergunta: “como é que me sentiria sem?”.
A canção acabou por ser quase uma projeção emocional. Foi como viver, através da escrita, um cenário que ainda não era real. E isso trouxe uma mistura muito intensa de sentimentos — dúvida, culpa e saudade antecipada. Escrever “Chamo Por Ti” foi uma forma de dar espaço a essas emoções e de as compreender melhor. De certa forma, ajudou-me a perceber onde estava e o que estava a sentir, mesmo antes de tomar qualquer decisão. Hoje vejo esta música como um ponto de viragem — um momento muito honesto em que comecei verdadeiramente a ouvir-me.

Trabalhaste com Diana Martínez e João André na produção. Como foi construir este universo sonoro em conjunto?
Trabalhar com a Diana e com o João foi incrível. Já admirava a Diana como cantora há muitos anos e sentia que era a pessoa certa para confiar as minhas canções. Para mim, que adoro fazer arranjos e tenho uma ideia muito clara do que quero dizer musicalmente, era importante ter alguém que me compreendesse e que acreditasse na minha visão – e a Diana foi exatamente essa pessoa.
Além disso, a Diana tem uma visão musical que admiro imenso, uma capacidade única de construir música e uma sensibilidade inacreditável no processo de produção. Lembro-me de pensar: “se a Diana não aceitar, não tenho segunda opção…” e, quando ela aceitou fazer isto comigo, senti um alívio enorme. Havia dias em que estar no estúdio parecia um parque de diversões musicais, e não consigo imaginar melhor ambiente para criar música.
Foi um processo muito divertido e de muita partilha. A Diana ajudou-me a confiar nas minhas decisões e a equilibrar o meu perfeccionismo, enquanto o João trouxe uma sensibilidade única à produção. No fim, foi um processo honesto, muito verdadeiro, e era exatamente assim que eu queria que a minha música soasse.

Os instrumentos foram gravados com uma energia muito orgânica. Era importante para ti manter essa sensação de proximidade e calor humano no disco?
Era importante para mim manter essa sensação de proximidade e calor humano no disco. Desde o início que sabia que queria que o EP tivesse essa sensação de proximidade — quase como se quem está a ouvir estivesse dentro da sala connosco. Essa intenção vem muito dos álbuns que eu adoro e que sempre me marcaram. Sempre me identifiquei com esse som mais orgânico, quente, onde sentimos os instrumentos e a emoção a acontecer de forma crua e real.
Houve sempre essa preocupação de não polir demasiado. Gosto das pequenas imperfeições, dos detalhes mais humanos — porque são essas coisas que tornam a música mais verdadeira e mais próxima de quem ouve. No fundo, queríamos que o som acompanhasse aquilo que eu sou enquanto artista: algo honesto, sem filtros, e com espaço para sentir. E acho que essa energia mais orgânica foi essencial para conseguir isso.

As cordas em “Chamo Por Ti”, com arranjo de Eduardo Cardinho, dão uma dimensão muito cinematográfica à canção. Como surgiu essa ideia?
A ideia das cordas surgiu numa reunião de pré-produção com a Diana. Estávamos a falar sobre a canção e rapidamente sentimos as duas que aquela balada podia ganhar muito num formato: piano, baixo e cordas. Para mim, era também um sonho antigo — sempre quis ter um arranjo de cordas numa canção minha. Há qualquer coisa nesse som que traz uma profundidade emocional muito especial, quase como se amplificasse tudo aquilo que estamos a sentir. Este EP foi uma concretização de vários sonhos e este foi mais um.
Esta decisão acabou por acontecer de forma muito natural: juntou-se essa vontade pessoal com a necessidade da própria música. E o trabalho do Eduardo veio dar exatamente essa camada que faltava — elevou a canção sem tirar a sua intimidade.

O teu percurso passou por música de rua, bares e diferentes palcos. Que impacto tiveram essas experiências na artista que és hoje?
Essas experiências foram fundamentais para mim. Tocar na rua, bares e diferentes palcos ensinou-me a desenvolver a minha presença em palco, a ler o público e a adaptar-me a qualquer situação — sem nunca perder a minha essência. Cada palco tinha a sua energia, e cada apresentação ajudou-me a perceber quem eu era enquanto artista e como queria comunicar a minha música. Aprendi a lidar com nervos, com imprevistos e com a vulnerabilidade da exposição, o que me tornou muito mais confiante e autêntica no palco.
No fundo, foram estes momentos que me ensinaram que a música não é só sobre técnica ou perfeição, mas sobre partilha — e é exatamente essa partilha honesta que tento levar para cada canção que faço hoje.

Olhando para trás, desde que pegaste na primeira guitarra aos 11 anos, sentes que este EP é um ponto de viragem na tua carreira?
Sim, sinto que este EP marca um ponto de viragem. Desde que peguei na minha primeira guitarra, aos 11 anos, foram muitos anos de aprendizagem, tentativa e erro, descobertas e crescimento. Com “O Caminho a Seguir” sinto que cheguei a um lugar muito mais meu — onde a minha linguagem artística está definida, onde consigo ser completamente honesta comigo mesma e com quem ouve, e onde a minha música reflete quem eu sou de forma completa. É um momento de maturidade, mas também de liberdade — a sensação de estar a caminhar no meu próprio ritmo, de forma crua e verdadeira, e de perceber que este é apenas o começo de tudo o que ainda quero explorar na minha carreira.

Depois de “O Caminho a Seguir”, qual sentes que pode ser o próximo passo artístico para Cátia Gonçalves?
O próximo passo vai ser muito semelhante aos que tenho vindo a dar até agora: continuar a fazer música de forma crua e verdadeira, e ser sempre honesta no processo. É isso que faz sentido para mim e é isso que quero manter. Mais do que pensar num “próximo grande passo”, o meu foco está em evoluir todos os dias — como pessoa e como artista. Enquanto sentir que estou a crescer e a ser fiel a mim própria, sei que estou no caminho certo.

O que gostarias que as pessoas sentissem ou descobrissem em si próprias quando ouvirem este EP?
Gostava que as pessoas se sentissem acompanhadas quando ouvissem este EP. Que percebessem que não estão sozinhas nos sentimentos que têm — seja na dúvida, na saudade, na dor e principalmente nos momentos de mudança/crescimento. Se alguma música conseguir trazer conforto ou fazer alguém sentir-se compreendido, já fico muito feliz. Também queria que fosse um espaço seguro, onde se possa sentir sem filtros, tal como eu senti quando escrevi estas canções. E, se de alguma forma ajudar alguém a olhar para dentro de si, aceitar melhor as suas emoções ou ter coragem para enfrentar coisas que está a evitar… então ainda faz mais sentido. Porque foi exatamente isso que estas músicas fizeram por mim.

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