Dead Can Dance na Aula Magna e os Deuses cantaram para nós

Foi no ano de 1981 que a Austrália deu ao mundo os Dead Can Dance. Nascida na cidade de Melbourne, a banda que para sempre marcaria a nossa vida, regressou a Portugal para dois concertos na Aula Magna, em Lisboa.

Apesar do calor que durante o dia se fez sentir em Lisboa, a verdade é que a noite de sexta-feira, dia 24 de maio, revelou-se fria e ventosa, factores que em nada ajudaram as centenas de pessoas que desde as 20h00 se juntaram à entrada da sala de espectáculos lisboeta para ver os Dead Can Dance.

Estoicamente, todos aguentaram até pouco depois das 21h00, altura em que as portas se abriram para, de braços abertos, acolher os fãs visivelmente ansiosos e entusiasmados. Certamente, muito por culpa dos relatos da noite anterior que revelavam ter sido o primeiro dos dois concertos algo de absolutamente memorável.

Cerca de três horas depois, quando, serenos, saímos da Aula Magna, uma certeza todos tínhamos, a de, também esta, ter sido uma noite que tão depressa ninguém esquecerá e que pontuará como das mais belas dos últimos anos.

E por quê, pergunta quem nos lê. Bom, muito simples, porque os Dead Can Dance continuam a ser uma das melhores bandas do mundo, com as vozes imaculadamente bem preservadas, apesar do passar dos anos, e demonstrando possuir a mesma criatividade e inovação de então quando falamos dos novos temas.

Nascido na Austrália, o projecto composto por Lisa Gerrard e Brendan Perry cresceu depois em Londres, rapidamente conquistando o mundo. Tendo assinado pela 4AD, a editora desde sempre dedicada à divulgação da música alternativa, depressa os Dead Can Dance se transformaram, ganhando notoriedade e destaque dentro e fora do sempre muito bem recheado catálogo da editora. Musicalmente trilhando o caminho da darkwave, com fortíssimas influências da world music, o projecto revelou possuir uma criatividade fora de série e uma veia inovadora arrojada até para a época.

Depois de mais de três décadas de vida e dez álbuns editados, Lisa Gerrard e Brendan Perry figuram já na constelação das maiores estrelas da música e isso percebeu-se bem na Aula Magna. Apesar do pretexto da tournée que os trouxe a Lisboa ter sido a divulgação do mais recente registo discográfico, “Dionysus” lançado o ano passado, a verdade é que o concerto foi bem mais longe, levando-nos numa verdadeira e absolutamente deliciosa viagem do tempo.

Canções como “The Carnival Is Over”, do registo de 1994 “’Into The Labyrinth”, e “Serverance” do trabalho editado em 1988, “Serpent’s Egg”, ambas interpretados pela inacreditável voz de Brendan Perry, trouxeram à memória momentos únicos da nossa existência. Assim como a interpretação de “Song to the Siren”, fabuloso tema composto por Tim Buckley (pai de Jeff Buckley) no ano de 1970, e imortalizado em 1983 pela voz da maravilhosa e única Elizabeth Fraser, no colectivo This Mortal Coil, outro dos porta-estandartes da 4AD, nos levou, de olhos fechados, até ao ano de 1986, quando, no já desaparecido Liceu Belém-Algés, era uma das músicas da banda sonora da nossa adolescência.

Como uma rainha, Lisa Gerrard demonstrou continuar a possuir a belíssima voz cujo timbre tão característico os verdadeiros fãs de imediato identificam, revelando uma felicidade genuína por estar em palco e uma simpatia pura quando, no final, atirou beijos à plateia, recebendo, emocionada, as flores com que alguns elementos do público a brindaram num gesto de agradecimento e reconhecimento.

Pelo meio um alinhamento de luxo do qual fizeram parte, além das acima referidas, pérolas como “The Host Of Seraphim”, “Cantara”, “Yulunga (Spirit Dance)” ou “The Promised Womb”, só para destacar algumas.

Regressamos a casa tranquilos. O vento forte que se fazia sentir já pouco nos incomoda porque tínhamos a certeza de, durante algumas horas, os Deuses terem cantado para nós.

Uma referência a David Kuckhermann, o percursionista alemão que abriu para os Dead Can Dance.

Nascido na lindíssima cidade de Munique, David lançou em 2102 o registo “The Path of the Metal Turtle”. Numa prestação muito celebrada, o músico que estudou com mestres como Glen Velez, Samani Behnam, Shotham Ramesh e Fayaz Ustad Khan, e que conseguiu criar o seu estilo pessoal, incorporando nele técnicas e ritmos das tradições handdrumming do Irão, da Índia, do Egipto, da Europa, da Turquia e de África, deu a conhecer a sua arte.

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

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