dEUS na Aula Magna ou a beleza da música

“Soft Electric Tour” assim se chamou a tournée que em boa hora trouxe de volta os belgas dEUS a Lisboa para um concerto intimo, intenso e inesquecível.

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Não foram uma nem duas, nem tão pouco três ou quatro, as vezes que já os vimos. Contam-se pelos dedos de uma mão mas nenhuma foi igual ou sequer semelhante à que vivemos ontem na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa. Apelidada de “Soft Electric Tour”, a digressão que, depois de um concerto super eletrizante num festival de verão lisboeta julho passado, mostrou o lado mais calmo e intimista da banda liderada pelo carismático Tom Barman.

Cá fora uma fila composta por verdadeiros fãs que entre si trocavam memórias de concertos anteriores, revelando alguma expectativa para o que se iria passar momentos depois. A entrada no anfiteatro universitário foi-se fazendo lentamente ao som das escolhas musicais de Aldo Struyf, com o público a revelar uma crescente ansiedade.

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Em palco quatro bancos, indício evidente de um concerto com contornos quase acústicos, mas que no final se veio a revelar com momentos emocionalmente eletrizantes e intensos. «Bem-vindos ao último concerto da tour», diz Tom Barman ao entrar em palco, revelando com algum humor, «não vou falar português, senão teríamos um espetáculo de comédia». Sobre a tour, o vocalista explicou que «ao longo da nossa carreira temos escrito algumas canções mais calmas», o que, de acordo com Tom, levou a que alguns amigos fizessem o reparo de as mesmas nunca terem sido tocadas ao vivo, «há algum tempo perguntaram porque nunca as incluíamos nos alinhamentos, pois bem foi essa a dica para estarmos aqui hoje com a “Soft Electric Tour”.

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“Wake me up before I sleep”, do álbum “In a Bar, Under the Sea”, de 1996, foi a primeira de um alinhamento que viria a ganhar consistência e contornos de perfeito. No final, as primeiras das muitas palmas que iriam ecoar pela Aula Magna e que voltaram quatro minutos depois, mal terminou “The Real Sugar”, incluída no registo “Pocket Revolution”, de 2005.
«Obrigado», fala Tom, confessando que «estamos muito felizes por voltar a tocar nesta sala e da forma para a qual ela foi concebida, ou seja, com vocês ai sentados. Se das outras vezes vos pedimos que se levantassem e viessem para mais perto de nós, hoje peço, delicadamente, que permaneçam sentados».

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“Let’s build a cult of two. Like a cop that needs a clue. I want to infiltrate in you” e entrava em cena “Eternal Woman”, vinda diretamente do trabalho de 2008, “Vantage Point”. «Vamos tocar agora uma música que nunca tocámos ao vivo, pelo que esta é uma excelente ocasião para o fazer», conta Tom, revelando que «o seu título é retirado de um filme dirigido por Fritz Lang e protagonizado por Brigitte Bardot», fazendo referência a “Include Me Out”, nova visita ao quarto álbum da banda, “Pocket Revolution”. “Magdalena” surge na altura certa de um alinhamento que já tinha ganho a atenção e a rendição de todos os que não esgotando, enchiam quase por completo as cadeiras do anfiteatro lisboeta. A sétima faixa do incrível registo discográfico “The Ideal Crash”, lançado no dia 30 de dezembro de 1998, atingiu em cheio o coração do público, o que bem se percebeu pelas palmas que se voltaram a ouvir e que levaram Tom a repetir «obrigado».

«A música que vamos tocar a seguir é uma das canções que escrevi para o meu pai quando ela morreu», revela Tom sobre “Right As Rain” cuja letra transporta uma emoção poderosa, «I’m the same by name; I had a friend called ‘generous bilby’; He was the same by name; His only advice was that he died; While I did a little dance; Dust to dust the preacher sighted; I did a little cry». No final a emoção foi sentida por todos, levando Tom a agradecer com um «muito obrigado».

O alinhamento teve continuidade com “Nothings”, «do nosso primeiro álbum», afirma Barman numa referência a “Worst Case Scenario”, lançado em 1994, três anos depois do nascimento da banda, na cidade belga de Antuérpia. Conhecidos pelas atuações eletrizantes onde as guitarras rasgam o ambiente, com esta tournée os dEUS mostraram um lado mais calmo, sensível até. Sem recorrerem a outros elementos que não a sua música, apresentaram-se num palco desnudo mostrando o cenário original de uma sala que tantos e bons momentos musicais já acolheu, bem como importantes instantes da nossa história enquanto país.

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Depois de “Constant Now” de “Keep You Close”, registo que viu a luz do dia em 2011, nova visita ao trabalho de 2005, com “7 Days, 7 Weeks”, não sem antes Tom afirmar, «é sempre um prazer estar aqui», revelando de seguida que «esta música foi escrita para a minha irmã, mas ela não ficou muito impressionada». Sabíamos pelo alinhamento dos concertos anteriores que estávamos mais ou menos a meio, pelo que olhámos em volta e percebemos que os belgas estavam ser bem sucedidos na tarefa da noite. Os rostos em nosso redor mostravam uma entrega à música que, sem apelo nem agravo, transbordava do palco diretamente para os nossos ouvidos e, sem pedir autorização, entrava pelos nossos poros inundando a pele de uma agradável sensação de felicidade, aquela felicidade que só a música pode trazer.

“Sirens” trouxe para o concerto o mais recente registo discográfico da banda “Following Sea”, editado em junho de 2012, no seguimento da qual Tom afirmou «estamos sempre a saltar no tempo», numa evidente alusão às datas das músicas que vão desfilando pelo palco da Aula Magna, «a próxima», diz Tom, chama-se «Secret Hell», canção que nos leva de novo até 1994 e ao primeiro álbum da banda.

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Com os músicos de costas para o público, virados para a bateria de Stéphane Misseghers voltamos a “Vantage Point” com “Smokers Reflect”, no fim da qual Tom «revela que o concerto é curto, pelo menos assim nos parece, pelo que estamos quase no fim», ao que alguém atrás de nós grita «é uma piada?», obtendo resposta pronta do palco, «o que é uma piada? a vida? a vida não é uma piada e parece que alguém não tomou a medicação», o que levou a uma gargalhada geral por parte do público.

A duas músicas do fim concerto, a emoção crescia, intensificava-se, adensando no ambiente uma expetativa crescente pelas músicas que estariam para chegar. Parecendo sentir isso mesmo Tom afirma «a próxima é…bom, já vão ouvir», estendendo assim a passadeira vermelha a “The Magic Hour”, belíssima música de “The Ideal Crash””, o tal álbum que lá atrás neste humilde texto apelidámos de incrível.

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Apesar da declaração de intenções firmada no princípio da noite, Tom não resistiu e perante uma torrente de palmas afirmou em bom português «muito obrigado Lisboa, temos mais uma canção para vocês», aquela que nós esperámos ouvir em cada um dos quatro concertos anteriores e que nunca chegou. Falamos de “Nothing Really Ends”, música do álbum de 2005 e que, desculpem a ousadia, é para nós um momento maior da criação dos belgas. Cada acorde, cada nota transporta ali, naquele espaço, naquela sala uma aura de perfeição, de intensidade que lhe conhecemos em disco. Cada palavra cantada por Tom, cada nota tocada em “Nothing Really Ends” fazem dela “a” nossa música, “Do you still love me?; Do you feel the same; Do I have a chance; Of doing that old dance; With someone I’ve been; Pushing away»…

Absolutamente rendido, o público aplaude de pé, «muito muito obrigado, Lisboa», afirma Tom de sorriso no rosto enquanto com os companheiros sai do palco. Escusado será dizer que ninguém arredou pé, fazendo deste um encore memorável, e no qual se ouviram “Bad Timing”, de “Pocket Revolution” e “Serpentine”, de “In a Bar, Under the Sea”, lançado em 1996. Com o público a fazer coro, as palavras «Let’s do it serpentine any time; Let’s do it right here; Let’s do it serpentine, I don’t mind; Let’s do it right here» ecoaram pela Aula Magna como uma promessa de amor eterno entre a banda e os seus fãs. Escusado será dizer que foi muito bonito.

Antes de sair, Tom volta a agradecer e lança a todos um desafio «vamos sair daqui para o Cais do Sodré, convido-vos a vir até ao Roterdão e continuar a festa», os que foram, sabemos hoje, não se arrependeram.
A verdade é que já sem a banda em palco, ninguém saiu da sala, permanecendo de pé a bater palmas. Regressam para as despedidas finais que não podiam ter sido, obviamente, feitas ao som de outro registo que não “The Ideal Crash”, desta feita com com “Dream Sequence #1”, e com Tom a apresentar os companheiros «Klaas Janzoons, no violino e nas teclas, Stéphane Misseghers, na bateria e voz, Mauro Pawçowski, na guitarra, e Alan Gevaert, no baixo».

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É complicado falar de música? Sim, em especial se tivermos em conta a subjetividade implicada nos gostos de cada pessoa. Independentemente disso, terminamos afirmando com convicção que os dEUS são uma das melhores e mais consistentes bandas das últimas décadas. Têm sabido gerir a sua carreira aplicando golpes certeiros no coração dos fãs, e ontem aplicaram mais um com um concerto inesperado mas intensamente delicioso. «Muito obrigado», repete mais uma vez Tom Barman, despedindo-se com um, em bom português, «até já».

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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