“É de todo importante que, como sociedade, consigamos promover a imperfeição, o sujo, o não formatado. Afinal de contas, é metade daquilo que nos torna humanos”

E se uma festa pudesse ser também um lugar de encontro? É a partir dessa ideia que nasce ARRAIAL, a nova criação da Outra Voz. Um espectáculo que junta música, dança e diferentes comunidades para transformar memórias, tradições e canções de várias geografias numa experiência colectiva. Aqui, não há preocupação em apagar diferenças ou procurar uma perfeição artificial. Pelo contrário: a desafinação, o ruído, a espontaneidade e as diferentes vozes fazem parte daquilo que torna esta criação verdadeiramente humana.

Por Sandra Pinto

Ao longo de 16 anos, a Outra Voz tem construído o seu trabalho a partir da participação e da proximidade com as comunidades. Em ARRAIAL, esse percurso ganha uma nova forma, cruzando músicas trazidas por participantes de diferentes origens com novas composições, dança e electrónica. O resultado é pensado como uma celebração, mas também como uma oportunidade para olhar para o outro e perceber aquilo que ainda temos em comum. Antes das apresentações em Guimarães e Vila Real, conversámos com a Outra Voz sobre a criação de ARRAIAL, a importância de manter viva a tradição através da transformação, o poder da arte para aproximar comunidades e aquilo que pode acontecer quando muitas vozes diferentes decidem cantar juntas.

O que esteve na origem de ARRAIAL e que ideia queriam colocar no centro desta nova criação da Outra Voz?
Na origem de ARRAIAL está a criação de um local de partilha que parte de um exercício democrático (o que querem os nossos participantes cantar), construtivo (o que conseguimos compor a partir do que os nossos participantes querem dizer sobre esta temática em particular) e investigativo / curatorial (que temas fazem sentido cantar neste momento, pela sua natureza estética e pela sua pertinência, dado o momento sociocultural que atravessamos). Esta parece-nos uma amálgama justa para os tempos que correm, que discorre também sobre o processo de criação. No final, o resultado é uma festa. 
Independentemente do caminho que o romeiro faça, no final há sempre lugar para a celebração. Seja a celebração da superação das dificuldades que nos surgiram, ou simplesmente a celebração de que a vida é demasiado efémera para não ser partilhada com generosidade.

A proposta parte da recolha de músicas festivas das diferentes comunidades presentes nos territórios onde trabalham. Como foi esse processo de pesquisa e descoberta?
Ao longo dos nossos 16 anos de atividade, o processo de recolha junto dos nossos participantes é permanente. Mas, no caso do ARRAIAL, partimos do pressuposto de que o local que habitamos é hoje ainda mais partilhado por pessoas que procuram esta área geográfica para se fixarem e, por tal, um arraial pode contemplar a inclusão de música festiva que represente essas diferentes proveniências geográficas e que compõem o aglomerado em constante mutação a que chamamos de comunidade. Daí que contactámos uma turma de Alunos de Português – Língua de Acolhimento da Escola Secundária Francisco de Holanda, um dos nossos parceiros regulares, e envolvemo-los no processo.
Realizámos sessões de voz / movimento com a Teresa Melo Campos e provocámo-los a trazer-nos músicas festivas das suas origens que, depois, incorporámos no repertório da nossa criação.

Como se transforma uma música tradicional, carregada de memória e identidade, numa nova criação colectiva sem perder a sua essência?
Muitas vezes podemos ter a tendência de imaginar a música tradicional como um vetor cristalizado. Na verdade, a música popular é, e sempre foi, uma amálgama que reflete um certo momento sociocultural. Como este repertório passou por um processo partilhado de seleção entre participantes, alunos e direção artística, teríamos de ter alguém capaz de olhar para os temas e adaptá-los sem preconceitos para os instrumentos que temos no ensemble. Conseguimos isso com o António José Martins, que é uma lenda da música nacional. Um músico / produtor / arranjador / percussionista com uma obra interminável associada a nomes como Fausto, Amélia Muge, José Mário Branco, Trovante, Sérgio Godinho. Os arranjos que fez para a nossa criação são de um apuro estético luxuoso. Para além dele, convidámos a Clélia Colonna, que é uma compositora da nova geração com experiência mais associada à música, performance e dança experimentais e contemporâneas, e que compôs paisagens sonoras eletrónicas para o ARRAIAL.
Em suma, entendemos a música como um corpo em contínuo crescimento, evolução, adaptação e reinterpretação. É esse, aliás, o grande legado deixado pelos cantautores portugueses: não ter medo da miscigenação musical. E isso é criar contributos para aquilo
que no futuro será, o que chamamos de tradição.

Entendemos a música como um corpo em contínuo crescimento, evolução, adaptação e reinterpretação

ARRAIAL cruza música e dança e conta com a participação da Academia de Bailado de Guimarães e da Sociedade Musical de Pevidém. Como se construiu este diálogo entre diferentes grupos e linguagens artísticas?
No primeiro caso, confiámos no trabalho de uma coreógrafa de referência da nova geração, como é o caso da Maria R. Soares. Ela foi também professora da Academia no início da carreira. Depois, o lado comunitário está super bem espelhado na relação da Academia com a Outra Voz. As duas instituições caminham juntas, de mãos dadas, desde o início da Outra Voz. Isto porque a Academia de Bailado é um daqueles fenómenos muito claros de uma entidade cultural com um profundo compromisso com o serviço público. Acolheram o
nosso projeto de “olhos fechados”, logo desde o início. E para além disso, os responsáveis Rui Donas e Helena Sousa são participantes dos nossos espetáculos. Os filhos já fizeram parte do grupo. E quando assim é, tudo é mais precioso.
No caso da Sociedade Musical de Pevidém, foi o reconhecimento de irmos trilhando percursos paralelos, e daí que eles sejam, desde há uns anos para cá, abrigo de um dos nossos grupos de ensaios. Até porque há elementos comuns, como por exemplo alguns dos nossos diretores corais que fizeram lá a sua formação e ainda hoje fazem parte da banda.
Outro caso de enorme compromisso contínuo com a comunidade. É uma sorte termos parceiros assim. E muitos. Temos parcerias que resultam em grupos de ensaio nas Juntas de Freguesia de Briteiros, Lordelo, Nespereira, no Centro Recreativo Cultural e Artístico de
São Torcato e na Academia de Música de Cabeceiras de Basto. É um modelo de proximidade para facilitarmos o acesso à Outra Voz aos cidadãos do concelho de Guimarães e concelhos limítrofes.

O conceito de comunidade está no ADN da Outra Voz desde 2010. O que aprenderam ao longo destes anos sobre a importância da criação artística feita com, e não apenas para, as comunidades?
Cada um retira uma miríade de ensinamentos pelo seu envolvimento com projetos desta natureza. Eu julgo que o mais importante que terei aprendido é que a construção em coletivo contribui decisivamente para a criação de uma maior sensibilidade para com o outro. E que este processo está continuamente em mudança e fricção, na medida em que compreender o outro depende de um maior autoconhecimento de cada um. Abrir estes processos a todos, sem exceções, abre a possibilidade de impactar a sociedade de uma forma mais estrutural e harmoniosa. E podem ser transformações de fundo que contribuem para moldar a nossa realidade futura.

Falam de ARRAIAL como um espaço onde se suspendem barreiras, inibições e julgamentos. Como é que essa ideia se traduz concretamente em palco?
Esse é o grande desafio. Como se encena um ritual de celebração festivo? Como se constrói algo tão natural a toda a humanidade como nos perdermos, nos libertarmos para connosco e para com os outros e essa partilha somar-se e resultar em algo elétrico e vibrante? Apenas podemos trabalhar nesse sentido. Promover as condições para que isso ocorra. Com uma profunda crença no que temos vindo a conceber ao longo do nosso percurso.
E a verdade é que, “no final do dia”, a grande maioria dos participantes da Outra Voz acaba sempre por se transcender. O compromisso que eles assumem é sério. Perdi a conta ao número de vezes que partilharam comigo, ao longo dos anos, que quando assumem um compromisso, levam-no até ao fim. Nos dias em que vivemos, chega a ser comovente viver rodeado destes princípios e valores.

A criação assume a imperfeição e a diferença como elementos artísticos. Porque era importante não procurar uma ideia de perfeição neste espectáculo?
É de notar que o “outra” também está associado à ideia de uma voz não polida, não afinada, ruidosa, áspera, uma “voz feia”. Demetrios Stratos argumentava que a voz humana estava (e continua) desprovida de grande parte da sua função social de comunicar. Dizia que a voz já não comunicava nada. Estava remetida a uma monofonia aprisionadora ou a polimentos estéticos que debilitavam o seu potencial. Isto tem um particular interesse em projetos de comunidade, uma vez que permite que se abrace o ruído e a desafinação, ou, convenhamos, normas estéticas que não vigoram na nossa cultura. E isso permite incluir.
Por isso, as apresentações da Outra Voz são um espaço limite onde a regra, a encenação e a liberdade e espontaneidade dos participantes vão tentando conviver. É de todo importante que, como sociedade, consigamos promover a imperfeição, o sujo, o não formatado. Afinal de contas, é metade daquilo que nos torna humanos.

Num momento em que existem tantas tensões sociais e culturais, pode a arte funcionar efectivamente como um espaço de aproximação entre comunidades?
Pode e deve. Essa é a forma salutar de resolver diferenças. A imagem de um ARRAIAL, em que todos podem dançar, cantar as músicas de todos, aproxima-nos do que é essencial e comum à humanidade quando cada vez parece, quase óbvio, que só o amor a poderá salvar.

Que histórias, memórias ou encontros surgiram durante o processo de criação que acabaram por surpreender a própria equipa?
Existirão imensas. Pelo meio do turbilhão de tantas vidas que nos rodeiam… Posso partilhar uma que me é muito querida. Numa das sessões que levámos a cabo com a turma de Alunos de Português – Língua de Acolhimento, a um determinado momento, observar todas aquelas diferentes nacionalidades, imaginar as diferentes histórias de vida e os percursos que os terão levado ali e vê-los todos a tentar, cada um à sua maneira, cantar uma cantiga tradicional portuguesa… sendo eu próprio filho de emigrantes, senti-me arrebatado, mas também se me encheu o peito de esperança.

Ss apresentações da Outra Voz são um espaço limite onde a regra, a encenação e a liberdade e espontaneidade dos participantes vão tentando conviver.

A palavra “arraial” remete imediatamente para festa, encontro e tradição. Que significado quiseram recuperar ou reinventar através deste conceito?
É uma abordagem conceptual à ideia de celebração num sentido mais lato, porque não estamos a fazer um Arraial e sim a criar em torno dessa noção. Aí cabem formas de celebração que têm raízes longínquas e outras que são das novas gerações. É um arco que pretende abraçar todos porque, se há algo que de facto é fundamental, sobretudo nos dias de hoje, é não nos abandonarmos ao isolamento, por mais tentador que isso possa parecer.
Em primeiro lugar, pelos participantes que criam ligações que trespassam a porta da sala de ensaio. E depois por contágio, para o público geral, por se reconhecer de uma forma muito mais direta nos rostos dos que compõem o colorido que é a Outra Voz.

A Outra Voz tem um percurso de colaboração com artistas de áreas e linguagens muito diferentes. De que forma essa experiência acumulada influenciou ARRAIAL?
Se, por um lado, é um fator de difícil mensuração – o perceber como este percurso de diferentes experiências tem influência no trabalho que fazemos –, a verdade é que julgo que o que conseguimos é que exista uma horizontalização das relações hierárquicas entre responsáveis, artistas e participantes. Resulta disso um ambiente de trabalho cujos interstícios são um caldo de pessoas muito diversas a partilhar ideias, independentemente do seu papel na criação. A meu ver, é um dos aspetos essenciais do projeto.

O espectáculo apresenta-se em Guimarães e Vila Real, em espaços com características muito distintas. A criação adapta-se a cada território ou é também importante deixar que cada lugar transforme o espectáculo?
O espetáculo adapta-se aos espaços propostos, dado que estes têm uma influência direta na dinâmica de movimentações do grupo. De resto, tentamos trabalhar na dimensão do que acreditamos ser do âmbito de uma semiótica universal. Algo que possa ser sentido por todos, independentemente da sua proveniência, formação ou sensibilidade.

Depois destas duas apresentações, o que gostariam que ficasse no público: uma memória das músicas e tradições que ouviu, uma experiência colectiva ou, sobretudo, a vontade de continuar a encontrar-se com o outro?
Sobretudo a experiência coletiva e um sentimento renovado de preocupação real pelo outro, em detrimento de um permanente foco nos nossos problemas pessoais. Ver o que os participantes, músicos e criadores fazem em cada apresentação da Outra Voz é deparar-se com algo que é altamente improvável. E, mesmo assim, possível pela vontade expressa de um conjunto de seres humanos apostados em viver a vida de uma forma diferente. O que para nós é a melhor forma de provarmos ao mundo que viver a vida de uma forma diferente está ao alcance de todos.

20 de setembro | 18h00
Hall das Salas de Ensaio do Teatro Jordão, Guimarães
Entrada livre

3 de outubro | 18h00
Casa de Mateus, Vila Real
Entrada livre

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