Os Gift apresentam no Coliseu do Porto e no Coliseu de Lisboa “Altar”, o disco editado em abril de 2017. Este foi o ponto de partida para uma conversa com a banda de Alcobaça.

À conversa com The Gift

Os Gift apresentam no Coliseu do Porto e no Coliseu de Lisboa “Altar”, o disco editado em abril de 2017. Este foi o ponto de partida para uma conversa com a banda de Alcobaça.

Mais de 20 anos depois do primeiro concerto, o que sentem quando sobem ao palco?
Continuamos a sentir responsabilidade e a humildade de fazer sempre o melhor concerto possível para as pessoas que no meio de 1001 coisas que têm para fazer decidem pagar para nos ver naquela noite. Acho que a nossa banda habituou o público a fazer sempre grandes concertos ao nível de entrega. Neste momento pensamos que estamos num nível técnico também alto que acompanha a entrega de sempre.

Foi essa emoção que sentiram no concerto da Union Chapel?
A experiência em Londres foi maravilhosa, porque não só tocámos numa sala mítica e tecnicamente perfeita, como também a nossa performance e a reacção do público foi algo que não vamos esquecer tão depressa. Em Londres a ideia era usar a sala como parte integrante da estética musical e visual do espectáculo e isso resultou na plenitude, mas sinceramente penso que por mais emocionante que seja tocar na Union Chapel, será muito mais tocar este ALTAR nos Coliseus, nas salas onde vimos desde os 16 anos as maiores e mais importantes bandas para nós e para a nossa música.

Costuma dizer-se que com a idade vem a responsabilidade. Vocês sentem isso, que têm uma responsabilidade acrescida pela posição que ocupam hoje no universo da música nacional?
Nós temos a responsabilidade de “fazer bem”. Às vezes o “fazer bem” num concerto é pensar em tudo o que envolve o concerto, mas especialmente a parte musical e por isso é que estamos a preparar concertos diferentes para o Porto e Lisboa para que a expetativa e a responsabilidade estejam ao nível do que as pessoas esperam de nós. Em relação ao lugar que temos na música portuguesa, sinceramente sei que é um lugar de destaque fruto da nossa longevidade, criação musical constante e das muitas digressões que temos feito, mas não nos preocupamos muito com o que pensam de nós mas mais com aquilo que nós próprios nos preocupamos em apresentar ao público que decide ir ver-nos a cada noite.

Voltemos a Londres. Os ecos que nos chegam dessa actuação dizem que não podia ter corrido melhor. Qual a diferença deste para os concertos anteriores?
Este espetáculo teve lugar numa sala mítica, muito bonita e a própria sala entra no espetáculo. Se a isso juntarmos o facto deste espetáculo estar muito rodado e de todos nós estarmos muito confiantes, também ajuda a que tenha sido tecnicamente perfeito. Se a tudo isto juntarmos ainda a inclusão de canções antigas que não tocávamos há muito tempo, então percebemos que foi de facto uma noite única na nossa carreira, nada a ver com qualquer outro concerto de clube ou mesmo teatros que temos feito em Portugal ou no mundo. Assim mesmo, tenho a certeza que qualquer um dos Coliseus deste fim de semana suplantará em emoção, na parte técnica, na parte de produção e de energia global no espetáculo e com o público. Tenho um feeling que os nossos melhores concertos de sempre serão este fim de semana.

O facto de Brian Eno estar no público teve alguma influência ou só fez aumentar “os nervos”?
O Brian viu-nos já algumas vezes e em Vigo, no verão de 2012 quando nos viu pela primeira vez foi um espetáculo de muitos nervos. Agora, depois de estarmos a viver com ele quase 60 dias e termos uma amizade profunda, depois dele conhecer cada uma das canções de ALTAR de trás para a frente e depois de nos ter acompanhado em Londres no palco do Bush Hall, em Maio passado, a sua presença não seria seguramente causa de nervos.
É bom estar nervoso porque aumenta os níveis de concentração, mas sinceramente tivemos uma felicidade imensa que o Brian tenha podido ir ver nos e não mais que isso.

Depois de “20”, lançado em 2015 e que celebrava os vossos 20 anos de existência, chegam com novo disco em 2017. Esse espaço de tempo foi importante para a banda se recriar?
A banda em 2015 já se estava a recriar com o disco ALTAR que já estava a ser gravado, inclusivamente em sessões de estúdio com o Brian Eno. O que aconteceu é que em “20” a ideia era celebrar um aniversário com dois concertos megalómanos no Altice Arena e no Multiusos de Guimarães, com um documentário feito pelo Nuno Duarte (Jel) e Guilherme Cabral, um livro escrito por Nuno Galopim, uma caixa com 4 DVDs que inclui todos os nossos grandes concertos de sempre e o álbum em formato de Best of “20”. Este disco ALTAR foi aproveitar o facto de estarmos com o melhor produtor do mundo e compor um disco esteticamente desafiante e que pudéssemos defender ao vivo da melhor forma possível.
Foi tudo feito até agora e esperamos que continuemos a poder apresentá-lo ao vivo durante os próximos meses.

Quem são hoje os The Gift? Ou seja, como se definem enquanto banda?
Os Gift definem-se como uma banda independente, com os mesmos 4 membros desde os tempos de Vinyl, com uma formação ao vivo com Mário Barreiros, Israel Pereira e Paulo Praça que nos acompanham desde 2011 e com a mesma inquietude e desejo de criar, como nos tempos de 1994…
A banda continua atenta a tudo do que melhor se faz no mundo e em Portugal, tentamos estar ativos na composição, na produção dos nossos concertos e tentamos fazer sempre algo distinto do que fizemos antes. A maioria das pessoas conhece os Gift pelos 3 ou 4 singles que passam na rádio mas temos oito discos com estéticas muito díspares e assumimos que no estúdio queremos sempre reinventar-nos mas no palco é onde essa reinvenção mais se destaca.

Concordam quando afirmo que essa reinvenção dos The Gift está espelhada em “Altar”, o álbum lançado há um ano?
Sim concordamos, mas sabemos que também nos reinventamos na Union Chapel e também nos vamos reinventar nos Coliseus. A reinvenção não é apenas do Estúdio mas também dos concertos.

Como definem este trabalho?
Definimos este trabalho como o culminar de vários anos de experiências que nos permitiram chegar a um disco que, pela primeira vez, teve uma produção e co-composição de alguém totalmente fora do universo da banda. Se noutros discos tivemos alguns produtores que aqui ou ali co-produziram o disco com o Nuno [Gonçalves], desta vez tivemos alguém que produziu e também compôs com a Sónia [Tavares] as letras e com o Nuno [Gonçalves] algumas das partes de todas as canções. Só por si este disco é um marco importantíssimo na nossa vida.

“Altar” foi produzido por Brian Eno e misturado por Flood. Como é que chegaram ao Brian Eno?
O Brian Eno conheceu o Nuno [Gonçalves] no Brasil e depois como disse antes, acabou por nos ir ver a Espanha em 2012 na Tour Primavera / Explode. A partir daí criou-se uma amizade e uma paixão dele pela nossa música, pois a nossa paixão pela música e pelas suas produções já vem de longa data.

E o Flood?
O Flood aparece no processo final de gravações quando tínhamos de escolher um nome para as misturas e quando enviámos as canções ao Flood, apaixonou-se também pela estética e por todo o disco. Flood é um dos grandes produtores deste planeta o que faz com que este disco tenha ainda esta outra particularidade de juntar Brian Eno e Flood depois dos discos que fizeram com U2.

Se levarmos em linha de conta que Brian Eno é uma pessoa que não produz muita gente foi uma grande vitória para os The Gift, certo?
A vitória não é dos Gift mas sim da música que nasceu com o Brian Eno. Os Gift são sólidos o suficiente para poder fazer discos sozinhos ou acompanhados, mas ter Brian Eno a produzir, a escrever, a cantar e a tocar neste disco é uma vitória da nossa arte.

Sendo um dos nomes mais importantes e influentes da música do século XX, em que é que o trabalho dele mais vos impressionou?
O que mais nos impressionou é a capacidade de trabalho dele quase aos 70 anos. Estamos a falar de alguém que criativamente é do mais artístico que conhecemos – isso não nos surpreendeu, obviamente – mas aliar a essa criatividade uma humildade genuína, uma inteligência fora do comum e uma capacidade de trabalho durante horas e horas é algo que impressiona.

Como foi o processo de trabalho?
O processo foi longo e consistia em sessões de 2 semanas intercaladas por pausas longas de vários meses. Quando nos voltávamos a encontrar, pegávamos exatamente no trabalho no exato ponto em que o tínhamos deixado uns meses antes e essa distância fazia-nos ter uma distância muito importante que muitas vezes não temos quando se produz um disco em 4 semanas seguidas.

Dois grandes concertos para Lisboa e Porto. O que pode o público esperar destes dois espectáculos?
Eu disse antes e volto a repetir… O público pode esperar os melhores concertos de The Gift. Vai ser um concerto focado na música onde a cenografia, iluminação e vídeo terão um papel importante mas não primordial. O mais importante é também usar os Coliseus como usamos a Union Chapel e saber utilizar as salas como parte integrante do próprio espetáculo e com os alinhamentos que estamos a criar e a preparar, podemos mesmo estar perante os espetáculos duma vida!

Quais as vossas expectativas relativamente a estas duas noites?
São muito altas. Expectativas altas para tocar para um público mais velho que já nos conhece há muitos anos e expetativa alta para poder mostrar a sonoridade The Gift em palco a um público que só agora nos esta a descobrir e que tem estado em contacto permanente connosco através das redes sociais. É muito bom assistir a esta renovação de público depois de tantos anos na estrada e o disco “ALTAR” contribuiu para isso, sem dúvida alguma.

Depois de mais de duas décadas de carreira que objectivo vos falta alcançar?
As nossas ambições passam no imediato por fazer os concertos das nossas vidas nos Coliseus de Porto e Lisboa. Depois, queremos a apresentar este disco em muitos outros palco espalhados por alguns outros países e talvez abrir para uma banda maior numa tour europeia ou americana. Falta-nos fazer muita coisa mas o mais importante é sempre fazer os discos mais honestos possíveis e a cada noite tentar dar o melhor a quem decidiu ir ver-nos ao vivo.

Por: Sandra Pinto

You May Also Like

Billy Corgan revela 10 dos seus discos favoritos

Há uma nova app que nos liga a David Bowie. Conhece?

Sabe quais são as 13 músicas preferidas de Morrissey?

Siouxsie and the Banshees, o início da lenda (fotos dos anos 70)

error: Conteúdo protegido. Partilhe e divulgue o link com o crédito @lookmag.pt