À conversa com Moonspell

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Fomos ao Cinema São Jorge assistir ao visionamento do documentário “Road To Extinction”, o qual acompanha a vida dos Moonspell aquando da gravação do seu mais recente registo discográfico. “Extinct”, assim se chama, chega aos escaparates no dia 06 de março e foi ele o pretexto para trocarmos dois dedos de conversa com Fernando Ribeiro, vocalista da banda.

“Sem música a vida seria um erro” escreveu Friedrich Nietzsche. É assim para ti?
É…e foi-se tornou-se assim. O Nietzsche tem coisas mais profundas para dizer e até mais interessantes, mas o que muitas pessoas desconhecem à cerca dele é que ele também foi músico, um músico frustrado que escreveu algumas peças para piano, as quais, depois de muita pesquisa consegui comprar e que até estão disponíveis na Internet. Sendo uma pessoa do pensamento, o Nietzsche sempre percebeu o poder da música daí a relação complicada dele com o Wagner, pois sempre percebeu, de uma forma um bocado frustrante para ele, que aquilo que ele fazia na música nunca iria ter aquele poder de expressão. A música, não só enquanto forma de comunicação mas, essencialmente para nós, Moonspell, como forma de autoexpressão, não se mistura com a nossa vida, ela é de facto a nossa vida, como é a de tantas outras bandas. Anunciámos o título do novo disco no Dia Internacional da Música e essa frase do Nietzsche permitiu mostrar o nosso compromisso e a nossa, não diria teoria mas pelo menos, expectativa de que a nossa vida seria muito mais errada ou com muitos mais erros se não tivéssemos os Moonspell.

Mais de vinte anos de vida de uma banda é obra…Olhando para trás que balanço fazes do percurso dos Moonspell?
O melhor balanço que faço neste momento é que não tenho verdadeiramente tempo para fazer balanços! As coisas vão acontecendo…lembro-me de em 2012 estar no Aeroporto de Moscovo com o Mike, nessa altura os Moonspell faziam 20 anos…e eu sabia disso, mas nem sequer me lembrava pois estava em tournée. Este ano o “Wolfheart” faz 20 anos, para o ano é o “Irreligious” que celebra duas décadas de vida, pelo que facilmente e de forma involuntária quase que podíamos cair numa espécie de celebração anual da nossa carreira! Se fossemos outros, talvez em vez de estarmos a fazer um disco novo estaríamos a preparar uma tournée “Wolfheart” e depois outra “Irreligious”…Claro que o nosso passado é importante e tudo o que conseguimos até agora também o é, mas mais importante para nós é não vivermos para o passado, ele faz parte mas nós não vivemos para o celebrar. Tenho horror a que os Moonspell entrem numa zona de conforto tornando-se num tributo a si próprios. É bom tocar o “Wolfheart”, mas também é bom ter novidades e outras coisas para explorar. Por este motivo nunca fiz um grande balanço, mas agora que me perguntas, se o fizesse diria que, acima de tudo, sobrevivemos, umas vezes com estilo, outras sem ele (risos).

Nunca tiveste vontade de desistir durante o percurso?
Ocasionalmente as pessoas pensam nisso. Nós, para evitarmos isso sempre vimos os Moonspell como uma coisa um bocadinho à parte dos membros que a fazem. Quando temos de tomar uma decisão que é difícil pessoalmente, partimos sempre do ponto de saber se vai ser uma coisa boa para a banda. Esta postura sempre nos permitiu encontrar caminhos e alternativas e nunca desistir. Houve fases um pouco piores, mas nunca houve ninguém que saísse da banda ou que o quisesse fazer, e falo, obviamente, dos membros que estão cá agora. Todos nós aprendemos melhor a lição do que os outros que entretanto foram saindo. A verdade é que sair dos Moonspell é cortar tão radicalmente como sair de uma família.

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Vocês transmitem essa ideia, de família… Há, aliás, uma certa uma tranquilidade nos Moonspell…
Nós mantemos a tranquilidade, não deixamos o caos passar cá para fora (risos). Houve uma altura da nossa vida em que, como Moonspell, ou aprofundávamos os laços ou nos dispersávamos, algo que, parece-me, acontece a todas as bandas. Os Moonspell nunca iriam funcionar como banda com cada um a viver no seu sítio e sem termos um contacto tão direto como o que efetivamente temos. A banda também se faz de partilhas, o que por vezes é mais complicado, outras é menos, mas lá está, somos o tipo de banda que escolheu aprofundar os laços entre os seus elementos. Tanto assim que este disco foi um grande desafio, pois levar toda a gente para a Suécia, estar lá 35 dias seguidos a gravar não foi simples. Apesar de não gravarmos todos ao mesmo tempo, a banda esteve junta durante todo o processo, ninguém veio embora. Insisti muito para que o disco fosse feito desta forma, pois como é óbvio todos temos vidas pessoais e gostamos de passar tempo com as nossas famílias, com os nossos filhos. Podíamos ter optado por fazer o disco via net ou via skype, mas não, quisemos fazer de forma diferente, e isto faz parte do aprofundar os nossos laços.

Como é que funciona o vosso processo criativo?
Começa sempre por uma conversa…

És tu o homem do leme?
Não gosto muito de dizer essas coisas porque sei perfeitamente que nos Moonspell, apesar de eu ser a cara que o público mais conhece, temos a sorte de ter pessoas com um enorme valor intrínseco. Digo sempre aos músicos que quando formarem uma banda o façam com pessoas que além de músicos sejam bons noutras áreas, como o design, a contabilidade, a composição…Eu sou o agitador, isso definitivamente! Sou uma pessoa que nunca está verdadeiramente satisfeita e que nunca esta confortável com nada e que tem sempre coisas para dizer. Esse é o meu papel. Quando vejo que a banda está a cair numa zona de conforto ou que vamos ter uns meses de habituação, vou lá e pico os outros (risos). Se um dia pararmos acho que será para sempre, pois não somo o género de banda de dar um passo atrás para depois avançarmos dois à frente. Isso não irá acontecer connosco, de todo. Somos todos diferentes, uns são mais entusiastas, outros são mais discretos, e o meu papel na banda é fazer algumas coisas acontecerem.

Chega agora “Extinct”. As letras são todas tuas?
Sim, são.

Qual o conceito por detrás do disco?
“Extinct” é uma palavra que encerra já um conceito. Quando pensei nesse título era muito mais para descrever uma espécie de extinção de coisas que me eram queridas pessoalmente. Tenho 40 anos, há muitas referências da minha época que já não existem ou que não têm importância sem ser para mim e poucos outros. Acho que isso é uma espécie de extinção, porque é um vazio permanente. Apesar de ser uma metáfora, enquanto a extinção biótica é mesmo uma realidade científica, há uma emoção que se estabelece entre as duas que é muito notória e muito evidente. É esse o sentido do disco, um bocado capturar essa emoção das coisas que se vão. Este é o primeiro sentido, porque depois quando o fomos tocando mais, quando fui escrevendo mais, quando fui lendo mais e contactando com especialistas, apercebi-me que a extinção também tem o seu quê de adaptação, é algo que nós temos de fazer até com as pessoas que amamos para conseguirmos viver minimamente, nem diria em sociedade, diria muito mais em família, com filhos. É também uma realidade por vezes inevitável, outras nem tanto. No fundo, há uma grande luta contra a extinção, e o álbum também foca muito dessa luta, não é só o vazio, mas também a forma como tentamos preencher esse vazio.

Tudo isso implica uma certa dor, a dor de perder algo…
O que é que não implicar dor? Acho que é mais por aí…Os Moonspell são o tipo de banda que fala sobre isso, esta é a nossa maneira de lidar com isso. Não pintamos o mundo perfeito, não falamos sobre fadas, sobre arcas do tesouro ou sobre os sítios fixes no Cais do Sodré (risos). Principalmente neste álbum, onde há muito menos ficção, onde existem muitas mais perguntas, no fundo é um álbum com uma assinatura menos ficcional e mais pessoal. O disco conduz-nos para uma forma mais verdadeira de contar a nossa história, de não ser apenas um disco de uma banda com determinadas balizas estéticas, com um estilo e umas letras muito determinadas… Por outro lado, ao ouvirmos o disco outras coisas vão surgindo criando uma certa ambiguidade que é muito importante para os Moonspell. Nunca quisemos passar a ideia de que somos uma banda completamente negativa e pessimista, claro que, comparados com outras bandas portuguesas, sim, se calhar somos…

No projeto anterior, “Alpha Noir/Omega White”, estavam já presentes essas duas facetas, uma mais dark e a outra menos negativa…
Sim, sem dúvida. Musicalmente e liricamente há no disco uma faceta mais clara, mas não dizemos que a vida é bela. Não gosto desse tipo de música, não me diz nada e, definitivamente, isso não é Moonspell! Criámos esta banda, não porque estávamos contentes, mas sim porque estávamos zangados e frustrados e queríamos transmitir isso da forma mais poética possível. Os Moonspell não existem para contar as nossas histórias do quotidiano.

O artwork é da autoria de Seth Siro Anton, de que forma aquela imagem ilustra o conceito do disco? Aquela imagem é a que no início tinhas pensado para transmitir o conceito do álbum?
Não era, mas nós demos carta-branca ao artista que trabalhou connosco. Imaginei muita coisa, mas eu não sou artista plástico… Falámos muito, trocámos muitas opiniões sobre o conceito e acho que ele fez uma capa muito dura. Mas também escolhemos trabalhar com ele porque ele consegue misturar muito bem a beleza e o horror, que são os dois pontos que os Moonspell de alguma forma focam na música e nas letras. Esta é uma capa que dividiu muita gente, especialmente por causa da amputação dos membros, mas “Extinct” não é um álbum sobre perfeição, é um álbum sobre imperfeição e o Seth conseguiu transmitir a violência que é arrancarem partes de nós e termos de viver com isso, de sobreviver com isso. Houve muita gente que não gostou da capa, que a achou gratuita, mas eu, pelo contrário, acho que é uma capa que pode de alguma forma ser carnal e ofensiva, mas que faz, simultaneamente, um grande contraste com a música do álbum. E isso, a meu ver, é importante.

Existe ali quase um complemento…
Sim, existe. A capa é outra maneira de contar a história, é isso também é o que nós procuramos com as nossas capas.

“Extinct” foi produzido por Jens Dogren. Em que é a sua participação influenciou o disco?
O Jens deu um contributo muito pessoal. Ele não é um compositor, mas sim um produtor na verdadeira aceção da palavra. Havia a parte emocional e o brilhantismo nas técnicas de captação do som que queríamos, mas também procurávamos alguém que conseguisse expressar de uma forma muito natural a nossa música, e tudo isso encontrámos no Jens. É sempre um tiro no escuro! Nós conhecíamos o Jens por ele ter trabalhado com outras bandas, algumas até mais metaleiras do que nós, mas apanhámo-lo numa encruzilhada, numa altura em que ele queria afastar-se um pouco de trabalhar com música tão formatada. A verdade é que veio trabalhar algo que não estava nada formatado, com uma banda portuguesa dona de uma personalidade completamente diferente e que tinha a ideia de fazer um disco mais gótico. Curiosamente, ele já conhecia os Moonspell pelos trabalhos “Irreligious” e “Sin”, porventura os nossos álbuns mais goth, juntamente com o “Darkenees and Hope”. Mas o Jens no seu coração é um gótico, pois tem os Sister of Mercy como banda preferida, assim como os The Mission, e o estúdio dele na Suécia chama-se “Fascination Street Studios”, título de uma canção dos The Cure! A partir daí conseguimos estabelecer um contacto muito bom com ele. Este fator humano, aliado ao profissionalismo e ao facto de ele ter tido a paciência e também o condão de nos guiar naqueles períodos em que já estávamos cansados, com muito ânimo, revelou-se fundamental. Tudo junto fez com que o Jens se viesse a revelar uma pessoa fundamental para este disco, principalmente na parte vocal. O Jens conseguiu trabalhar todos os músicos de uma maneira muito rigorosa e com muita disciplina, mas sempre com muita paciência para nos levar até ao ponto onde devíamos estar. Gravar com ele foi voltar a um estúdio old school, mais tradicional, com toda a gente a gravar e isso fez-nos muito bem. Acho que isso se nota bem no resultado final.

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Os Moonspell passam muito tempo lá fora. O que é que Portugal representa para ti e para banda?
É a nossa casa! Acho que isso diz tudo. Fomos aliciados a ir viver lá para fora muitas vezes, algo que talvez até fizesse sentido para a nossa carreira, mas penso que sair de Portugal nos faria perder um pouco o nosso “mojo”, a nossa inspiração. Não quer dizer que goste de tudo em Portugal, há coisas que me aborrecem profundamente, principalmente neste Portugal moderno, mas, sem dúvida, que é uma relação de casa, de voltar a casa. Vai mais além da zona de conforto porque, e mais uma vez te digo, as melhores coisas da nossa vida não se explicam…tu não sabes porque é que gostas de determinada pessoa e não de outra, ou porque é que aquele vinho te sabe melhor do que o outro, e é um bocado por aí… Mas a verdade é que fazer carreira em Portugal é um pesadelo, para nós e para todas as bandas de metal ou góticas, ou mesmo de outro estilo. Depois há o outro lado, a nível literário e de envolvência Portugal é um país muito bonito, com grande valor e de que eu gosto. Claro que tenho de me abstrair de certas coisas, como toda a gente, mas nós nunca nos mudaríamos de Portugal, era quase como cortar o cabelo ao Sanção (risos).

O meu filho de 12 anos descobriu-vos há pouco tempo, sozinho sem a nossa influência, e quando soube que eram portugueses não queria acreditar. Obviamente tens noção de que o vosso som é internacional, até para estas gerações mais novas…
A sério?! Eu também comecei a ouvir metal aos 12 anos (risos) …
Sim, há muitos anos que nos dizem isso, e na verdade talvez seja mesmo. Temos muito das tradições portuguesas nas nossas letras, mas acho que o que aconteceu foi exatamente termos conseguimos fazer algo com uma qualidade e uma expressividade tal que as pessoas pensam que é uma banda estrangeira. Não acontece só connosco, acontece também com outras boas bandas portuguesas. Isso tem muito a ver com o estilo de música, mas também com a qualidade com que as coisas são feitas. Não sei se é ou não um elogio, mas pelo menos o facto de não haver uma distinção negativa por ser português já é uma espécie de elogio (risos).

Daqui a pouco vamos ver o documentário “Road To Extinction”, como surgiu este projeto paralelo ao disco?
O Vítor, além de nosso amigo, já realizou alguns videoclipes dos Moonspell, inclusive o novo videoclip retirado de “Extinct”. O processo de criação do documentário foi completamente diferente. Tal como acontece com todos os artistas que trabalham connosco, demos carta-branca ao Vitor, limitámo-nos a ser nós próprios com a intenção clara de transmitirmos três coisas: mostrar o making-off do disco, com tudo o que isso implica, ou seja, mostrar todo o processo desde a discussão sobre uma nota até à decisão de qual a melhor e posterior gravação; mostrar o quotidiano dos Moonspell como banda que escolheu o caminho de aprofundar as relações entrte os seus elementos, o que trás uma dinâmica curiosa e diferente, além dum certo sentido de camaradagem e de crença no disco (só assim foi possível estarmos todos juntos 35 dias na Suécia); e, por fim, mostrar a relação que mantivemos com os cientistas que colaboraram no documentário e que nos ensinaram muito sobre o próprio conceito, com uma emoção muito própria. O documentário retrata muito bem aquilo que somos, não só enquanto banda, mas também enquanto pessoas. Foi uma grande emoção fazer este documentário e estou muito grato ao Vitor e a todos os intervenientes.


O que é que podemos esperar dos dois concertos de apresentação do álbum?

A ideia é expandir mais o conceito de “Extinct”. Vamos ter um grande cenário, pensámos em grande! Há quem nos diga que as coisas hoje são mais minimais, que as pessoas já não se importam…pois eu acho que isso é um bocado falsear o que as pessoas querem ver! As pessoas quando investem dinheiro para ir ver uma banda não querem ver um espetáculo “mixuruca”!
Claro que grande parte do alinhamento vai ser do “Extinct”, pois pretendemos tocá-lo na íntegra. Mas vamos ter uma produção muito maior, especialmente para o concerto do Coliseu de Lisboa, que vai ser o maior da tournée. Vamos ter no alinhamento muito “Wolfheart” que, tal como já disse, faz 20 anos, e temos de alguma forma celebrar o disco, mas acima de tudo, visual e emocionalmente tenho a sensação de que vai ser um espetáculo memorável. Vai ser um espetáculo com outro tipo de atitude, mais adulta, talvez menos de entretenimento metaleiro, mas mais de contar uma história, mais teatral, mais narrativa. Daí a aposta nos cenários e nos efeitos visuais.

Neste disco não tens a colaboração do José Luis Peixoto…
É verdade! Desde o álbum “The Antidote”, tanto ele como nós temos trilhado outros caminhos. Também não queríamos repetir, mas acho que até ao fim dos nossos dias ainda vamos colaborar mais vezes com o José Luís (risos).

Qual é hoje o teu maior desejo? Como músico, como Pai, como pessoa…
Acho que o meu maior desejo é viver e não simplesmente sobreviver! Quando digo isto refiro-me a não dedicar a minha vida a uma rotina, especialmente agora com o meu filho, Fausto. Ter filhos é uma altura muito propícia a vivermos experiências novas.
Dentro de toda a escuridão que existe, acho que este viver com elegância, com estilo e também com vitalidade é o meu principal objetivo, enquanto pessoa e músico. Ter uma vida interessante…vejo muita gente a ter uma vida cinzenta, mas que não faz nada para mudar isso. Tenho horror a que tanto eu como os Moonspell caiam numa espécie de zona de conforto que é terrível, pois não é nada uma zona de conforto, é isso sim, um poço negro!

Moonspell concertos de apresentação “Extinct”
Dia 27 de março
Coliseu de Lisboa, Lisboa
Dia 28 de março
Hard Club, Porto
www.everythingisnew.pt

Texto: Sandra Pinto

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