CORPUS CHRISTII e IRAE na República da Música: um ritual inesquecível entre deuses de fogo e crepúsculos sombrios

Os Corpus Christii, uma das mais marcantes e influentes bandas de black metal português, subiram ao palco da República da Música para interpretar na íntegra o álbum «The Fire God». Numa noite coberta de negro, a intensidade do black metal espalhou a sua magia sobre a capital. 

Texto: Sandra Pinto
Fotos: Luís Pissarro

Os Corpus Christii “aterraram” em Lisboa na noite de 28 de novembro para um concerto único na República da Música. Numa noite dedicada à celebração de um marco incontornável do black metal português, a banda interpretou na íntegra o álbum «The Fire God», originalmente lançado em 2001. Esta foi uma oportunidade rara para revisitar um trabalho que definiu a identidade do coletivo liderado por Nocturnus Horrendus e que consolidou a sua reputação além-fronteiras. O disco, agora reeditado, mantém intacta a sua aura obscura e desafiante, com a brutalidade e o espírito blasfemo que sempre caracterizaram a banda, confirmando «The Fire God» como uma referência obrigatória do black metal europeu. Formados em 1998 em Lisboa, os Corpus Christii rapidamente se tornaram uma das mais marcantes e influentes bandas do género em Portugal. Criados por Nocturnus Horrendus, seu principal mentor e único membro constante ao longo das décadas, o projeto ganhou prestígio na cena underground europeia, combinando um som cru, obscuro e atmosférico com temáticas centradas no satanismo filosófico, misantropia e espiritualidade negra, elementos típicos do black metal mais tradicional, mas com uma identidade própria. A apresentação da banda revestiu-se de distintas camadas que conferiram à sua típica atmosfera ritualista uma intensidade magnânima, intensificada pela entrega do público que se deixou levar sem hesitações numa noite marcada pela densidade sonora vinda do palco. Mais de duas décadas depois da edição original, o regresso de «The Fire God» ao palco foi uma celebração da própria história do género em Portugal, um momento em que fãs de longa data e novos admiradores se reuniram para testemunhar a potência e a intensidade de um álbum que continua a desafiar e a fascinar. A atuação reafirmou o estatuto dos Corpus Christii como uma das mais importantes e influentes bandas de black metal nacional, capazes de transformar cada concerto num ritual sonoro memorável. Verdadeiro santuário do black metal, a República da Música revelou-se o espaço certo: Desde o primeiro acorde, a atmosfera que inundou a República da Música tornou-se densa e ritualística. A brutalidade característica do disco, combinada com a aura obscura e desafiadora, envolveu o público numa experiência quase hipnótica. Cada tema interpretado parecia projetar os presentes para o coração do universo negro da banda, onde melancolia e agressividade coexistem num equilíbrio perfeito. Usando o black metal como forma de expressão artística e existencial, os Corpus Christii permanecem uma referência absoluta do género em Portugal. Duas décadas depois, a banda  mantém uma entidade sonora que combina tradição, identidade e evolução constante.

Mas a noite de 28 de novembro foi ainda mais especial ao acolher um daqueles concertos que ficam cravados na memória. IRAE, guiados pela figura imponente de Vulturius, regressaram aos palcos para apresentar “In The Key of Twilight”, e bastaram poucos minutos para perceber que não ia ser um concerto qualquer. A sala, quase às escuras, parecia preparada para um ritual e foi exatamente isso que aconteceu: um mergulho profundo no lado mais cru, feroz e purista do black metal português. Assim que Vulturius surgiu, sentiu-se o peso de mais de vinte anos de entrega absoluta a este universo. Há algo de quase palpável na forma como carrega o projeto, uma seriedade inabalável que se reflete tanto nos clássicos que a banda tocou como nas faixas novas. “In The Key of Twilight”, apresentado como o disco mais ambicioso de IRAE, mostrou-se ao vivo como uma expansão natural do que sempre definiu o projeto: agressividade, frieza e uma visão muito própria do black metal, mas agora com nuances a que dificilmente se fica indiferente. As novas músicas, especialmente, ganharam vida de uma maneira quase brutal. O álbum lê-se nas guitarras afiadíssimas, nos ritmos acelerados da bateria e na forma como cada faixa parece construída para espelhar conflito interior, renascimento e confrontação. E quando Vulturius diz que “Irae é um símbolo da minha intolerância e ódio para com a humanidade, e às vezes até para comigo próprio”, basta ouvi-lo ao vivo para entender que não é exagero. Cada grito, cada rasgo instrumental carrega esse peso. O concerto acabou por se transformar num verdadeiro turbilhão: blastbeats incessantes, riffs gelados, uma execução que não dava espaço para respirar. Nada foi suavizado, nada foi moldado para agradar e o público respondeu exatamente como se esperaria de uma plateia que sabe ao que vem. Era impossível não sentir a ligação com o underground nacional, esse espaço onde IRAE sempre tive um papel essencial e que continua a ajudar a manter vivo. No final, ficou claro que “In The Key of Twilight” abre uma nova fase para IRAE. Não rompe com o passado, mas expande-o; não abandona as raízes, mas aprofunda-as. Aquele concerto não foi só o lançamento de um álbum, foi uma declaração de força e autenticidade. Uma prova de que IRAE continuam a ser um dos nomes mais respeitados do black metal português e que ainda têm muito a dizer.

A noite começou com o concerto de Grievance, que rapidamente se revelou muito mais do que uma simples atuação ao vivo. Foi uma verdadeira viagem pela história de uma banda marcada pela reinvenção e pela persistência criativa. No palco, Koraxid, agora único responsável pelo projeto, emanava uma presença impressionante. Como vocalista, conseguiu transmitir toda a densidade e agressividade que definem Grievance desde a sua fundação, em 1997, no universo do black metal nacional. Cada nota, cada gesto, carregava a intensidade de décadas de dedicação, mantendo viva a essência de uma banda que sobreviveu a mudanças de line-up, longos períodos de pausa e até à distância física entre os membros. Era impossível não sentir a energia de alguém que, apesar de todos os obstáculos, escolheu manter o projeto vivo e em constante evolução. Cada riff e cada batida soavam como uma prova de paixão e entrega, lembrando ao público que Grievance não é apenas uma banda: é uma declaração artística que resiste ao tempo. No final, o concerto ficou marcado pela resiliência e autenticidade de Koraxid e do projeto. Grievance permanece uma força intensa e inabalável dentro do black metal, capaz de transformar a sua própria história em pura potência musical.

CORPUS CHRISTII

IRAE

GRIEVANCE

 

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