À Conversa com Luís Ferreira sobre o festival Bons Sons 2017

A aldeia de Cem Soldos recebe mais uma vez o festival de música Bons Sons. Sobre este festival absolutamente diferente, estivemos à conversa com Luís Ferreira, director e programador do Bons Sons.

Este é claramente um festival diferente. Como nasceu a ideia de dar vida a um evento deste género?
O mote foi o 25.º aniversário da associação local, o SCOCS (Sport Club Operário de Cem Soldos), em 2006. Um grupo de jovens organizou um programa alargado para assinalar esta data e repensar todas as actividades da associação. Todos nós gostávamos muito da festa de arraial, a festa anual habitual no Verão, mas não nos revíamos nem na programação, nem no seu discurso. Foi assim que surgiu o BONS SONS, uma semana antes da festa de arraial, fazendo uso da mesma base e estrutura logística mas com outra amplitude, curadoria e empenho das camadas mais jovens.

O layout do festival foi desde logo imaginado assim, com este formato?
A base sim – ter a aldeia como cenário e envolvente do festival. Contudo, ao longo dos anos, este projecto foi crescendo, assim como as expectativas de todos. Mais palcos, mais actividades, mais serviços. Em 2010, fechámos o recinto e esse foi o passo mais importante para aquilo que conhecemos hoje como layout do festival e também para a vivência da aldeia.

Porquê o nome de Bons Sons?
Já não nos recordamos bem do click. Lembro-me de ter havido conversas em torno do nome, se deveria ser SONS BONS, ou BONS SONS… agora parece-nos óbvio. Claro que o nome resulta da sua fonética e da sonoridade radiofónica do nome. Na altura queríamos demarcar a filosofia deste nosso festival da hegemonia estabelecida de que não havia qualidade, nem quantidade, na produção musical nacional.

Qual o motivo da sua localização geográfica? O que tem a vila de Cem Soldos de diferente?
Esta é fácil. É a nossa aldeia, são as pessoas da aldeia que o organizam no seu próprio espaço. Sabemos que é difícil de perceber que não há uma estrutura externa que tenha escolhido Cem Soldos. Fomos nós, cem-soldenses, que decidimos fazer o BONS SONS e que ainda hoje o fazemos. A aldeia de Cem Soldos, e aqui reforço o conceito “Aldeia”, é diferente de muitas por manter o seu espírito comunitário. É graças a ele que se consegue levantar este festival.

De que forma conseguiram a adesão da população? Foi imediata?
Sim! O facto de sermos nós a fazermos um festival na nossa terra é completamente diferente. Quanto mais pessoas envolvidas na criação do festival, mais o compreendem e menos anticorpos se geram em torno dele. Ser da aldeia é fazer parte do BONS SONS.

Convém referir que os habitantes abrem as suas casas, os seus espaços para receber concertos, certo?
É um dos eventos mais generosos que conheço mas, mais do que a abertura dos espaços, que é importante sem dúvida, é a disponibilidade e o contributo com o trabalho, a “oferta” das férias e dos períodos de descanso, que comove mais.
Não porque sejamos loucos mas porque acreditamos na importância do BONS SONS para o bem comum da aldeia. O BONS SONS é, neste momento, a garantia da qualidade de vida de todos, com a manutenção dos projectos sociais como o “Cem Soldos e a Escola”.

Mas exatamente onde estão colocados os oito palcos?
Estão espalhados pela malha urbana de Cem Soldos. Três em espaços interiores: Palco MPAGDP, na igreja S. Sebastião, o Palco Garagem, na garagem da Menina Madalena, e o Auditório, na antiga Casa do Povo. Os palcos exteriores dividem-se pelo portal da igreja, com o Palco Tarde ao Sol, pelas largos de S. Pedro e do Rossio, com os palcos Giacometti e Lopes-Graça, e há ainda o Palco Eira, que fica numa antiga eira comunitária da família Mourão.

Acha que esse orgulho que a população tem no “seu” festival é um dos grandes trunfos do sucesso do Bons Sons?
Sim, o saber receber de Cem Soldos faz a diferença. Aqui não há as típicas pessoas bonitas e modelos contratados por equipas de marketing das marcas, a dar as boas-vindas. Aqui existem pessoas com histórias e ligações ao local. Aqui há espaço para conversar e perceber que existem outras formas de criar encontros, o grande objectivo da cultura.

Uma curiosidade para quem nunca foi ao Bons Sons, vocês “fecham” a aldeia? Como é que isso se consegue?
Envolvendo, explicando, fazendo parte. Se as pessoas perceberem os objectivos do evento, se fizerem parte dele, terão outro entendimento sobre tudo. Depois, o fecho da aldeia é a garantia da segurança, da limpeza, do descanso dos habitantes e da sustentabilidade do festival. Se não fechássemos Cem Soldos, hoje já não existiria BONS SONS.

Mas a vida dos habitantes continua a sua rotina? Isto é, dentro do possível, pois há música por todo o lado…
Dentro do possível, uma vez que boa parte da população está sobrecarregada de trabalho. Contudo, todos os habitantes têm uma passe especial para poderem circular com o menor constrangimento possível.

Musicalmente o alinhamento do festival toca vários géneros. Esta variedade é uma preocupação vossa aquando da escolha das bandas?
Sim, cada palco retrata visões diferentes da música nacional. Aqui, aliamos os dois conceitos-base. Por um lado, a festa da aldeia, eclética, intergeracional e inclusiva e, por outro, a plataforma da música nacional. Queremos mostrar a qualidade e a diversidade da produção nacional.

Celebraram em 2016 o décimo aniversário. O que mudou na vida do festival desde que nasceu?
Fora o conceito e os objectivos, tudo mudou. A escala e a ambição do BONS SONS é bastante diferente, assim como as necessidades também. Apesar de ainda sermos os mesmos carolas que trabalham voluntariamente para a sua aldeia, estamos entre os 15 festivais mais populosos e muitos vêem-nos como uma referência.
Já existem muitos outros festivais de música portuguesa e consideramos que o nosso papel é outro, uma vez que já não há quem diga “eu não gosto de música portuguesa”. Uma vez que já existe público nacional, o desafio é conquistar os públicos internacionais.

E para este ano alguma novidade que queira destacar?
Mais condições de acolhimento, com um novo parque de campismo, outros serviços de restauração, reforço das acções ecológicas do festival e mais actividades para a família.

De que forma se apresenta o alinhamento dos oito palcos? Há alguma diferenciação entre eles em termos de estilo musical?
Sim, cada palco tem uma filosofia diferente consoante a hora e escala do lugar. A título de exemplo, o Palco Eira apresenta os projectos mais aculturados e urbanos, enquanto o Lopes-Graça os mais ligados à música do mundo. No Giacometti projectos mais intimistas e no auditório os mais performativos, resultantes de uma parceria com o Festival Materiais Diversos.

Que outras actividades, chamemos paralelas, vão os festivaleiros lá encontrar?
Temos curtas, resultantes da parceria com o Curtas em Flagrante, temos feira de marroquinarias e novo artesanato, jogos e oficinas para os mais novos, sessões de música para crianças, passeios de burro e contos…
Um sem número de actividades de enriquecem a vivência da aldeia.

Ao nível logístico o que têm para oferecer aos festivaleiros, seja no que diz respeito a alojamento ou alimentação?
Temos dois parques de campismo, um gratuito para todos os portadores de passe geral, outro pago para quem procura outra comodidade. Temos um transfer, de hora a hora, que faz a ligação de Cem Soldos a Tomar e a Paialvo. Este transfer possibilita que os visitantes possam vir de transportes públicos até ao festival e, simultaneamente, possam beneficiar da oferta hoteleira da região. No recinto existem vários restaurantes com comida que vai da tradicional à vegetariana e várias tascas e adegas que disponibilizam petiscos e bebidas típicas.

Regressemos à música, o Bons Sons só tem música portuguesa. É importante, com tanto festival que acontece hoje em Portugal, marcar essa diferença?
Para nós ainda faz sentido, mesmo com a maior oferta nesta secção. Achamos que o nosso olhar ainda é bastante próprio e que ainda temos algo a dizer de muito novo.

Terminam esta edição com Rodrigo Leão. Onde vai acontecer este que será certamente um dos mais concorridos concertos do festival?
Será no palco Lopes-Graça. Terminamos sempre com um projecto, ou músico que tem um percurso ímpar para a história recente da música portuguesa. Neste lugar, já contámos com a Brigada Victor Jara, Fausto, Vitorino, Sérgio Godinho, Jorge Palma, entre muitas outras figuras ímpares da cultura nacional.

Que balanço faz destes 11 anos de vida do Bons Sons?
O balanço é muito positivo. Conseguimos o reconhecimento do meio, da crítica, da imprensa e, claro, do público. Já recebemos vários prémios e distinções nacionais e internacionais. Mas são os efeitos sociais do BONS SONS que marcam o sucesso do mesmo. A capacitação, a dinâmica comunitária, a fixação da população, o brio, o sentimento de pertença, são a prova do sucesso do nosso trabalho.

Estão prontos para, pelos menos, mais 11 anos de festival?
O BONS SONS é um projecto de futuro. Ainda neste ano fizemos um estudo que indicava que 94% da população quer a realização do BONS SONS.
Acho que este número é a melhor resposta que lhe posso dar.

Playlist Bons Sons 2017

Cartaz e alinhamento Bons Sons 2017
11 DE AGOSTO
Ana Jezabel e António Torres
Band’olim
Singularlugar
Manuel Fúria e os Náufragos
Groove Salvation
Thunder & Co
Whales
Surma
Glockenwise
Capitão Fausto
Virgem Suta
Holy Nothing

12 DE AGOSTO
Lander & Jonas
Lucía Vives e João Raposo
Filipe Valentim
Les Saint Armand
Ballroom
Filipe Sambado
Señoritas
Mão Morta com Mutantes S21
Throes + The Shine
Medeiros/Lucas
Né Ladeiras

13 DE AGOSTO
Carlota Lagido
Sampladélicos
Moços da Vila
Sonoscopia apresenta “Phobos, Orquestra Robótica Disfuncional”
Txiga
Celeste/Mariposa
Captain Boy
Joana Barra Vaz
Samuel Úria
Orelha Negra
Paulo Bragança

14 DE AGOSTO
Moçoilas
Sanct’Irene Ensemble
LST
Rodrigo Affreixo
Marco Luz
Valter Lobo
The Poppers
Octa Push
Frankie Chavez
Rodrigo Leão

Por: Sandra Pinto

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