À Conversa com Frankie Chavez

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Tendo como pretexto o lançamento do seu mais recente álbum, “Heart & Spine”, estivemos à conversa com Frankie Chavez. Falou-se de discos, da família, de blues e de rock. Com concertos agendados para o Rock in Rio Lisboa e para o Super Bock Super Rock, o músico revelou o que espera desses dois concertos.

– É a música uma paixão antiga?
Sim! Comecei muito cedo, com 9 anos a tocar guitarra, mas lembro-m que antes disso as minhas brincadeiras la´em casa passavam por ouvir Bruce Springsteen e brincar com uma guitarra de plástico. Imaginava que estava em cima do palco! Mais tarde, já depois de ter aprendido uns acordes com o professor de múisca da escola comecei a tentar aprender músicas sozinho, de ouvido o que correu bem. Depois vieram as bandas, até porque o meu irmão tinha uma bateria e eu tocava com ele. Mais tarde, tinha eu 20 anos, conheci o Tiago Bettencourt e o Afonso Maia. O Tiago escrevia as músicas e o Afonso tocava bateria, mas precisavam de um baixista e foi ai que eu entrei para aquilo que depois se tornou nos Toranja. Entretanto eu estava na faculdade, fui para Barcelona fazer Erasmus, ficando a música como uma espécies de side project. A verdade é que em Barcelona comecei a tocar em bares e acabei por fazer um curso de jazz. Quando voltei comecei a tocar mais em bares, tocava covers mas apresentava já alguns originais. Aí a música começou a ganhar outra forma…

– Foi quando a paixão rebentou?
(risos) Ainda não rebentou, mas veio a ficar cada vez mais presente e a ganhar mais força na minha vida, quase parecia dizer «olha, eu estou aqui e tu não me pegas porquê?». Foi nessa altura que eu percebi que a música era algo muito especial para mim. Quando acabei o curso quis voltar a viajar, mas viajar a tocar e a fazer surf, pelo que resolvi ir para a Austrália, onde fui tirar uma especialização em marketing. Aí é que eu tive a revelação! (risos) Percebi que o que eu queria fazer era mesmo música. Mas já tinha 26 ou 27 anos e não dava para voltar para casa dos pais e dizer que agora ia ser músico, pelo que fui trabalhar. Ao mesmo tempo ia gravando coisas, sendo que quando tive a possibilidade de ir gravar nos estúdios da Indigo músicas ganharam uma coesão e um som muito melhor. O grande pontapé de saída foi quando o Henrique Amaro me ligou a dizer que tinha ouvido as minhas músicas e que estava interessado em editá-las. Foi uma surpresa pois eu na altura não sabia quem era o Henrique (risos). Quando falei com o Jorge Bizarro, meu amigo e manager, é que percebi a importância do Henrique no mundo da mundo. Aí é que as coisas mudaram! De um momento para o outro tinha músicas minhas a passar na rádio e comecei a ter alguns convites para ir tocar.

– Foi um bocadinho uma loucura deixar o marketing para te dedicares só à música…
Foi, mas tudo isto não foi imediato. Gravei o EP em 2010, o disco em 2011 e só no final de 2012 é que pensei «agora ou vai ou racha», porque ao longo de 2012 comecei a tocar cada vez mais e cada vez mais lá fora, pois tinha conseguido por a minha música na Alemanha e na Holanda. Foi nessa altura quando me marcaram uma tour de sete ou oito datas que eu percebi que não dava para eu manter o trabalho pelo que pedi uma licença sem vencimento. Nessa altura já estava casado e o meu primeiro filho tinha dois anos e fiquei naquela como é que vai ser… Ainda hoje não sei como é que vai ser!

– Mas já dá para fazeres um balanço?
(risos) Sim, já dá. Tem sido muito positivo pelo que não estou a pensar voltar atrás. Mas só o farei se perceber que de alguma forma está em causa o que de mais importante tenho vindo a construir que é a minha família. Inclusive, tenho um disco com o nome deles, o Family Tree foi feito a pensar na minha família.

– Foi a guitarra desde o início?
Foi logo de inicio sim. Lembro-me de a minha Mãe me dizer que achava que eu devia ir ter aulas de guitarra porque «temos uma cá em casa e vai ser muito giro tu nos acampamentos a tocar guitarra com os amigos à volta», e assim foi (risos).

– Bom, a tua Mãe queria um filho músico cheio de pinta…
(risos) A minha Mãe sempre foi muito de dizer «tu podes fazer o que quiseres, mas tens de fazer um curso e tens de trabalhar por segurança», sempre me apoiou.

– Reparei que lhe dedicaste este teu último disco…
Sim, dediquei. A minha Mãe adorava ouvir-me tocar e ia sempre aos concertos.

– Não mantiveste o teu nome e deste um twist latino ao teu nome artístico. Porquê?
O meu apelido é Chaves, na Austrália e em Espanha chamavam-me de Chávez. Quando voltei da Austrália fui gravar na Indigo com o produtor Francisco Faria com quem já tinha cruzado nas andanças do surf. Mas antes de gravar fomos dar uma volta e surfar para pensar bem no que queríamos fazer. Na vinda de Aljezur em conversa pensámos que eu tinha que ter outro nome que não o meu, e aí surgiu o Frankie Chavez (risos). Dois dias depois já tinha o nome no My Space, num endereço de e-mail e em todo o lado. Já não havia volta a dar. Fiquei Frankie Chavez que muita gente pensava que era estrangeiro…o toque final foi decidir colocar o z em Chavez (risos).

– Imagino que não seja muito fácil viver apenas da música, achas que há mercado para o género de música que fazes?
Cá em Portugal talvez não seja dos géneros mais apetecíveis, mas tem vindo a gerar maior curiosidade. Considero que apesar de aquilo que eu faço não ser uma coisa super original, tem o seu quê de originalidade no sentido em que meto uma guitarra portuguesa num género que vai buscar ao rock e aos blues muita influência. Gosto das guitarras sempre muito acústicas (menos neste disco porque quis dar espaço à guitarra elétrica), mas aquele ambiente onde eu me movo e onde vou buscar influência ter lá uma guitarra portuguesa, ter um baterista que às vezes me acompanha, cantar em inglês acho que isso torna tudo meio diferente, apesar de ser algo que já existe. One man band sempre houve, desde os anos 20, mas colocar ali guitarra portuguesa com outras afinações é que eu acho que não há. E misturar isto com uma sonoridade rock de um músico que vem de Portugal é para quem me ouve no estrangeiro algo de diferente. Por exemplo em Itália quem me ouviu a primeira vez gostou porque achou diferente a presença da guitarra portuguesa num universo de blues e rock. Por outro lado, misturo um leque de canções que vão desde o rock ao folk, músicas muito calmas a outras mais elétricas e uma coisa que eu gosta e acho que resume isto tudo é quando eu vou a uma auditório e tenho três gerações no público, como aconteceu por exemplo em Seia. Tinha o avô, o pai e o filho e isso é muito giro (risos). Respondendo à tua pergunta, sim acho que ainda há mercado para a música que faço.

– Já agora, porquê os Blues?
É a minha base é um estilo de música que eu gosto muito e gosto de desbravar pois acho que há muito ainda para conhecer dos blues, pelo menos para mim. O blues é baseado na guitarra, é ela a essência do blues. E eu adoro guitarras, sejam elas elétricas, acústicas, portuguesas, o que for. Logo gosto de explorar as sonoridades das guitarras, de fazer coisas novas com as guitarras, de mudar a afinação, de tirar uma corda, ou seja, explorar de maneira a criar. Numa óptica global tivemos o Jimmy Hendrix e muitos anos depois o Jack White que toca daquela maneira brutal!

FRANKIE CHAVEZ PORTRAIT FOR CD COVER AND PROMOTIONAL USE

– No disco que agora lançaste, “Heart & Spine” há mais rock. O que te levou a eletrizar um pouco mais a tua música?
Foram três coisas, a primeira foi a fase da vida em que estou, em contraponto àquela em que estava na altura da gravação do “Family Tree”, em que estava a constituir família e as músicas foram escritas a pensar nisso mesmo, no facto de me ter casado, no nascimento do meu primeiro filho, estava a criar o meu ninho e aí as coisas são mais doces. Depois veio a ressaca, ou seja, a realidade que é estrada, o conciliar a família com os concertos e o estar longe de casa, foi duro. A segunda foi eu fazer o disco numa altura em que Portugal não estava nas melhores condições para se ser um músico independente e tentar ter datas de concertos e só ouvir muitos não. Mesmo assim consegui ter os meus concertos pelo que o balanço até foi positivo, mas foi uma luta. Por último, comecei a tocar com o João Correia, com quem eu adoro tocar e que tem uma sonoridade à John Bonham (baterista dos Led Zeppelin) e o nosso som evoluiu para uma coisa mais rock and roll. Quando chegou a altura de gravar os temas em que tocamos juntos estávamos tão alinhados que só podiam ser gravados como foram e de nenhuma outra forma. Ou seja, chegarmos ao estúdio e gravarmos tal e qual como quando tocamos ao vivo. E isso dá um resultado totalmente diferente ao disco. Outra coisa super importante foi a mistura, que neste disco não teve grandes artifícios, era aquilo que ali estava e mais nada. Queria uma coisa crua, direta à espinha, direta ao osso e acho que conseguimos isso. Por outro lado, a faceta calma e ternurenta de alguns dos temas que fazem parte da minha música e da minha musicalidade…

– E os facto de teres colocado vozes femininas…
Sim, a Erica tem uma voz muito doce. Quando escrevi aquele tema não o pensei como um dueto, mas depois percebemos que talvez fosse giro colocar uma voz feminina fazendo ali uma dualidade, com uma quadra cantada por cada um de nós.

– “Family Tree” andava à roda da família, do processo de constituir família. Mas agora com o novo disco o registo mudou, pois trazes para cima da mesa as dificuldades pelas quais passamos hoje. Sentes necessidade de passar para a música as tuas preocupações?
Sim, não sei se será necessidade ou se é uma coisa mais natural. Quando escrevo faço-o sobre aquilo que sinto e ás vezes sinto até alguma frustração por não conseguir transmitir aquilo que quero para o papel. Mas há coisas imediatas, por exemplo lembro-me que a letra mais imediata do disco deve ter sido o «Sweet Life» que foi mesmo na fase de transição entre aquela linha de depressão em que eu estava (era inverno, pessoal a sair de Portugal, não tinha datas para concertos, a crise) e o primeiro dia de Sol em que fui surfar e pensei que a vida tem outras coisas boas, muito boas, o problema é que estamos tão focados em tudo o que é mau que esquecemos o resto. E foi nessa altura que eu escrevi aquela letra. Acho até que a escrevi numa tarde. Mas depois há outras letras em que ando ali a remoer e escrever em inglês nem sempre é simples, pois não é a minha língua base. Mas quero que aquilo que escrevo seja honesto e verdadeiro. A letra tem de ter conteúdo.

– Lançaste o disco com recurso ao “crowdfunding”, tal como muitos músicos e bandas têm feito ultimamente. É este um caminho cada vez mais viável para se conseguirem lançar discos?
Acho, sem dúvida, que é um dos caminhos. Na altura não conhecia bem o conceito, apesar de já ter ouvido falar. Foi através de amigos que tomei conhecimento da PPL, a empresa que faz crowdfunding em Portugal e achei que fazia todo o sentido. Se todas as pessoas que me seguem participassem ia correr bem, e correu muito bem. Quem participou recebeu em troca coisas no valor da participação. Crowdfunding não é uma esmola, é uma ajuda coletiva entre os músicos e os fãs! As pessoas recebem o disco, uma t-shirt, o que seja.

– Tens tido feedback de quem participou no crowdfunding?
Sim, já recebi várias mensagens a dizer que gostaram muito, que o disco está um espetáculo (risos).

– No disco contas com uma mão cheia de boas colaborações. (João Correia, Nuno Lucas, Erica Buettner, Selma Uamusse, Daniel Lima, Pedro Pinto, Fred Martinho e o Groove Quartet). Como aconteceram estas colaborações?
O João Correia foi imediato poi já faz parte do projeto, a Erica conheci-a em 2012 e gostei imenso do que a ouvi cantar pelo que lembrei-me logo dela para este disco, o Nuno Lucas porque tinha que ser! Eu toco com ele em Tape Junk onde ele é o baixista, é um músico super seguro, super responsável, é ótimo tocar com ele. Quando gravei a música onde veio a participar a Selma pensei que ficava mesmo bem uns coros com vozes femininas vindas da soul…e chegar ao nome dela foi muito simples. Ela era perfeita para aquilo que eu queria e para aquela música.

– “Pine Trees” destaca-se por não ter voz, o que faz dela muito especial no alinhamento do disco. Como nasceu esta música?
Esse foi um tema que eu gravei em casa. É uma música diferente porque é uma guitarra elétrica a fazer um dedilhado e uma guitarra portuguesa. E ambas casam muito bem. Achei piada como é que estes dois tipos tão diferentes de guitarras são capazes de conversar tão bem. Aquela música sempre me lembrou um pinhal que existe perto da casa dos meus pais onde eu brincava quando era miúdo, daí o nome de “Pine Trees”.

– É quase um acalmar no meio de um disco tão forte…
(risos) É para acalmar os ânimos. Este disco tem picos que refletem o que foi a minha vida durante o último ano. Fui Pai pela segunda vez em junho do ano passado e a minha Mãe morreu três meses depois. Estás a ver o pico de emoções pelos quais passei…

– Como foi a experiência de compor a banda sonora do documentário «Pare, escute, olhe», de Jorge Pelicano? Agrada-te musicar imagens?
Adorei! Gosto muito de fazer música para filmes pois a música ganha força e, principalmente, as imagens ganham ainda mais força com a música. Também já fiz dois documentários sobre a Nazaré. É uma coisa que gosto mesmo muito de fazer. Aliás, a parceria que fiz com o Jorge Pelicano foi a de ele fazer o meu videoclip e sempre que ele precisar de música para filmes sou eu que faço (risos).

– Estás confirmado para dois grandes eventos musicais deste ano: o Rock in Rio Lisboa e o Super Bock Super Rock. Com públicos muito diferentes o que esperas destes dois concertos?
Acho que o Super Bock Super Rock vai ter mais público meu, porque é um festival mais familiar no sentido em que vou atuar no palco Antena 3, que me apoiou desde o início, depois todo o cartaz desse palco tem muitas bandas que muita gente vai querer ver e por último o público deste festival já está mais definido. digamos que é menos generalista do que o público do Rock in Rio. Por outro lado, o Rock in Rio leva com muito mais pessoas, sendo que há uma possibilidade maior de gente que não me conheça me vá ouvir pela primeira vez e isso é especular.

– Vais tocar em que dia?
Eu toco no dia de uma banda que se chama Rolling Stones, sabes quem são? (risos). Tive essa sorte!

– E tournée no estrangeiro, estão programadas?
Já fomos a Itália e tem corrido bem. Fui a Itália a primeira vez em 2012 e correu logo muito bem, sendo que voltei no ano seguinte para mais dois festivais. Ao princípio tentámos entrar pela Alemanha e pela Holanda mais é mais complicado.

– Quais os músicos que mais te influenciaram ao longo dos anos?
Ben Harper, Jack White e Jimmy Hendrix. E o Bruce Springsteen sobretudo ao nível de postura.

– Se te pedisse para escolheres dois nomes que hoje te enchem as medidas quais seriam?
Ando a ouvir muito uma banda inglesa que se chama Band Of Skulls, tem um som brutal e têm uma grande pinta em palco, um baterista brutal e uma baixista com muita pinta. Também tenho ouvido muito White Denin e um guitarrista de blues que se chama Kelly Joe Phelps. Por cá o Samuel Úria, nas letras e é um show ao vivo, o grande Jorge Palma e os Capitão Fausto.

Texto: Sandra Pinto

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