Entre cruzes invertidas, negritude e blast beats o Lisboa ao Vivo curvou-se perante a grandiosidade dos Mayhem

Há bandas que dão concertos. E há bandas que criam experiências que ficam gravadas na memória. E depois há os Mayhem que no seu regresso a Lisboa, não trouxeram apenas um “simples” alinhamento de músicas, mas presentearam os fãs com décadas de história, controvérsia, dor e reinvenção. No dia 14 de fevereiro de 2026, o LAV – Lisboa ao Vivo transformou-se para receber o encontro entre passado e presente, entre lenda e realidade, onde o black metal deixou de ser apenas som e passou a ser atmosfera, emoção e catarse coletiva.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Na noite do dia dedicado aos namorados, o LAV – Lisboa ao Vivo dispensou os corações, as flores e o cor-de-rosa e vestiu-se de negro, com cruzes invertidas e uma atmosfera densa, transformando-se num verdadeiro templo do black metal. Quem esteve lá sentiu que não era apenas um concerto: era um encontro de almas, quase ritualístico, conduzido pelos mestres da escuridão, a lendária banda norueguesa Mayhem. Formada em 1984 em Oslo, os Mayhem são muito mais do que uma banda de black metal: são uma lenda viva, marcada por tragédias, ousadia e coragem artística. O suicídio do vocalista Dead em 1991, o assassinato do guitarrista fundador Euronymous em 1993 e as histórias que rodeiam a cena black metal da Noruega ajudaram a criar aquela aura quase mítica que acompanha a banda até hoje. Mas, acima de tudo, os Mayhem continuam a fazer música que toca fundo, num lugar e espaço que só os fãs do black metal conseguem alcançar. E foi exatamente isso que vimos em Lisboa. O concerto abriu com “Realm of Endless Misery”, do mais recente álbum “Liturgy Of Death” (2026), mergulhando o público numa atmosfera densa e ritualística. A energia foi imediata: cada riff e cada blast beat reverberavam pelo espaço, e a sensação de estarmos a fazer parte de algo maior era palpável. Seguiram-se “Buried by Time and Dust” e “Bad Blood”, lembrando os fãs do passado turbulento da banda, mas também da força que ainda mantém viva a sua música. Momentos de arrepiar continuaram com “Life Is a Corpse You Drag”, “Ancient Skin” (Wolf’s Lair Abyss, 1997) e “Psywar” (Esoteric Warfare, 2014), mostrando que os Mayhem conseguem unir brutalidade, técnica e emoção de uma forma única. “Freezing Moon” (De Mysteriis Dom Sathanas, 1994) trouxe os clássicos absolutos, enquanto “Cursed in Eternity” e “From the Dark Past” nos lembravam por que esta banda é a referência incontornável do black metal. E, como nos grandes rituais, os encores não desiludiram: “Deathcrush”, “Chainsaw Gutsfuck”, “Carnage” e “Pure Fucking Armageddon” fecharam o espetáculo, lembrando a todos que os Mayhem continuam a desafiar limites, décadas após a sua formação. A performance de Attila Csihar (voz), Necrobutcher (baixo), Hellhammer (bateria), Teloch e Ghul (guitarras) foi visceral. Mas mais do que técnica e precisão, o que se sentia no ar era a paixão e entrega de uma banda que vive cada nota como se fosse a última, e a reciprocidade com o público foi imediata: cada riff, cada blast beat, cada grito, provocava uma onda de energia que parecia atravessar toda a sala. Lisboa, naquela noite, viveu a história dos Mayhem, sentiu o peso das suas tragédias, a intensidade da sua música e a humanidade por trás da lenda. E quem lá esteve  saiu com a certeza de que, apesar das décadas e das controvérsias, os Mayhem continuam vivos, intensos e absolutamente relevantes.

A sala de espetáculos lisboeta transformou-se numa câmara de horrores sónica quando os Marduk atravessaram o limiar do palco com a mesma fúria desmedida que os define desde 1990. Absoluta invocação do caos, estava destinada a todos os fiéis do black metal extremo que, na plateia, não procuravam apenas música, mas um choque direto com a brutalidade primitiva. Fundados por Morgan Håkansson em Norrköping, os Marduk construíram uma reputação de ferro ao longo de mais de três décadas, sem modas passageiras, sem reinventar a roda, apenas com uma postura musical direta, impiedosa e sem concessões. Entre blast beats quase hipnóticos e riffs cortantes como lâminas, a banda esculpiu uma identidade única no black metal europeu: velocidade extrema, agressividade crua e uma intensidade que se sente no estômago. O ritual abriu com “Frontschwein”, faixa-título de Frontschwein, um murro no peito da audiência. Cada acorde evocava a imagem de uma divisão blindada a atravessar a lama: guerra pura, sem filtros. Do mesmo álbum, “The Blond Beast” rebentou com fúria, cada batida sincronizada com o pulso do público, transformando a plateia numa massa de adrenalina concentrada. O set não se limitou ao material recente. Com os primeiros acordes de “Into the Fierce” e “Wolves” (presentes em versões ao vivo e compilações como Infernal Eternal), a sala mergulhou numa atmosfera sufocante: esta noite não havia retorno. “Throne of Rats” intensificou a tensão, combinando precisão cirúrgica com agressividade total. A visceralidade prosseguiu com “Shovel Beats Sceptre”, de Memento Mori, prova de que os Marduk mantêm fogo nas veias e criatividade que desafia expectativas de uma carreira monumental. A plateia não só vibrava, mas cada riff cravava-se na pele e na mente de quem assistia. Quando soaram os primeiros acordes de “Panzer Division Marduk”, do clássico de 1999, a sala explodiu. Esta faixa não é apenas música; é uma declaração de supremacia, um rugido de máquina de guerra a ecoar no coração do LAV, inspirando gerações de bandas e fãs. “On Darkened Wings”, “Sulphur Souls” e “Infernal Eternal” mantiveram a intensidade, explorando diferentes nuances do black metal: da morte iminente ao caos absoluto. Brutalidade nua e crua, e a audiência respondeu à altura. No fim, quando “Panzer Division Marduk” e “The Blond Beast” encerraram a noite, ficou claro: os Marduk não vieram a Lisboa apenas para tocar, vieram declarar supremacia musical. Décadas depois, respiram, vivem e dominam o black metal com uma integridade e ferocidade que poucos conseguem igualar, mas que ao vivo se tornam quase tangíveis.

Quando os colossais Immolation subiram a palco deu-se início a um autêntico ritual de devastação conduzido por uma das bandas que ajudou a definir o death metal desde 1986. Vindos de Yonkers, Nova Iorque, trazem quase quatro décadas de resistência subterrânea e cada segundo dessa história sentiu-se como um murro no estômago. Nada de pirotecnia, nada de discursos ensaiados. Só som, peso e convicção absoluta. Ross Dolan manteve-se firme como um general veterano, debitando linhas vocais profundas e cavernosas com uma autoridade natural, enquanto Robert Vigna disparava riffs dissonantes e sufocantes que pareciam comprimir o ar da sala. Na retaguarda, Steve Shalaty impôs uma bateria precisa como um relógio suíço, e Alex Bouks reforçou a muralha sónica com uma solidez esmagadora. Técnica irrepreensível, sim mas, acima de tudo, entrega total. O alinhamento foi uma viagem pelas entranhas da discografia. “Into Everlasting Fire”, retirada do clássico Dawn of Possession, trouxe o sabor cru e visceral dos primórdios do death metal americano. A densidade atmosférica de Here in After elevou o nível de complexidade, enquanto Close to a World Below mergulhou o público num abismo sombrio e quase espiritual. Quando ecoaram os primeiros acordes de Harnessing Ruin, a energia na sala já era elétrica: cabeças a abanar em uníssono, corpos colados ao ritmo implacável. E se alguém ainda duvidava da relevância atual da banda, os temas mais recentes trataram de dissipar qualquer hesitação. Atonement soou feroz e contemporâneo, e Acts of God confirmou uma banda madura, segura da sua identidade, mas longe de amolecer. Há uma confiança tranquila na forma como executam cada passagem técnica, cada explosão brutal, como veteranos que sabem exatamente o impacto que provocam. O público lisboeta respondeu com respeito e intensidade, por entre punhos erguidos e olhares fixos no palco num puro reconhecimento da importância do que estavam a viver. Mas também reconhecimento por um percurso construído com consistência, longe de modas e atalhos fáceis por parte da banda. A atuação dos Immolation em Lisboa não foi apenas pesada, foi sentida. Um lembrete de que o verdadeiro death metal vive da integridade, da entrega e da capacidade de continuar a evoluir sem trair as próprias raízes. Quase quarenta anos depois, continuam a soar perigosamente essenciais.

Mayhem

Marduk

Immolation

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