À conversa com The Rising Sun Experience

Lisboa serviu de cenário ao nascimento dos The Rising Sun Experience, banda que vai buscar inspiração ao universo mais psicadélico da música. Fique a conhecê-los melhor nesta entrevista.

Nasceram em Agosto de 2006. Por onde andaram até essa data?
A banda foi formada em 2006 pelo Tiago Jónatas e pelo Alexandre Lopes. Até essa data andávamos todos em várias bandas e projectos.

Como se conheceram e como descobriram que tinham o rock psicadélico em comum?
A partir do núcleo duro formado pelo Alex e pelo Tiago, foram sendo convidadas pessoas que se identificavam com o propósito da banda. À medida que algumas foram saindo, outras foram entrando, mas logo à partida ficou definido o estilo e direcção artística da banda.
O Alex trouxe o Nelson, porque o ouviu cantar na Foz do Arelho e achou que se enquadrava na banda. Trouxe também o Daniel Matias para a bateria. O António Lopes Gonçalves foi convidado para gravar órgão para o disco e acabou por ficar. O Nelson trouxe o Ivo Santos para a percussão, que acabou de sair e deu lugar ao Daniel Surrador. Após a gravação do disco, o Alex saiu da banda e aí o Tiago contactou o Nuno Cardinho através de um fórum de música, pois tinham o mesmo interesse em comum por pedais de efeitos e material vintage. Assim entra a guitarra.
O Daniel após a gravação do primeiro disco sai e o Tiago trás o Nuno Oliveira para a bateria que após alguns anos é substituído por Nuno Silva, este trazido pelo Cardinho e com o qual gravámos o nosso segundo álbum.

Falem um pouco sobre cada um dos seis membros da banda…
O Nelson Dias, voz, é músico a tempo inteiro e tem outro projecto musical. O Tiago Jónatas, baixo 5 cordas e electrónica analógica, é técnico de som, produtor e músico. O António Lopes Gonçalves, órgão Hammond e synths, é músico (um incrível guitarrista) e produtor musical. O Nuno Cardinho além de guitarrista e aficionado de instrumentos e gear vintage, também trabalha em gestão. O Nuno Silva é o baterista e está a estudar engenharia de som. O Daniel Surrador é o nosso novo percussionista, também é baterista, músico, e fiel de armazém.

Lançaram o primeiro disco, Under the Same Sun, em 2009. Como é que tudo aconteceu?
O Tiago e o Alex, como já tinham tocado e gravado juntos noutras bandas, decidiram desta vez gravar primeiro um disco e só depois começar a tocar ao vivo, fazendo o inverso do que é prática corrente no início do percurso das bandas.
Assim foi. Jntaram as pessoas e começaram a compor para o disco, depois foi gravar e tratar de toda a logística envolvente na produção de um disco. A parte gráfica ficou a cargo de Helena Esteves, foi masterizado nos Estados Unidos e saiu com o apoio de uma editora de Barcelos, a Sonic Infusion Records, que já não existe.

Quatro anos depois nasce Beyond the Oblivious Abyss cujas músicas nos transportam para o universo do rock da década de 70. Era essa a vossa intenção? O registo está exactamente como o sonharam?
Completamente! A referência deste projecto é ter influência dessa época de ouro do rock, o final dos anos 60 e início dos anos 70, tentando recuperar o que nós achamos que era bom, musical, estilística e artisticamente. Trazer de volta o timbre do órgão e das percussões para o rock, dando destaque ao primeiro, colocando-o de novo à frente, deixando, desta forma, de estar lá para trás só para acompanhar, para passar a ganhar também um carácter solista como em algumas bandas de rock clássico. O disco está exactamente como o queríamos, pelo estamos muito contentes com o resultado.

Porquê esse fascínio pela décadas de 60 e 70?
O final da década de 60 e início da década de 70 foram tempos de mudança a nível mundial, o que também se reflectiu na música. Foi uma época em que as bandas rock começaram a experimentar novas técnicas de estúdio, de estrutura e composição musicais, chegando algumas a fugir ao formato canção. Começou a dar-se ênfase aos solos e às partes improvisadas, experimentaram-se novos instrumentos eléctricos e novos efeitos estavam a ser descobertos.
Na nossa opinião esta foi uma época bastante criativa, experimental e artística com a qual nos identificamos totalmente.

E o nome The Rising Sun Experience porque…
O nome da banda é explicitamente uma homenagem ao Jimi Hendrix. “First Rays of The New Rising Sun” era o disco que o Hendrix estava a gravar quando faleceu em 1970, e a banda que o tornou conhecido foi The Jimi Hendrix Experience.

Jimi Hendrix é a vossa grande referência na música? Que outros nomes vos motivam?
Jimi Hendrix não sendo especificamente uma influência musical directa da nossa banda, foi bastante importante e proeminente para músicos de vários géneros musicais do final dos anos 60´s e durante os 70´s tais como, Funkadelic, Deep purple, Captain Beyond e mesmo Miles Davis.
Teve uma importância enorme para a evolução da guitarra, mas a nós, como banda, influencia-nos mais o seu lado aberto e experimental de ver a composição musical no rock. Em vez de nomes é mais fácil dizer estilos que nos motivam, o rock clássico, o stoner rock, o rock progressivo e psicadélico, música experimental e electrónica de carácter analógico.

A banda tem seis elementos. Como funciona o vosso processo criativo?
Todos contribuem com ideias para temas, o Tiago estrutura e produz e depois todos colaboram para os arranjos finais. Basicamente este tem sido, até agora o nosso processo criativo.

Como banda qual é o vosso principal objectivo?
Continuar a gravar discos e a tocar ao vivo. Acima de tudo continuar a fazer música que gostamos com integridade e como forma de arte.

Ainda não tivemos oportunidade de vos ver ao vivo, mas através da audição do vosso último registo suspeitamos que serão actuações intensas…gostam de estar em cima do palco?
Diríamos que estar em cima do palco, é, em paralelo com o processo de gravação e criação de músicas/álbuns, o culminar de um processo altamente prazeroso em todas as fases. Passamos da sala de ensaio onde trabalhamos e nos divertimos a montar os nossos temas e a conviver entre nós, para partilhar com os amigos, fãs ou perfeitos desconhecidos a nossa arte e o nosso trabalho/criação artística. As nossas actuações são, sem dúvida, intensas e bastante dinâmicas. Os temas e as estruturas das nossas músicas ajudam-nos a montar um espectáculo que achamos ser interessante e que mexe com as perspectivas das pessoas… Gostamos de proporcionar uma experiência sónica e de concerto que possam recordar mais tarde pela sua componente original e de alguma surpresa. Por vezes colamos músicas umas às outras, estendemos improvisos que não estão gravados, adicionamos momentos em que as pessoas tentam perceber o que se está a passar e qual é o fio condutor…e isso é muito bom para nós que estamos ao volante desse processo e para o público acreditamos que também.

A reacção do público é a vossa maior recompensa?
A nossa maior recompensa é poder criar, gravar e produzir boa música e depois levar isso às pessoas, mostrar e dar a conhecer. O público é essencial para qualquer artista e nós não somos excepção. Diríamos que tudo isto funciona como um todo, e a reacção do público e a crítica, são uma das partes importantes. Ter feedback é essencial, e no nosso caso, tem sido altamente motivador e justifica todo o trabalho envolvido. A recompensa maior é o podermos fazer arte. É assim que vemos a banda e a música, acima de tudo!

A aceitação ao vosso último registo discográfico tem sido muito boa. Estavam à espera desta reacção?
É verdade! Tem mesmo, em especial lá fora! Em Portugal tivemos bom feedback, alguma atenção e publicidade em blogues, sites de música e alguma imprensa escrita e rádio (Antena 3 e Radar). Na verdade, mais ou menos o expectável dada a dimensão do nosso mercado e da banda em si, em termos de relevo que temos. Temos management e agenciamento desde pouco tempo antes do lançamento do álbum, pelo que, e em virtude dos novos contactos e entidades a quem fomos apresentados, tivemos acesso a um mundo novo. Ao mundo das reviews internacionais e da atenção por parte de outras entidades estrangeiras que desconhecíamos. É indescritível e muito motivante todas as semanas, e durante algum tempo após o lançamento digital, todos os dias ler novas análises e interpretações ao nosso disco. Sentir que nos USA, UK, Alemanha, Holanda, Grécia houve pessoas que se sentaram a ouvir com atenção o disco, e que depois escreveram sobre essa experiência, o que sentiram ao fazê-lo, é incrível. Há todo um sentimento de fecho de círculo, em que a obra foi criada e depois consumida, digerida, e partilhada com outros… É giro perceber que na Internet é assim que funciona. Consomes, divulgas, partilhas… e quando vem lá de fora, de quem entende e partilha a nossa mensagem artística, essa partilha, é ainda mais entusiasmante. Claro que ainda não somos uma banda com grande exposição internacional, mas também é verdade que sentimos que lá fora, havendo já estruturas organizadas neste estilo artístico, é mais fácil e prazeroso opinar e comentar o nosso disco. Em Portugal tentam encaixar as bandas rock num mesmo pacote, por vezes as abordagens criticas não fazem grande sentido porque as coisas não podem ser comparáveis. Não somos únicos nem especiais, mas achamos que é na criação de movimentos artísticos que reside o futuro de algumas estéticas e da sua divulgação. Em Portugal basicamente transcreveram as nossas newsletters. Poucos escreveram criticamente sobre o disco. Mas lá está, é uma forma de estar pelos vistos transversal a várias matérias e não apenas a música ou a arte (isto foi-nos dito por vários jornalistas). Houve uma altura em que até brincámos entre nós, que devíamos ter escrito na newsletter de apresentação e press-release do disco que éramos uma banda incrível, espectacular e super interessante. Se o tivéssemos enviado, era isso que iriam ler sobre os The Rising Sun Experience em vários blogues e sites.

Acham que existe hoje um certo saudosismo musical? Ou será nostalgia de quem viveu aquelas décadas de ouro da música?
Há hoje e sempre haverá. No entanto, e como tivemos oportunidade de referir noutra entrevista (RTP), não existimos de forma a captar ou reviver o revivalismo de toda aquela época. Pretendemos recuperar, como foi dito lá atrás, parte da estética e da liberdade expressiva e artística associada a esses tempos áureos. Não sabemos se é tudo nostalgia ou saudosismo, mas a verdade é que há toda uma geração de adolescentes que estão a descobrir diariamente as bandas de outros tempos e vão para a escola com t-shirts dos Zeppelin, dos Pink Floyd, dos Deep Purple, etc e não nasceram nem viveram nos 60’s e 70’s. A verdade é que esta é a génese de quase tudo o que existe do rock ao jazz passando pelos blues. Deduzimos que o nosso público mais sénior gosta de reconhecer em nós essa componente musical, mas também é importante referir que o fazemos com uma perninha completamente actual e dinâmica. Achamos que a banda só tem a ganhar com isso, mas é altamente gratificante o colocarem-nos nesse patamar.

O público mais jovem adere bem ao vosso género de música? Porque acham que isso acontece?
O público mais jovem descobre todos os dias e a uma velocidade estonteante novas bandas, estilos e músicas. Toda a gente sabe que hoje em dia se consome música de forma muito eclética e rápida. Nos leitores de mp3 estão os estilos todos misturados. Na nossa banda ainda há a recordação de quando os grupos de malta da escola se dividia e agrupava em função do estilo de música que ouviam, para além do bairro ou zona onde viviam. Hoje em dia isso já não acontece de forma tão demarcada. Por isso achamos que há jovens que, como já dissemos, descobriram as bandas clássicas e gostam de ver bandas actuais inspiradas por essas bandas. Funciona como referência, até porque a grande maioria também tem bandas e gostam de saber o que se está a passar. Mas tudo isto é por modas e ter malta nova a aderir é e será sempre bom.

Se vos dessem a escolher um nome internacional para partilhar uma música vossa qual seria a vossa escolha?
Jon Lord teclista de Deep Purple, mas também já falecido…

Próximos concertos dos The Rising Sun Experience, onde e quando?
Para já no dia 20 de Dezembro no Musicbox, em Lisboa.

https://www.facebook.com/therisingsunexperience
Por Sandra Pinto

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