“Estas músicas habitam uma mente transtornada e são dela manifestações”, J.C. Lopes (This is Lucas)

Depois de mais de duas décadas a construir um percurso na música, J.C. Lopes dá agora um passo decisivo em nome próprio. This is Lucas nasce como um território de liberdade criativa, onde o músico assume sem filtros uma linguagem mais íntima, emocional e experimental. O álbum de estreia, ECHO, é o reflexo desse mergulho interior: um disco que cruza rock alternativo com tensão psicológica, vulnerabilidade e uma estética sonora densa, onde piano, guitarras e sintetizadores coexistem em permanente transformação.

Por Sandra Pinto

Nesta conversa, J.C. Lopes fala sobre identidade, medo, influência e a necessidade de criar um espaço onde as suas ideias pudessem finalmente ecoar sem concessões.

O projeto This is Lucas surge como um projeto a solo depois de mais de 20 anos de experiência. O que motivou este passo e esta nova identidade artística?
A motivação foi crescendo à medida que estas músicas foram ganhando forma e o projeto a sua própria identidade, claramente distinta de trabalhos anteriores e bastante mais pessoal. Foi também um percurso de aprendizagem e evolução, até sentir que tinha a confiança, as competências e os recursos para lhe dar vida.

Que liberdade criativa encontras num projeto a solo que talvez não existisse noutras formações ou colaborações?
Tenho a sorte de ter trabalhado com pessoas de mente aberta, que sempre me deram espaço para experimentar. A grande mudança, para mim, deu-se quando assumi que este projeto se iria realmente concretizar e deixei de tentar encaixar algumas ideias musicais noutros contextos onde, simplesmente, não faziam sentido. Ganharam liberdade no momento em que passaram a ter um espaço próprio.

O álbum ECHO marca a tua estreia com este projeto. Que “eco” é este que querias deixar no ouvinte?
O “eco” está nas mensagens que nos chegam, de perto e de longe, recentes ou antigas, e na forma como essas vozes acabam por moldar aquilo que pensamos, sentimos e fazemos. Gosto também da ideia de que o medo e a vergonha nos levam a esconder as nossas vulnerabilidades, que acabam por só se revelar através do seu eco, do seu reflexo noutra superfície. Há qualquer coisa de poético, mas também de trágico, nessa imagem.

O disco cruza rock alternativo com uma dimensão introspectiva e emocional. Como encontraste esse equilíbrio entre intensidade e vulnerabilidade?
Quis fazer um álbum inequivocamente de rock, mas sem esconder a vulnerabilidade. A intensidade nasce da tensão emocional que atravessa o disco, tanto nas letras como na forma como as músicas evoluem, e o equilíbrio constrói-se através da orquestração, de diferentes camadas, de contrastes e de momentos menos previsíveis, como refrões anticlimáticos, mudanças de tonalidade e longos crescendos.

As influências de bandas como Radiohead, Muse, Placebo e Alt-J são assumidas. De que forma essas referências se transformam numa linguagem própria?
São bandas de que sou, antes de mais, admirador e ouvinte. Fazem parte da minha identidade musical e a sua linguagem está, inevitavelmente, presente quando componho. Neste álbum quis explorar alguns dos espaços que eles ajudaram a definir, mas também descobrir que espaço poderia existir para This is Lucas dentro desse universo.

Em ECHO há uma forte presença de piano, guitarras distorcidas e sintetizadores. Como construíste este universo sonoro tão dinâmico e imprevisível?
Foi uma escolha consciente. Quis que a identidade sonora do álbum fosse construída a partir do piano, da guitarra e dos sintetizadores, sem que nenhum assumisse verdadeiramente o protagonismo – embora o piano seja o motor de todas as músicas. Cada instrumento assume funções diferentes, não só de tema para tema, mas também dentro da mesma música: ora conduz, ora serve de apontamento, dá lugar a um solo ou desaparece por completo. Foi um desafio muito interessante enquanto compositor e obrigou-me a encontrar soluções de orquestração que mantivessem o disco coeso, mas permitissem que cada música se mantivesse em constante movimento.

As letras parecem lidar muito com estados emocionais internos e tensão psicológica. A música funciona também como forma de processamento pessoal?
Estas músicas habitam uma mente transtornada e são dela manifestações, umas mais inteligíveis do que outras. Os estados emocionais e a tensão psicológica que atravessam o disco não são alheios à experiência humana e, naturalmente, também fazem parte da minha. A música acaba por ser uma forma de processar essas inquietações, sim. Escrevo sobre aquilo que conheço, mesmo que de uma forma não literal.

O single f/16 125 aborda ansiedade, vergonha e alienação. Foi importante começares o projeto por esse tipo de temas mais crus?
O f/16 125 faz sentido como primeiro single porque concentra muitos dos elementos que definem o álbum, tanto do ponto de vista temático como sonoro. A ansiedade, a vergonha e a alienação presentes neste tema nascem do mesmo lugar que as fragilidades que encontramos nas restantes faixas do disco, embora cada uma as explore de forma diferente. Foi a melhor forma de apresentar o universo de ECHO.

Em Unlike & Subscribe falas de uma influência externa destrutiva e de resistência. Há aqui uma leitura mais pessoal ou também mais universal?
Existe uma dimensão universal na experiência de sentir que algo (ou alguém) tem uma influência excessiva sobre nós, as nossas decisões e a forma como vivemos. Essa força externa – ou percebida como externa – pode assumir muitas formas. Unlike & Subscribe fala da tentativa de recuperar o controlo, mesmo quando essa força já faz parte de nós e deixamos de confiar na nossa capacidade para resistir.

Como foi o processo de produção entre ti, Leopoldo Lopes e Gonçalo Quintas, e que impacto teve essa colaboração no resultado final?
O contributo do Leopoldo Lopes e do Gonçalo Quintas passou sobretudo pela produção em estúdio, ajudando-me a tomar decisões, a explorar diferentes possibilidades nas vozes e a consolidar a identidade sonora do disco. Foi uma colaboração muito produtiva e uma excelente experiência trabalhar com dois profissionais de enorme qualidade nos Sound Pressure Studios.

A participação de músicos como Duarte Fernandes e Greta Santagata acrescenta novas camadas ao álbum. O que trouxeram ao universo de ECHO?
O Duarte Fernandes trouxe às baterias uma energia e consistência que ajudaram a reforçar a intensidade das músicas, sempre com enorme sensibilidade para o espaço que cada uma precisava. A Greta Santagata deu voz ao spoken word de Unlike & Subscribe, acrescentando uma tensão ainda maior ao tema. A forma como interpreta esse texto tornou-o mais inquietante e deu-lhe uma identidade muito própria.

Com lançamento em digital, CD e vinil, como pensas hoje a forma de escuta e consumo da tua música?
A forma como ouvimos música mudou muito e faz sentido que a distribuição acompanhe essa realidade. O foco principal está nas plataformas digitais, mas quis também editar o álbum em CD e vinil, numa tiragem limitada para quem valoriza o objeto físico e uma escuta mais dedicada. Sendo um artista independente, sem apoios nem distribuidora, percebo que o crescimento do projeto depende muito das pequenas ações de quem ouve: recomendar a música, adicioná-la a uma playlist, seguir as páginas ou partilhar uma canção. Essas interações são uma parte importante da vida de qualquer músico e fazem uma diferença real. O meu desejo é apenas que a música encontre quem esteja disposto a dar-lhe tempo. O resto virá por acréscimo.

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