Dead Can Dance em noite de sonho

São uma referência para muitos músicos (e não só) que durante anos lhes seguiram os passos, até terem parado para agora regressarem em força. O outono de 2012 marcou o seu regresso, num concerto esgotadíssimo na Casa da Música, no Porto, onde tomaram o pulso ao público português. Devem ter gostado, e muito, pois voltaram este ano para mais duas apresentações em solo nacional. Fomos vê-los ao Coliseu dos Recreios numa noite mágica e de sonho, pois pertencemos aos tais fãs que falávamos no início.

Após uma primeira parte a cargo de David Kuckhermann, percussionista que surpreendeu o público com os seus hangs (instrumento em forma de concha inventado na Suíça no virar do século) donos de sonoridades únicas e peculiares, era a vez de Brendan Perry e Lisa Gerrard subirem ao palco para interpretar um alinhamento baseado no último registo de originais da banda, «Anastasis».

«Children Of The Sun» foi a primeira música a encher de paz o mítico espaço de concertos lisboeta, e foi também no final dela que se ouviram os primeiros de muitos, mas mesmo muitos aplausos da noite. Cada uma das pessoas que compunham o público mostrava um semblante estonteado pela beleza da música, harmoniosamente casada com as vozes perfeitas de Brendan e Lisa.

Arrepiante, sim, arrepiantemente belo o que se passou naquele palco. Tudo estava dramaticamente perfeito, as vozes, as percussões, as teclas. A cada nova música, maior emoção. A cada nova emoção, a certeza de estarmos a viver um sonho. «Opium», «Nierika» e «Sanvean» seguiram-se num alinhamento que a cada canção demonstrava as enormes qualidades de cada um dos músicos a solo e a enorme capacidade de se harmonizarem num colectivo único apelidado de Dead Can Dance.

Formados em 1981, em Melbourne, na Austrália, os Dead Can Dance cimentaram uma carreira de sucesso desde a cidade de Londres, para onde se mudaram pouco tempo depois. Na capital britânica assinaram contrato com a editora independente 4AD, demonstrando com o decorrer dos anos ser um dos nomes mais importantes da história da editora, surgindo ainda hoje como uma das suas imagens de marca. Em 1984 lançam o primeiro trabalho homónimo e no ano seguinte surpreendem com «Spleen and Ideal», o seu segundo registo de originais.

Voltamos ao Coliseu para perceber que na alma de cada um de nós estava instalado um profundo sentimento de gratidão por tudo o que ao longo dos anos nos fizeram sentir, fazendo-nos viajar por um universo onde a beleza toma a forma de vozes únicas e a harmonia adquire corpo em notas musicais simultaneamente inspiradas e inspiradoras.

Foram 15 os anos em que os Dead Can Dance estiveram parados, o que aconteceu depois da separação do casal Brendan Perry e Lisa Gerrard. Regressaram para gáudio dos muitos que deles já tinham saudades e que durante as duas horas que dourou esta verdadeira trip nem pestanejaram. «Agape» e «Amnesia», ambas de Anastasis, «Rakim», «Black Sun» ou «Cantara» encheram o Coliseu de gratas memórias de um passado memorável (deles e nosso…). Quando «The Host Of Seraphim» enche a sala algo de único acontece, com uma ovação de pé por parte público que reconheceu naquela a alma dos Ded Can Dance.

«Song to the Siren» trouxe-nos à memória a versão dos Cocteau Twins para a música de Tim Buckley, cantada Elizabeth Fraser, «All in Good Time» e «Return to She-King» encerraram a noite. No final, um Coliseu dos Recreios rendido e «esmagado» pela beleza dos Dead Can Dance.

Texto e fotos: Sandra Pinto

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