À conversa com Sérgio Godinho, escritor de canções

Poeta? Músico? Ele é tudo isto, mas nada resume melhor Sérgio Godinho do que a expressão escritor de canções. Primeiro chegam as palavras, às quais Sérgio aninha as notas, notas essas que harmonizadas com cada uma das silabas fazem nascer canções imortais, canções que marcam, que se colam a nós, ouvintes como uma segunda pele. Canções que arrepiam. A pretexto do lançamento do emocional e excepcional álbum “Caríssimas Canções” estivemos à conversa com Sérgio Godinho. Num fim de tarde a pedir um copo de vinho, com o som de mais uma manifestação a inundar o exterior.

– O disco que agora nos chega às mãos teve a sua génese no livro “Caríssimas 40 Canções – Sérgio Godinho & As Canções dos Outros” que por sua vez nasceu do conjunto das crónicas que escreveste para o Expresso, “Caríssimas 40 canções”. Podemos dizer que cada uma dessas canções se enroscou a ti e nunca mais te largou?
(risos) É verdade, e muitas delas há muito tempo. As 40 canções que estão nas crónicas, como é evidente no espectáculo estavam menos e no disco, já explicarei porquê, estão ainda menos, todas elas têm muito lastro e estão na minha memória activa e afectiva há bastante tempo. Algumas são da minha adolescência e outras mais recentes, sem nenhuma ser muito, muito recente. Elas tiveram que ter essa sedimentação em mim. Às vezes não é necessariamente só a canção, em alguns casos é uma canção pela qual eu sou especialmente vidrado. Noutros casos é o autor. Mesmo nas crónicas foi um bocadinho difícil escolher qual a canção do Chico Buarque, ou qual a canção do Zeca Afonso. Bom, para o Zeca que começa o livro, «Os Vampiros» foi quase uma escolha óbvia, porque é de tal maneira poderosa a metáfora que ele construiu para caracterizar o país de então que foi absolutamente fulcral escolhe-la. Aliás, a canção tem muitos pontos de contacto com o país de hoje. É uma canção que está tremendamente actual!

– Gostaste de escrever essas crónicas para o Expresso? E porquê 40?
Gostei muito! Foi uma experiência de concisão, porque eram crónicas breves, crónicas a uma coluna. Isto não diz nada a muitas pessoas mas são 1800, 1850 caracteres. Eu tive que pesquisar cada caso, porque havia coisas que eu sabia perfeitamente, mas havia outras que eu não sabia e que descobri nessa pesquisa, semana após semana. Foi muito bom porque essa disciplina deu-me uma agilidade e fez-me encontrar um tom de escrita…para dizer a verdade cada crónica muda de tom segundo a canção, ou seja, dançam conforme a música. Quarenta porque as crónicas apareceram no ano em que se celebrava a efeméride dos meus 40 anos de canções, do meu primeiro disco, «Sobreviventes», e eu colei-me ao número 40. Havia também já um livro editado pela Abysmo, um livro grande com as minhas canções reinterpretadas por 40 ilustradores. É um livro muito interessante, até porque é de certo modo o retrato da ilustração portuguesa. Esse número 40 andou sempre a bailar… O livro de crónicas chamou-se de facto “Caríssimas 40 canções” porque que era esse o título das crónicas. Quando este ano esse livro foi lido por um dos programadores do CCB, o qual gostou muito dele, foi pensado o espectáculo. Assim, o espectáculo surgiu de um convite do CCB, e inseriu-se num evento que se chama Carta Branca.

– Há quem não valorize o factor memória. Achas importante manter viva a memória, neste caso de canções que nos eriçam os pelos?
Sem dúvida, e trazê-las para o presente! Precisamos manter essa memória e trazê-la para o presente. Mas eu acho que neste momento, e apesar de tudo, entre as novas gerações há um olhar mais para aquilo que existia antes. Houve uma altura, por volta dos anos 80 em que foi terrível. Foi a altura em que surgiu o Independente e tal, e parecia que o mundo tinha começado ali. Agora é diferente. Por exemplo, fico às vezes surpreso quando novos compositores pegam nas minhas canções, ou quando gente bastante nova me vem entrevistar e demonstram conhecer coisas minhas que não estudaram só no dia anterior, percebes? Vê-se que há ali coisas enraizadas.
Acho interessante e acho necessário, porque eu sempre olhei também para o que estava antes. Claro que com a música portuguesa não era simples…quando eu era adolescente havia poucas coisas de que gostasse, certos fados da Amália que eram excelentes canções, além de que a Amália cantava de uma maneira transcendente. Mas, de facto, o aparecimento do Zeca é um meteoro vindo do nada. Digamos que ele abre ali um caminho, e digo isto à vontade porque as minhas canções não são parecidas com as do Zeca, mas ele abre um caminho, um espaço, e isso é uma coisa espantosa. Na crónica de «Os Vampiros», a qual abre o livro, eu digo que “o Zeca abriu janelas onde nem sequer paredes havia”.

– Cada vez é mais importante manter vivas certas memórias…isso sente-se por exemplo em “Vendaval” e na história que contas…
É verdade, no espectáculo leio parte da crónica sobre essa canção, como ela nasceu. Acho que fica muito bem no meio daquela música, de repente aparecer uma parte só falada, mas a música continua com por baixo, e isso resultou bem. Eu canto o «Vendaval» completamente ao contrário e de uma maneira diferente do Tony de Matos. No fim faço uma pequena imitação, na última frase, dou uma à Tony de Matos (risos). As boas canções dão-se a várias leituras, e o «Vendaval» é uma belíssima canção!

– Gostas de pisar territórios estranhos e fazê-los teus…foi isso que aconteceu com a versão de “People Are Strange” dos Doors?
Bom, foi isso que aconteceu no espectáculo inteiro. Disse-o no princípio do espectáculo e está no disco. Disse-o nessa altura porque vou pisar esse tal território…é quase um aviso, a partir daqui… Começo com uma canção minha, «Última Sessão», que nem é muito conhecida, mas depois estou a convidar os outros! Como que a dizer, entrem…

– Serão as pessoas estranhas ou é a vida que as faz ser estranhas?
Acho que as pessoas podem efectivamente ficar muito estranhas com a vida, mas o estranho também depende do olhar do outro. Aliás, é isso que a canção dos Doors diz, «peolpe are strange, when you’re a stranger»… Quando tu és um estranho num território alheio podes muitas vezes sentir que as caras estão a olhar para ti e que há ali uma desconfiança mútua. Fui emigrante e senti um pouco isto, uma pessoa tem de conhecer o outro para se integrar. Eu faço isso naturalmente…mas há quem não faça.

– Apresentaste “Caríssimas Canções” ao vivo em diversos concertos. Com todos estes anos de cantigas o que sentes quando pisas o palco?
Nunca se sente exactamente a mesma coisa, pois as condições são sempre diferentes. Eu gosto do desafio do palco e gosto dessa coisa inevitável que é uma vez que o concerto começa ele tem que ir para a frente e só vai acabar dai a uma hora e meia, a não ser que caia o tecto ou assim (risos). Já me aconteceu ter de parar! Uma vez em Grândola num pavilhão desportivo que tinha o tecto de zinco, começou a chover com uma tal força que não se conseguia sequer ouvir a música, e depois falhou a luz e tivemos mesmo que parar. Mas estas são circunstâncias da vida…da vida de saltimbanco (risos).

– Ao ouvir o disco somos transportados para a sala onde aconteceram os concertos. Conseguimos sentir o ambiente daquelas noites. É este um disco de emoções?
Os concertos foram muito calorosos, as salas estavam cheias, tanto no CCB e na Casa da Música, ambos espectáculos que serviram de base ao disco. Esse transpor do ambiente para o disco é também um excelente trabalho do técnico de som, que aliás, trabalha sempre connosco. Quanto ao ser um disco de emoções, é-o com toda a certeza! De emoções e de vários teores de emoções, até porque é um disco que foca universos diferentes e línguas até… Mesmo nalgumas canções brasileiras canto-as de uma maneira diferente, pois canto-as com prenuncia portuguesa pois senti que não perdiam expressividade.

– No disco não entram todas as canções. Como se procedeu à escolha das que ficaram?
É um disco simples. Um CD que não seja duplo tem um limite temporal, pelo que tinha que fazer uma escolha…também é verdade que no espectáculo havia quatro canções minhas, mas que eram um à parte, excepto a primeira que de certo modo introduz o espectáculo. As outras não tinham sentido estar aqui, este é um disco de interpretação de canções alheias, portanto não fazia tanto sentido. Tiveram que ficar algumas canções de fora, na edição especial que tem um DVD há três canções que não estão no CD, é de certo modo um objecto que completa. Mas a escolha é sempre difícil, as escolhas dos alinhamentos são sempre difíceis. É difícil decidir como é que o espectáculo se desenrola, como é que as canções se ligam, a que está primeiro a que vem a seguir, a estrutura do espectáulo.

– Sentes-te muito próximo de alguns autores brasileiros (aliás, uma das tuas avós tinha origem brasileira). Como é que escolheste aquelas canções e não outras, sendo que gostas de tantas?
Eu queria muito que esses autores estivessem representados, no caso do Chico Buarque e do Caetano Veloso. São canções que de certo modo são muito significativas da maneira de criar deles. Por exemplo, a “Geni e o Zepelim” do Chico é uma canção violentíssima, pungente, mas também muito tocante. Lembro-me que num dos espectáculos fiquei emocionado ao cantá-la… Depois também gosto da canção “Sampa” é o retrato de São Paulo. Lá está é o retrato de um estranho que vem para uma cidade que não conhece, como ele diz “narciso acha feio o que não é espelho”. As outras foram escolhidas porque são canções muito especiais, como o “Carinhoso” do Pixinguinha, uma canção escrita há quase um século, e a “Conversa de Botequim”, que é uma música dos anos 30, e é uma delícia. Esta tinha que ser cantada em português do Brasil, ao contrário das outras que foram cantadas em português de Portugal sem perda de expressividade.

– Nesta aventura tiveste como companheiros Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo e Nuno Rafael. Como aconteceu esta aliança musical e criativa?
Tens toda a razão, é mesmo musical e criativa. Foi um trabalho de conjunto. Tudo aconteceu porque o Nuno Rafael toca comigo já há muitos anos, desde o princípio do século (risos)…soa bem não soa? Quanto ao Hélder e à Manuela dos Clã já tínhamos tido um projecto conjunto o «Afinidades», esse sim é do outro século (risos)…

– …aliás, participas no próximo disco dos Clã, correcto?
Sim, fiz três letras para três músicas do Hélder. Essas canções estão muito bonitas. Daquilo que eu conheço do disco vai ser um belo disco.

-…voltando atrás…
Pois, eu e o Rafael rapidamente chegámos à conclusão que tínhamos que evitar o tal cover de bar, a tal versão que ia enfraquecer em relação ao original. Tínhamos que ter uma actitude diferente, uma actitude em não houvesse um ponto de comparação. Quando eu digo que canto o «Vendaval» de uma maneira completamente diferente, se eu cantasse à Tony de Matos com aquele arranjo não ia ser bom. Assim, formámos esta pequena unidade. A Manuela quis entrar como instrumentista, pois toca vários instrumentos, o que se revelou uma grande surpresa para muita gente. Além de que a Manuela tem muito brilho no palco. Trabalhámos os quatro, de facto, olhando para as canções de uma outra forma, embora não as desvirtuando. Depois há um ou outro caso diferente, como o «Heartbreak Hotel» em que eu canto mesmo à Elvis Presley, deu-me muito gozo fazer aquilo assim, daquela forma. Mas de resto fiz tudo à minha maneira.

– Pode ou deve uma “cover” ser um acto criativo e não apenas interpretativo da criação de outrem?
Absolutamente! Aqui, neste disco nota-se bem que é um processo criativo. Numa cover tem de haver uma actitude, tem de haver um olhar.

– O que é para ti a sétima vida de uma canção?
É como os gatos (risos)…estas canções já tinham uma vida antes de mim, tinham-me acompanho durante toda a minha vida, depois viraram crónicas, depois apareceram no livro, depois foram os espectáculos e agora há um Cd e um DVD, acho que não sobra muito mais…(risos). De certa forma, o disco é o encerrar de uma cadeia com elos e mais elos que se vão ligando. É muito interessante, pois torna-se quase como uma coisa conceptual. No meio disto tudo houve imagem, porque o livro tem as ilustrações do Nuno Saraiva, portanto houve toda uma reconversão noutra arte. E isso é muito interessante. E até a possibilidade de cantar estas canções todas…eu sempre gostei de cantar canções dos outros. Claro que os meus espectáculos estão mais contidos ao meu reportório com uma ou outra excepção.

– Amiúde as tuas canções são alvo de reinterpretações por parte de jovens cantores nacionais, como Márcia (”Às vezes o amor”) ou B Fachada (“Os Sobreviventes, seu primeiro disco). Também eles mantêm viva as memórias de canções, neste caso tuas. Gostas de ouvir as suas canções com outras roupagens?
Já ouviste o «Às vezes o amor» pela Márcia? Está muito bonito não está? Está muito tocante.
Gosto sim. Não posso dizer que gosto de tudo, mas também não tenho que gostar. O que eu acho interessante é que uma canção tenha mais do que uma vida. As canções interpretadas por diferentes músicos podem pulsar de uma maneira diferente, e isso é muito interessante.

– Já escreveste um livro de poemas “O sangue por um Fio”, neste momento escreves um livro de contos. Qual o género de escrita que te dá mais prazer?
É diferente. O livro de poemas era mais críptico, muito afastado do que seria uma canção, digamos que é mais difícil, foi assim uma viagem de cabeça. Os contos são também…não vou dizer que são difíceis, são levezinhos, mas têm sumo, e que me estão a dar gozo fazer…

– …e têm “sangue”?
Sim, têm “sangue”, aliás o sangue flui sempre (risos).

– Quando será lançado o livro de contos?
Quero que saia para o ano…sim para o ano é lançado.

– Falámos há pouco do Zeca…ele compôs “Os Vampiros” quando tinhas cerca de 18 anos, revelas no disco, afirmando a actualidade desta canção. Impossível não perguntar, como vês o Portugal de hoje e como encaras o futuro deste que é o nosso país?
Futuro tem de haver, mas a coisa está muito negra, o presente está como se diz na canção “com o acesso bloqueado”. Estão a acontecer coisas terríveis, há imensas e enormes injustiças sociais, vê por exemplo o número de crianças que perderam o direito ao abono de família, é cada vez maior…conheço certos casos de pessoas que vivem no limite da sobrevivência e a quem tiraram essa ajuda…é uma coisa horrível.
Mas tem que haver futuro. E nós também temos de construi-lo! Isto é muito importante!

– Estiveste sete anos sem poder vir a Portugal…
Estive nove anos lá fora, mas de facto foram sete sem poder cá entrar, pois nos primeiros dois anos ainda pude vir pois estava a estudar na Suíça. Depois deixei de estudar e fui chamado para a guerra, para o serviço militar, e nessa altura claro que não vim. Mas acho que é importante estar fora daqui. Eu saí de Portugal aos 20 anos porque queria começar a viver, a ser responsável pela minha vida…mas não se pense que era infeliz, pois eu tive uma infância e uma adolescência boa, pelo que não saí a fugir de alguma coisa. Acho que chega uma altura em que é preciso sair…faz-me alguma confusão que muita gente não saia de casa dos pais. Felizmente os meus filhos foram sempre impecáveis nisso.
Viver noutro país, com outra cultura, conhecer bem outra língua (no meu caso foram duas, a inglesa e a francesa) é muito importante porque nos abre a cabeça e nos faz pensar de outra maneira. Estar fora ensina-nos a conhecer o outro, aquilo que é o tal “strange” que falávamos sobre a canção dos Doors, ajuda a torná-lo familiar. Para mim viver no estrangeiro foi uma experiência indispensável na minha vida. Quase que era uma respiração…eu precisava daquilo.

– Olhando à nossa volta, em especial para a camada mais jovem da população portuguesa, muitos dizem que já não sonham que já não anseiam…Ainda é possível sonhar? O sonho ainda é importante?
Claro! O sonho ainda é importante! Não se pode perder isso…é uma pena que não exista cá trabalho para gente nova, mas acho que se tiverem que ir trabalhar para um país estrangeiro aproveitem essa oportunidade para conhecer outras coisas…e hoje há companhias low cost que tornam mais fácil chegar do estrangeiro a Portugal do que a Lisboa vindo de Bragança, por exemplo. É preciso aproveitar a vida e fazer coisas com ela, não ficar derrotado.

– Primeiro a música depois o texto. Ainda crias assim, ao contrário do que as suas canções indiciam?
Sim, geralmente parto de uma base musical. Por exemplo, as três canções que fiz para os Clã, eram três músicas que o Hélder tinha e eu coloquei a letra nessas músicas. É assim que eu trabalho, porque a frase já tem uma musicalidade que está colada com a música. A ti quando ouves parece que eu não faço assim porque a palavra toma uma preponderância muito grande, mas a verdade é que a letra só existe porque existe aquela música.

– Compor é algo essencial na tua vida?
Criar é, compor não. Por exemplo, agora não estou a compor, mas estou muito fixado nos contos. Tenho sido interrompido, por exemplo, pelas letras que escrevi para os Clã, mas antes disso com este espectáculo e com outras coisas que estive a fazer. Neste momento estou empenhado nisto, mas certamente criarei outra vez novas canções. Penso que nunca deixarei de escrever canções! De qualquer forma penso que já tenho um bom património (risos).

Por: Sandra Pinto
Fotos: Filipe Ferreira, João Messias, José Mendes

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