À conversa com Kilindu

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Dão pelo nome de Kilindu e fazem música inspirada nas andanças dos portugueses pelo mundo. Nas suas melodias descobrimos Portugal e África, mas também Brasil. Estivemos à conversa com Pedro Alves Duarte, compositor, guitarrista e manager da banda e João Pedreira que é o cantor e letrista, ambos fundadores da banda.

Qual o significado de Kilindu?
Pedro Alves Duarte – Segundo o que me foi possível apurar, Kilindu é um nome originário da cultura Bantu de Angola. Esta referência chega-nos principalmente através da música, os ritmos bantus adicionados às melodias europeias trovadorescas dos marinheiros Portugueses, criaram o estilo musical Lundu.
Essa forma musical prestava homenagem ao destino que no dialeto bantu tinha o nome de Kilindu, a divindade responsável pelo destino de cada pessoa…já me informaram que seria «Kylindwo», não consegui confirmar nem desmentir. Seria mais do que natural escolher esse nome que significa o mesmo que Fado, destino, mas com mais influências…
João Pedreira – Além disso parece Que Lindo com sotaque…

Contem-nos um pouco do vosso percurso musical, como se conheceram e como surgiu este projeto?
Pedro Alves Duarte – Todos os elementos da banda são músicos profissionais, a maioria são professores de música. Todos se iniciaram na música em criança ou durante a adolescência, tendo uns tocado com bandas com discos de platina, ouro e prata, e outros com artistas de renome nacional. No meu caso pessoal aprendi a tocar sozinho, depois estudei com diversos nomes grandes nacionais, estrangeiros e em diversas escolas, tendo tirado um master em performance musical em guitarra na Berklee College of Music. Adicionalmente fundei a Escola de música moderna EMMA em 2009.
O João é um cantor com nome na praça, reconhecido por todo o lado onde vai. Letrista e compositor, passou a juventude a tocar e a cantar profissionalmente. Atingiu um grande «spot light» após a participação no concurso da SIC «Família SuperStar» e de toda a envolvência decorrente dessa participação, onde foi um dos concorrentes mais badalados tendo visto a sua imagem por todos os jornais e revistas.

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João Pedreira – O terceiro elemento a entrar foi o Joaquim Preto que conheceu a estrada e o sucesso bem cedo ao integrar os icónicos Ritual Tejo, sendo hoje um dos mais experientes bateristas nacionais com vários discos de prata, ouro e até platina que após uma época de semiclausura e estudo se começou a dedicar também a outros géneros musicais, além do rock.
Neste momento contamos também com a participação do Ivan Pedreira, meu irmão no baixo, do Tiago Simão, no violino, e do Emanuel Pantera, nas congas, ou seja todos os elementos são grandes músicos com bastantes feitos no seu C.V.
Pedro Alves Duarte – No single «O Que o Futuro» participaram também o Daniel Vieira Salomé, no saxofone, e o Gonçalo Leonardo, no baixo, que também recrutei para serem docentes na Escola de Música Moderna EMMA, tal como o Quim Preto e o Tiago Simão.
Conheci o João e o Ivan quando éramos teenagers justamente por causa da música. Frequentávamos a mesma escola secundária em Colares. Todos já tocavam e como se morava apenas a uns escassos dois km de distância, foi inevitável o encontro numa qualquer sala de ensaio. Após participações nos projetos uns dos outros, cada um rumou ao seu caminho com bandas diferentes, artistas diversos e a solo, no caso do João.
João Pedreira – Após uns bons anos e em conversa sobre música surgiu a ideia de juntar o fado com todos os estilos «familiares» de origem comum. Nasce assim da ideia que os estilos musicais que derivaram do antigo Lundum poderiam ser juntos numa amálgama de conceitos musicais aparentemente heterogéneos.
Pedro Alves Duarte – Para que isso pudesse acontecer, teríamos de encontrar músicos com determinadas influências de forma a influenciar a totalidade do som. Nessa altura convidámos o Quim, que tinha «recrutado» anteriormente para uma posição de docente de bateria na Escola de Música Moderna EMMA, para tocar bateria na banda. Após termos descoberto a sonoridade que se pretendia enquanto trio, fomos convidando músicos específicos para tocarem os restantes instrumentos.

Apresentam-se como uma «jam band». O que significa isso?
Pedro Alves Duarte – A Jam band que mais se conhece atualmente talvez seja“Dave Mathews Band. Estou em crer que o conceito se iniciou com os Greatful Dea” nos anos 60 e resume-se a definir bandas que, para além dos temas ou versões destes, fazem extensas prolongações de improvisação livre nos concertos. Nos anos 90 e 2000 o conceito estendeu-se o conceito de jam band a bandas de World Music e Fusão.
João Pedreira – É isso, quer dizer que damos sempre privilégio às atuações com improvisação e em conjunto como banda.

Europa, América Latina e África, isso é um mundo de influências…
Pedro Alves Duarte – É o mundo CPLP e vizinhança! Vejamos, modinha e fado de Portugal e um toque gitano que pode vir de França ou Espanha do flamenco e do manouche; samba, bossa-nova, maxixe e chorinho do Brasil, um toque tangueiro da Argentina, mais ainda a morna de Cabo Verde e a coladeira, os ritmos soca de Angola e o Moçambique, mambo e claves cubanas, harmonia jazz, improvisação jazz latino e atitude pop/rock…muita coisa mesmo. Já vi numa crítica num site americano que nos dava também influências de blues, outras críticas dizem que «não é fado», tanto uma crítica como a outra me parecem ridículas pois de blues tem quase nada e não nos rotulamos de fadistas à antiga! Somos uns dos novos fadistas, fadistas da época da aldeia global e da internet!
João Pedreira – E eu tenho influências muito fortes de R&B, blues, e soul americano devido a ter-me iniciado a cantar e tocar com o meu Pai que ouvia Otis Redding, B.B. King, The Platters, Ray Charles, etc.

É o fado o «Pai» de todas as vossas composições?
João Pedreira – Sim! Em primeiro lugar, o tema surge enquanto fado com as influências desde a Amália ao Marceneiro…
Pedro Alves Duarte – …depois esse tema «à fado» é desmontado até ser adaptado a integrar influências rítmicas afro-cubanas e/ou latinas e harmonia avançada usada maioritariamente em jazz tais como acordes com extensões e alterações, substituições, tonalidades paralelas, progressões II V I, etc. Outros temas surgem do processo contrário…
João Pedreira – Não é um processo nada fácil pois as primeiras canções surgiram como aberrações disformes desprovidas de sentido. Demorou muito tempo até se conseguir criar uma identidade sonora com a qual nos identificássemos e a evolução como banda tem sido vertical.

Como descobriram a dança lundu e qual a sua importância na vossa música?
Pedro Alves Duarte – O que é que existe primeiro a dança ou a música?! Lundu neste momento é a música tradicional da Bahia no Brasil mas foi em Portugal que o Lundu ou Lundum apareceu.
Segundo os registos históricos como essa música era sincopada, as danças ao seu ritmo eram feitas de forma muito próxima chegada, dançando a umbigada ao som do Lundum. Por causa desse motivo o Lundu foi expulso das cortes Portuguesas e foi levado para as ruas de Lisboa e para Colónias. Em cada local foi transformado em estilos diferentes e desenvolveu-se de forma independente mas mantendo determinadas características. Em Lisboa esse estilo de música transformou-se em modinha cujas melodias eram semelhantes ao estilo chorinho Brasileiro.
João Pedreira – Por cá as «modinhas» ficaram mais tristes com a ausência da percussão outrora vinda das influências ultramarinas, apareceram então os fados. Por outro lado, no Brasil o Lundu ganhou mais ritmo e evoluiu para samba, em Cabo-Verde evoluiu para os tempos lentos e sincopados da morna e mais vivos na coladeira, e em Angola para o semba.
Pedro Alves Duarte – A forte influência do Lundum também existe na habanera em Cuba, e no tango Argentino, além de se sentir também no Uruguai. Assim a importância do Lundum em Kilindu é igual à importância de um tetra-avô paterno: pouco presente na memória quotidiana mas incontornável à própria existência!

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Em 2012 lançaram um EP, «Fado Novo». Como foi a aceitação do público?
Pedro Alves Duarte – O EP «Fado Novo» é apenas uma prova de conceito, pouco mais do que uma maqueta de um edifício. Até porque inicialmente não era para ser lançado.
João Pedreira – Porém, devido a ter-se conseguido alguma «forma artística» no resultado final, achou-se por bem sublinhar a existência do registo, que se considerou ser relevante, apesar da pobreza dos meios de produção envolvidos na altura.
Pedro Alves Duarte – Acabámos por lançar a maqueta como EP via digital para todo o mundo e até por fazer uma edição física por solicitação da FNAC. Com esse trabalho conseguiu-se reunir uma base de dezenas de milhares de fans online, tanto nacionais como estrangeiros, no Facebook e no Twitter.
O mais curioso é que a banda conseguiu fazer vendas de downloads desse lançamento nos EUA, e ser semifinalista no International Songwriting Contest, obtendo adicionalmente o primeiro lugar para o nosso estilo de música em Portugal no reconhecido site ReverbNation.
João Pedreira – E a atuação no Optimus Alive 2013 após sermos os mais votados na votação dos fans…
Pedro Alves Duarte – Mas não sei se alguma vez vamos considerar o EP como algo mais do que uma maqueta…

Para quando o lançamento de um novo registo?
Pedro Alves Duarte – A 06 de janeiro foi lançado o single e videoclip gravado em julho. Este single é a versão bem gravada do tema «O que o futuro nos traz» que também esteve presente na maqueta/EP «Fado Novo» mas com a qualidade de topo do estúdio Atlântico Blue, onde o álbum está a ser gravado e que nos permite gravar como pretendemos e com excelente qualidade.
João Pedreira – Como a banda grava em Ensamble, todos juntos, como gravavam os artistas na editora Blue Note, em take único, sem cortes nem costuras, necessitamos sempre das condições ideais de trabalho tanto em termos de material como em termos de estado de espírito…
Pedro Alves Duarte – O álbum vai sair a 31 de maio caso tudo corra como o previsto. Neste momento preferimos fazer uma edição de autor mantendo a totalidade dos direitos da master visto que o investimento está a ser feito pela minha empresa enquanto editora em apoio às atividades artísticas, o que abre as portas a futuras edições de Kilindu e outras bandas de músicos que obtenham a sua formação em música moderna na EMMA.
João Pedreira – Até lá os fans podem ir ouvindo o single nas rádios ou o videoclip no youtube e na televisão.

O que vai distinguir este do trabalho anterior?
Pedro Alves Duarte – A primeira diferença é a qualidade de gravação que é totalmente diferente.
João Pedreira – As condições e a maturação das músicas…
Pedro Alves Duarte – Todos os temas da maqueta/EP vão estar presentes no disco mas agora com excelente qualidade, além de sete temas adicionais, um deles com letra do poeta Ruy Belo. O violino aparece em destaque e outros instrumentos diferentes como o três cubano.
João Pedreira – São 12, os temas que constituem este disco. Temos muito boas perspetivas visto que o lançamento do single está a ser muito bom com dezenas de milhares de visualizações (que deverá passar a centena de milhar na altura desta publicação) e com bom feedback em Portugal, Brasil, Reino Unido e Estados Unidos.
Pedro Alves Duarte – Com este single entramos em airplay de muitas rádios não só nacionais, estamos em «spot light» no Independent Music Awards, que é o maior programa de entregas de prémios para bandas independentes…uns Grammys dos indie!
Temos obtido críticas excelentes por afamados críticos tal como o Chuck Taylor da BillBoard e American Top 40, recebido contatos de editoras interessadas em trabalhar connosco, ainda sem conseguirmos acertar nas condições que nos interessam, canais de televisão no estrangeiro para inserção em séries e até do famoso produtor de Hollyhood Charlie Mac vice presidente da Makaveli Records que trabalhou com Eminem, Robert De Niro e o lendário Tupac já nos veio felicitar pelo trabalho e propôs-se a ajudar pro bono.

Já tem nome?
João Pedreira – Já apareceram vários nomes, vamos ver qual é que fica! Vai na volta pergunta-se aos fans! Cantam, obviamente, em português mas a vossa sonoridade vai além da língua falada.

O que é que pretendem transmitir ao mundo com a vossa música?
Pedro Alves Duarte – Esperança no futuro, contemplação da beleza da simplicidade, valorização do próprio, orgulho nas tradições e raízes, bondade, lealdade, inteligência, muito trabalho e coração puro!
João Pedreira – Através de pequenas histórias e pequenos contos tentamos dar luz ao que é a cultura lusófona.

Como encaram o futuro da música em Portugal?
João Pedreira – O futuro da música em Portugal será o reflexo da procura de música por parte dos ouvintes em termos internacionais.
Se conseguirmos olhar para dentro e ver as nossas raízes, vamos encontrar as nossas forças para crescermos «lá fora» enquanto criadores de certos tipos de música de qualidade que sejam originais, coerentes e acima de tudo genuínos.
Apesar existirem poucos incentivos, transversalmente e não só na música, o portugueses tem qualidade ao mesmo nível de qualquer outra nação
Pedro Alves Duarte – Para cada trend existe um anti-trend e esses novos nichos de mercado são criados em escala macro mas em dimensão micro, assim sendo, uma banda indie em Portugal erá a mesma oportunidade de vender um disco no iTunes como uma semelhante de Ohio. -Mas será que devem fazer o mesmo tipo de música? Estou em crer que não! Não me parece que o futuro da música Portuguesa esteja assente em querer fazer cá dentro o que se faz lá fora, tem de ser o contrário! Temos de querer fazer cá dentro e levar lá para fora…o que se faz cá dentro!
A indústria musical nacional está cheia de excelentes profissionais, a maior parte de facto, mas há sempre uns «carunchos» instalados que mais tarde ou mais cedo vão acabar por desaparecer pois hoje em dia nesta «aldeia global» as bandas já não se compactuam com operadores de índole oportunista que nem sabem o que é o reverbnation ou o spotify!

Que música não conseguem parar de ouvir?
Pedro Alves Duarte – Neste momento durante o trabalho de arranjo e gravações quase que não se arrisca nada em apostar «all in» que todos da banda andam a ouvir os próprios temas vezes sem conta…
João Pedreira – Quanto ao resto das influências, todos os elementos são tão diferentes que raramente devem ouvir o mesmo tipo de música.
Pedro Alves Duarte – Pessoalmente estive a ouvir neste momento Frankie Chavez… (gosto do slide guitar) na transmissão direta do surf do McNamara a apanhar umas ondas na Nazaré.
João Pedreira – Por acaso vinha a ouvir Caetano Veloso no carro…

Qual o vosso maior desejo como banda para o ano de 2014?
Pedro Alves Duarte – Em primeiro lugar que seja um ano de retoma económica para Portugal e que consigamos sair à «Irlandesa» sem tropeções económicos que podem deitar por água abaixo qualquer um dos melhores planos.
João Pedreira – Em segundo pretende-se que o álbum fique com uma excelente qualidade e que consigamos divulgar da melhor forma nos locais certos.
Pedro Alves Duarte – Em terceiro gostaríamos de ficar bem colocados no Independent Music Awards e participar este ano nos Grammys Latinos.

Onde e quando vamos ter oportunidade de ver os Kilindu ao vivo?
Pedro Alves Duarte – A tournée de apresentação do novo trabalho irá ter início assim que sair o disco. Temos concertos por confirmar dentro e fora de Portugal, datas de show cases por definir e uma agenda com demasiadas variáveis nesta altura para conseguir listar!
João Pedreira – Estamos tão embrenhados no disco que não queremos ainda definir muita coisa sobre a tournée que pode ser definida em inícios de maio.
Pedro Alves Duarte – Contudo uma das datas que vamos poder divulgar é o dia 26 de julho no Olga Cadaval, em Sintra. Não se esqueçam de visitar o nosso site em www.kilindu.com e acrescentar o vosso like e «seguir» Kilindu em https://www.facebook.com/kilindufadonovo para ir acompanhando as noticias! Tivemos muito gosto em estar convosco este bocadinho e até sempre!

Por: Sandra Pinto

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