Do clássico ao inesperado: o concerto “Underground” dos UHF no Lisboa ao Vivo
Os UHF provaram, mais uma vez, por que continuam a ser uma referência incontornável do rock nacional com o concerto “Underground”, que percorreu os clássicos da banda e mergulhou em temas menos conhecidos do público. Liderados pelo carismático António Manuel Ribeiro, os UHF criaram uma experiência que é simultaneamente nostálgica e surpreendente, uma verdadeira celebração da longevidade artística e da vitalidade do rock português.
Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro
Formada em 1978, a banda rapidamente se destacou na cena musical portuguesa ao lado de grupos como Xutos & Pontapés, trazendo um rock cru, direto e com letras em português que refletiam a vida urbana e as inquietações da sociedade pós-revolução. Ao longo das décadas, os UHF construíram um repertório sólido, equilibrando hinos de culto, como Cavalos de Corrida e Rua do Carmo, com temas menos óbvios que revelam uma faceta mais introspetiva e poética da banda.
O espetáculo abriu com O Truque é Morrer Cedo, faixa que revisita a ironia e o existencialismo que marcaram os anos mais recentes da banda, antes de mergulhar em hinos de culto como Acende o Isqueiro (Noites Negras de Azul, 1988) e Concerto (À Flor da Pele, 1981). Cada canção trouxe uma narrativa própria: Lisboa Hotel retratou a cidade com uma sensibilidade cinematográfica, enquanto Geraldine e Puseste o Diabo em Mim exploraram relações humanas e conflitos íntimos com intensidade emocional.
O alinhamento destacou também a vertente social e crítica da banda. Faixas como Vernáculo (Para um Homem Comum) e Jorge Morreu evidenciam o olhar atento dos UHF sobre a sociedade portuguesa, sem nunca perder a energia e a autenticidade que caracterizam o grupo. Ao mesmo tempo, temas como Quero Sair Vivo (Deste Mundo Menor) e Estou de Passagem trouxeram reflexões sobre a vida e a passagem do tempo, mostrando a maturidade artística de António Manuel Ribeiro e companhia.
O encore foi uma explosão de clássicos que marcaram gerações: Cavalos de Corrida e Rua do Carmo, ambos de À Flor da Pele (1981), reforçaram a ligação histórica da banda com o rock nacional, enquanto Hey! Hey! (Bora Lá!) em versão acústica trouxe um momento íntimo e próximo do público, reforçando a versatilidade da banda ao vivo.
Mais do que um concerto, “Underground” foi uma viagem pelos mais de 40 anos de carreira dos UHF, equilibrando nostalgia e novidade, clássicos e raridades. Uma prova de que, no panorama do rock português, os UHF continuam a ditar o compasso, mantendo-se fiéis à sua identidade e à sua capacidade de criar experiências memoráveis em palco.