Deixar Tirana. Como se faz?

Acordo de manhã ainda sem a certeza se um dia bastará para fazer o percurso Tirana – Dubrovnik. Ao longo do dia, a viagem acabará por decidir por mim, da forma mais inesperada possível.

O primeiro passo, para deixar Tirana, é apanhar uma furgoneta que não tem hora de partida. “Parte quando estiver cheia”, avisam-me. O destino é Shkodër, quase na fronteira com o Montenegro. Eu, um nova-iorquino, dois alemães, sete albaneses e estamos prontos para ir! Chegados ao destino, perguntam-nos, em italiano, onde queremos ir. Opto por Podgorica, imaginando que, da capital do Montenegro, terei mais oportunidades para seguir para a Croácia. O motorista diz-me para seguir uma senhora com ar de quem-veste-as-calças-lá-em-casa-sou-eu.

Entramos numa nova furgoneta. A senhora faz-me sinal para me enchouriçar entre ela e o motorista, no banco da frente, quando todos os outros lugares estão vazios. Confio nela, apesar da minha claustrofobia se começar a manifestar. A senhora repara – e ainda que não tenhamos nenhuma língua em comum – oferece-me água. Partimos e a condução distrai-me de qualquer outra preocupação (ainda para mais quando seguimos todos sem cinto). Confio no motorista, imaginando que faz este percurso todos os dias.

A viagem segue a um passo mastigado ao ritmo das necessidades de quem vai apanhando a furgoneta pelo caminho: para-se onde os passageiros querem ficar e onde outros levantam a mão a pedir para seguir viagem, para-se para se aviar o que é preciso nas lojas, para-se para meter conversa com um conhecido.  Neste ponto, já me despeço das pessoas que vão saindo, levo no colo o pão da senhora que toma conta de mim desde Shkodër e levanto o polegar ao motorista cada vez que, com arte, contorna mais um buraco na estrada.

Vou embalada neste ritmo quando chegamos a fronteira e me fazem vários sinais. Nem me preocupo em interpretar o que me querem dizer, porque me parece óbvio – tiro o passaporte. Recebo olhares de estranheza. “Lekë”, diz-me a senhora enquanto faz o gesto universal de ‘dinheiro’ e aponta para o motorista. Três euros depois, a minha mochila já vai lá à frente carregada por um senhor velhote. Despeço-me apressadamente sem lhes agradecer como merecem. O que me estavam a dizer é que, a partir dali, tinha de seguir à boleia. Eu e o senhor velhote tivemos sorte: o primeiro carro que tentamos aceita levar-me.

De janelas abertas, com música alta e a fumar um cigarro. Assim se apresenta E., um ator macedónio que deve estar nos seus 60 ou 70 anos.“Obriga-me” a desenferrujar o meu francês, numa viagem onde me chama a atenção para a paisagem e até faz um desvio para me mostrar a antiga capital do Montenegro, Cetinje. Acabo o dia a mergulhar no Adriático, em Budva, no Montenegro. A Croácia pode esperar.

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