Deafheaven na República da Música: o sublime caos de uma experiência hipnótica

Os Deafheaven trouxeram a Lisboa um concerto que foi muito mais do que música: foi uma viagem emocional feita de luz e sombra, peso e serenidade, capaz de envolver todos os que encheram a República da Música transportando-nos para um universo paralelo de onde todos saímos mais completos e mais felizes.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Há concertos que não são apenas para ser ouvidos. Muito mais do que isso são para ser sentidos. A atuação dos Deafheaven na República da Música, em Lisboa, foi um desses momentos raros em que uma banda consegue transformar uma sala de concertos num espaço de comunhão emocional, oscilando entre a brutalidade sonora e uma beleza quase etérea. A sala encheu-se cedo, e a expectativa era palpável. Afinal, falamos de uma banda que, desde a sua formação em 2010 na Baía de São Francisco, tem vindo a redefinir as fronteiras dentro do metal contemporâneo. Começaram como um projeto íntimo de George Clarke (voz) e Kerry McCoy (guitarra), mas rapidamente se tornaram num coletivo coeso, conhecido por misturar black metal com shoegaze e post-rock; fusão que viria a ser apelidada de blackgaze. Hoje, os Deafheaven apresentam-se com uma formação sólida, que inclui George Clarke, Kerry McCoy, Shiv Mehra (guitarra), Chris Johnson (baixo) e Daniel Tracy (bateria). Em palco, a química entre eles é evidente: cada gesto, cada explosão rítmica, cada muralha de guitarras surge com precisão e intensidade emocional.
O peso emocional do mais recente Lonely People with Power (2025), que recupera elementos do “blackgaze” original sem abandonar a evolução melódica, levou a plateia que enchia por completo a República da Música à loucura. Na realidade, por melhor que seja a sua discografia, os Deafheaven são, e sempre foram, uma banda que se revela plenamente ao vivo. E isso percebeu-se perfeitamente neste concerto pontuado por momentos intensos, dinâmicos, cheios de emoção e, simplesmente, arrebatadores. A presença de George Clarke é quase hipnótica. Em constante movimento, conduz o concerto com gestos precisos, gritos que rasgam o ar e minutos de delicadeza inesperada. Há nele uma entrega total, quase um ritual, que suga o público para dentro de cada uma das canções que interpreta. As guitarras de McCoy e Mehra tecem camadas densas, atmosféricas, alternando entre uma violência sonora e uma melodia luminosa. A secção rítmica manteve a espinha dorsal sempre tensa, sempre pulsante, criando uma dinâmica que ora esmagava, ora acariciava. Foi essa alternância, esse jogo entre luz e escuridão, que trouxe uma maior intensidade ao concerto. Momentos houve em que a sala parecia suspensa no tempo, por entre explosões de distorção, todos nos vimos envolvidos numa uma espécie de catarse coletiva. Com os Deafheaven a agressividade não anula beleza , bem pelo contrário, reforçava-a. Saímos da República da Música com a sensação de ter assistido a algo profundamente humano: um concerto onde o caos se funde com a delicadeza, onde o grito encontra a melodia, onde o peso se transforma em emoção. Os Deafheaven têm essa capacidade rara de unir extremos e de nos levar com eles nessa viagem. Esta é uma banda inovadora e ousada, mas, acima de tudo, é uma banda capaz de criar experiências que ficam muito para além da última nota tocada.

Quando os Portrayal of Guilt subiram ao palco da República da Música, foi como se toda a sala mergulhasse num turbilhão. O ambiente ficou carregado em segundos; não houve abertura suave, só um impacto imediato. Mal soou o primeiro riff, percebemos que não se tratava de um concerto qualquer: era um ritual de agressividade crua e sinceridade emocional. A sonoridade da banda norte-americana nascida em 2017, em Austin, no Texas, carrega um misto de screamo, black‑hardcore, noise e dissonância, que, ao vivo, explode com uma ferocidade difícil de descrever. As guitarras cortantes, os blast beats violentos e os vocais rasgados criam uma parede sonora sufocante, que rasga o peito sem pedir permissão. Mas essa brutalidade vem sempre acompanhada de uma densidade emocional rara: entre a fúria e o desespero, existe melancolia, dor, vulnerabilidade. E é essa dualidade que transforma o som dos Portrayal of Guilt em algo tão visceral e tão humano.
Matt King dominava o palco como quem exorciza demónios: cada grito parecia rasgar uma ferida antiga, e cada silêncio (quando surgia) suspendia a “respiração” da sala. A performance não permitia distrações: ou entravas no caos com eles, ou eras arrastado. A intensidade não abrandou durante todo o set, antes pelo contrário, cresceu. Os Portrayal of Guilt provaram que fazem mais do que música pesada: oferecem confrontação, verdade e intensidade. Quem marcou presença na República da Música vai lembrar‑se que certa noite caiu dentro do caos onde cada sentido foi exasperadamente (quase) levado ao limite. Porque, com os Portrayal of Guilt, o som não se ouve: sente-se.

Vindos de Batimore, os norte-americanos Zeruel foram os primeiro a subir ao palco da República da Música. Os primeiros acordes fizeram sentir imediatamente o impacto da sua sonoridade: a fusão das guitarras densas, as texturas reverberadas e uma melancolia subjacente transformaram a sala num espaço quase cinematográfico onde o peso “bailou” com a introspeção. Faixas como Awake e Blight revelaram o contraste entre a agressividade e a vulnerabilidade que define a banda. A voz alternou entre a suavidade e a intensidade, adicionando camadas de emoção que humanizam o peso instrumental e transformam cada tema numa narrativa própria. Entre guitarras atmosféricas, ambiências etéreas e crescendos sonoros, a banda demonstrou versatilidade e coerência, equilibrando momentos de violência sonora com pausas meditativas. A experiência foi completa, não apenas para fãs de metal ou shoegaze, mas para quem procura uma experiência mais emocional e profunda.

Deafheaven

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Portrayal of Guilt

Zeruel

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