À conversa com peixe:avião

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Lançaram recentemente o terceiro registo de originais. Chegam de Braga e chamam-se peixe:avião, assim como o novo disco.

Porquê peixe:avião?
A escolha do nome da banda tem muito menos de poético que o nome da banda pode sugerir. Tínhamos em 2007 um EP pronto a sair e um concerto marcado para a presentação do mesmo e necessitávamos de um nome urgentemente para imprimir as capas do disco e os cartazes, criar um MySpace, etc. Como todos os nomes que nos surgiram soavam pirosos ou pretensiosos – escolher um bom nome em português não é tarefa fácil – virámo-nos para as letras das músicas do EP. A primeira letra da primeira música que fizemos dizia “Finjo a fazer de conta feito peixe:avião”. Deu nome à banda e ao nosso EP de estreia.

Essa dicotomia entre água e ar dá corpo ao espaço por onde divagam as vossas composições?
Não temos isso em mente quando estamos a criar. Aquando da criação do nome, achámos graça a essas dicotomias água/ar, orgânico/mecânico que o nome sugere e ao modo como elas traduziam em parte aquilo que fazíamos (e que ainda fazemos, um pouco).

Quem são e de onde vêm cada um dos membros da banda?
Somos o André Covas, o Luís Fernandes, o José Figueiredo, o Ronaldo Fonseca e o Pedro Oliveira. Somos uma banda de Braga, apesar de dois dos membros terem nascido em Lisboa, um deles ter nascido e crescido em Barcelos, um deles viver actualmente no Porto e outro em Viana do Castelo.

O facto de serem de Braga, terra de nomes importantes na música moderna nacional, teve alguma influência na vossa decisão de serem músicos?
O contexto influencia sempre a criação e nesse sentido somos influenciados por Braga. Não necessariamente pelas bandas de Braga (apesar da sombra incontestável de bandas como os Mão Morta), mas pela cidade em si. Pelo aquilo que ela nos oferece e não nos oferece e, por não oferecer, nos faz procurar com mais curiosidade.
Mas Braga deu um empurrão à nossa criação e à de outras bandas da cidade com a construção das salas de ensaio do antigo estádio Primeiro de Maio, salas essas nas quais nascemos como banda.

Como funciona o vosso processo de criação? Ouvindo-vos sentimos uma certa tranquilidade, é assim ou as músicas surgem de rompante?
O nosso processo criativo mudou muito neste trabalho em relação aos passados. Se anteriormente éramos muito cerebrais e individualistas na criação – compúnhamos em casa isolados e depois montávamos as canções na sala de ensaio – neste disco decidimos fazer o oposto e compor em conjunto. Não foi de todo um processo tranquilo, principalmente no início. Mas depois do comboio engrenar, tornou-se um processo muito natural.

São uma banda de estúdio ou o tocar ao vivo é para vocês o culminar da criação musical?
Todas as fazes do processo têm o seu encanto e são bem distintas umas das outras. Mas sim, numa banda que pretende tocar ao vivo como nós, em última análise, aquilo que faz em disco é depois validado ao vivo. Nesse aspecto, este disco é o mais equilibrado, no sentido em que pela forma como criámos e gravámos o disco, em modo live, o mesmo é transposto para o palco imediatamente. Não há perdas, antes pelo contrário, ao vivo em relação á gravação.

Actuaram recentemente em Lisboa, no CCB. Como correu? Superou as vossas expectativas?
Correu muito bem! Tocámos para uma casa muito composta e tivemos óptimo feedback do concerto. Entretanto marcámos o Vodafone Mexefest para que os restantes lisboetas nos possam ver.

Nesse concerto apresentaram o vosso último registo. Ouvi-lo deixa-nos com a nítida sensação que os peixe:avião cresceram. Vocês sentem isso?
Esperamos que sim! Sentimos que já começamos a aprender algo com as experiências passadas, apesar de ainda sermos uma banda com apenas meia dúzia de anos. Somos, se calhar, os maiores críticos do nosso próprio trabalho e tentamos sempre aperfeiçoa-lo a cada oportunidade. Ficamos contentes por isso passar para fora!

A mudança de direcção que se sente neste trabalho relativamente aos anteriores foi um premissa assumida á partida ou foi acontecendo à medida em que iam compondo?
Foi totalmente deliberada e começou a ser pensada enquanto ainda estávamos no processo do Madrugada, há cerca de dois anos. Não que o disco anterior tenha sido uma experiência traumática, de todo, mas sentimos a necessidade de mudar, desde logo, a nossa forma de trabalhar.

Cada uma das nove músicas que compõem este trabalho transportam os ouvintes para diferentes universos. De que universos se compõe a música dos peixe:avião?
Este disco mais do que qualquer um dos trabalhos anteriores foi muito balizado e propositadamente depurado e reduzido ao essencial. Estes constrangimentos acabaram por nos fazer procurar soluções que até então não tínhamos explorado. Elas vêm dos mais variados sítios e há resquícios de referências muito distintas numa mesma música. Não que o tenhamos feito conscientemente. São simplesmente o resultado de cinco cabeças distintas a pensar em simultâneo.

Em «Espirais» sentimos uma certa imponência, algo de cinematográfico, de ficção cientifica nos vem à memória quando a ouvimos. Em que se basearam para a escrever?
Nesse tema em particular, quisemos explorar um ambiente mais denso e negro através de uma composição mais livre e abstracta. Na base do tema está um sintetizador Korg Poly 800 que, como está avariado, permite fazer oscilações de pitch totalmente inesperadas e que criam uma tensão constante quando são inseridos os restantes instrumentos.

Há neste trabalho uma crueza que não reconhecemos nos registos anteriores. Porquê esta exposição das «entranhas» musicais da banda?
Sentimos necessidade de, depois de um Madrugada muito adornado e cerebral, criar um trabalho mais visceral e directo, depurado e reduzido ao essencial.

É importante para vocês marcarem a diferença efectiva deste trabalho no âmbito do vosso percurso musical?

Sim. Gostamos de nos desafiar a cada trabalho e não queremos, de todo, fazer dois discos iguais. Neste disco culminaram mudanças ao nível “processual”, na forma de trabalharmos, que levaram a muitas mudanças estéticas. Para nós fez todo o sentido esta mudança nesta fase da nossa carreira.

Já em «Avesso» o poder da palavra toma as rédeas como em nenhuma outra canção, mostrando uns peixe-avião mais poéticos, concordam?
Não sei, mas isso fica ao critério de cada um. A vantagem de termos uma lírica relativamente livre, e mais livre neste disco em relação aos anteriores, é precisamente permitirmos que cada ouvinte se reveja (ou não) de forma única na música.

Em peixe:avião sentimos do rock progressivo de uns Pink Floyd ao rock alternativo dos Radiohead. Onde se situam as vossas influências mais fortes?
As influências dos peixe:avião vêm dos mais variados sítios. Somos cinco pares de ouvidos que consomem muita música distinta. Neste disco, no entanto, o que nos chamou mais à atenção para a forma como abordaríamos o nosso som foram discos como o Third dos Portishead, o trabalho dos Beak> ou de Anika, bandas como os Neu!, os CAN, ou outras do movimento Krautrock, música electrónica dos anos 70, rock-psicadélico, entre outras coisas.

É nos poemas que sentimos a nostalgia caracteristicamente portuguesa. Manter essa portugalidade nas vossas composições é importante? É isso que vos distingue?
Não, quer dizer, essa característica não é deliberada. O que acaba por ser algo distintivo, talvez, é a associação dos poemas em português com aquilo que exploramos no instrumental.

Onde e quando podemos voltar a ver peixe:avião ao vivo?
Temos alguns concertos marcados: dia 01 de Novembro em Vale de Cambra, dia 02 de Novembro no CCOB de Barcelos e no final do mês vamos ao Vodafone Mexefest em Lisboa, que decorrerá nos dias 29 e 30 de Novembro.

www.facebook.com/peixe.aviao
Mais sobre peixe:avião em https://lookmag.pt/blog/peixe-aviao-disco/

Por: Sandra Pinto

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